Créditos: Divulgação
21-08-2026 às 10h18
Marcos de Noronha*
Em agosto de 2026, em Rio Preto, interior de São Paulo, o Congresso Sinapse reuniu profissionais interessados em saúde mental. Foi realizado de forma híbrida (presencial e transmitido pelo YouTube), tendo como tema o “encontro da pesquisa com a prática clínica”. Numa sala secundária ao evento principal, a psiquiatra Ester Franco e Souza apresentou: “Liderança e Manipulação? Os caminhos para o bem e o mal”. A médica destacou os trabalhos de Solomon Asch, datados da década de 50, e o estudo de Psicologia de Massas de Freud, escrito em 1921.
Os experimentos de Solomon Asch — psicólogo social polonês-americano — resultaram na teoria do Fenômeno da Conformidade, de 1951. O autor concluiu que as pessoas alteram seus julgamentos para se alinharem à maioria, mesmo quando a maioria está claramente errada. No período eleitoral, exacerba-se a manipulação de dados de pesquisas, muitas vezes de forma escandalosa, para direcionar os eleitores a votarem no suposto candidato mais popular. Este crime não é exclusividade nossa, mas é recorrente no Brasil. Contribuições como a da psiquiatra Franco e Souza, ao explicar os bastidores desse comportamento das massas, podem nos ajudar a lidar com as tentativas de manipulação, não somente no cenário político, mas no cotidiano.
Depois das inúmeras verificações desse experimento inicial, presume-se que um terço das pessoas é levado a acreditar na escolha da maioria, deixando de lado suas próprias convicções. Cerca de outro terço mantém-se coerente, mesmo com algum desconforto. A unanimidade é também um fator de grande influência, mas basta uma pessoa fazer uma escolha dissonante para que a conformidade à escolha errada, decidida pela maioria, diminua. Um terço dos participantes desses experimentos mostrou total independência da escolha dos demais. Outro dado é analisar os perfis desses participantes e fazer uma analogia com suas escolhas, separando os submissos dos arredios. Como foram na infância, na validação ou não de suas ações por seus genitores e por pessoas influentes? Em alguns lares não prevalece a negação das percepções das crianças, e isso molda seus comportamentos.
Não foi à toa que escolhi como título do meu novo livro “Polarização – Sintoma de uma Doença Social”. A sociedade se deparou com um aumento expressivo de uma polarização patológica. Estendendo-se do indivíduo às massas, há um terreno repleto de questões oportunas para refletirmos, em que as manipulações sociais foram escaladas pelo mundo digital. A conferencista Franco e Souza lembrou Jung: “A massa devora invariavelmente o indivíduo que está firmemente fundamentado em si”. O que a sociedade precisa, além do fortalecimento de suas instituições e garantias democráticas, para não sofrer diante das manipulações?
No final de sua vida, Freud, mesmo ainda de forma rudimentar, tentou refletir, no cenário pós-Guerra, sobre a psicologia das massas. Foi mais feliz, a meu ver, seu ex-aluno Wilhelm Reich sobre o tema, quando analisou a ascensão do Nazismo em sua época, em que foi obrigado a escapar da perseguição aos judeus na Europa. As referências de que Freud dispunha em sua época foram Le Bon, McDougall e Trotter, premissas teóricas que na atualidade foram melhor desenvolvidas. Dessas reflexões se extrai o “efeito de contágio”, refletindo sobre a sugestionabilidade e seus bastidores.
O que nos faz transgredir nossas barreiras morais para cometer um deslize? Estamos buscando pertencimento? Como os experimentos, por exemplo, de Henri Tajfel e John Turner, poderiam elucidar o posicionamento do indivíduo e de seus grupos, de forma a torná-los, muitas vezes, cruéis? O fenômeno do “nós contra eles”, ou seja, a Teoria da Identidade Social, são referências mais contemporâneas. O conceito acima foi formalizado por Iyengar, Sood & Lelkes por volta de 2012 e despertou interesse nos estudiosos, principalmente de ciência política. Esse conceito foi desenvolvido por Henri Tajfel (1919-1982) e posteriormente ampliado por John Turner nos anos 70. Eles tentaram compreender por que pessoas formam grupos e passam a discriminar outros grupos mesmo sem conflito de interesses real. Esses experimentos podem elucidar os mecanismos psicológicos do preconceito intergrupal.
Turner (1987) expandiu essas ideias para a Teoria da Autocategorização. Se Tajfel mostrou que a categorização gera discriminação, Turner explicou como isso acontece na esfera cognitiva. A autocategorização envolve um processo de despersonalização do self: em contextos intergrupais, a pessoa deixa de se perceber como indivíduo único e passa a se perceber como exemplar de uma categoria social. Isso explica por que, em multidões e movimentos de massa, pessoas que individualmente seriam pacíficas podem agir com violência coletiva — a identidade pessoal é substituída pela identidade social.
Polarização Afetiva é outra terminologia recente, de algo que ocorre no cotidiano. Podemos reconhecer a tendência de pessoas que se identificam com um partido de ver os membros do partido oposto como hostis. Mais um conceito para refletirmos sobre a polarização patológica, se pensarmos que a polarização afetiva não é divergência ideológica (polarização posicional). É hostilidade emocional. A polarização afetiva é quando a divergência política se transforma em aversão, desprezo e desumanização do outro.
E sobre Identidade Grupal? Se aprofundarmos esse fenômeno humano, poderemos classificá-lo da seguinte forma:
- Categorização social. O ser humano categoriza automaticamente o mundo social em grupos (nós vs. eles). Isso reduz a complexidade cognitiva, mas também ativa estereótipos e simplifica a percepção do outro.
- Identificação social. Eu não apenas “estou em um grupo” — eu sou membro desse grupo. Minha autoestima passa a depender do status e do valor atribuído ao meu grupo.
- Comparação social. Se meu grupo é “melhor” que o deles (em qualquer dimensão relevante — moral, intelectual, estética, esportiva), minha autoestima aumenta. Daí surge a motivação para diferenciar-se positivamente.
E quanto ao fenômeno dos nichos que criamos na sociedade atual, principalmente através das redes sociais? Vejam que, no meio web, buscamos acessar contas daqueles que nos falam o que gostaríamos de ouvir, desde que nada seja contra as nossas convicções ideológicas. Até hoje é com esforço que navego em nichos de opositores ao meu pensamento atual. Mesmo assim, minha maior motivação é analisar suas contradições e reforçar minhas crenças. Porém, tentando ser honesto, vejo quais convicções que carrego podem estar comprometidas ao me deparar com as postagens dos meus opositores. Câmaras de eco (echo chambers) são ecossistemas informacionais fechados em que indivíduos são expostos predominantemente a opiniões que confirmam suas crenças prévias, enquanto perspectivas dissidentes são filtradas, marginalizadas ou silenciadas.
De volta ao Congresso Sinapse de Rio Preto, conheci outro conferencista: Gabriel Pereira, que intitulou sua apresentação: “Não Sei que Nada Sei. Quanto subestimamos nossa própria ignorância?” Ele se baseou num experimento clássico: os Efeitos Dunning-Kruger, publicados em 1999 no Journal of Personality and Social Psychology. Se já sabemos que as plataformas digitais podem ser barreiras algorítmicas capazes de comprometer as democracias, é porque estamos cientes de que as plataformas digitais amplificam exponencialmente mecanismos de discriminação. Já o experimento escolhido pelo psiquiatra Pereira analisa o suposto conhecimento de uma pessoa que passa uma imagem de pessoa soberba, altiva e fechada para novas ideias e conhecimento. O experimento relaciona que conhecimento pode resultar em humildade, porém não se deve generalizar.
David Dunning partiu da suposição de que uma pessoa com menos informações tem mais convicção de que está certa do que o contrário, ao revisar a literatura. Com seu colega Justin Kruger, defenderam a tese do Fardo Duplo, dizendo que aquele com um déficit de conhecimento a respeito de um determinado assunto também carece de reconhecer que tem tal falta de conhecimento. Iniciantes no xadrez eram mais afoitos ao realizarem suas jogadas, comparados com os experientes. Se eu não sei tanta gramática, também sou incapaz de reconhecer o erro ao escrever. Usaram o termo “incompetente” para um determinado domínio. Eles fizeram um apanhado de 4 estudos na Universidade de Cornell com universitários.
Num desses experimentos, mostrou-se que os universitários que se acharam competentes em determinado quesito, na verdade, tinham atuado muito mal ao se depararem com as avaliações de expert no tema de domínio subjetivo. No segundo estudo, com 45 universitários de Cornell, baseado em questões de raciocínio lógico, quem acreditou ter tirado uma nota boa, na verdade, havia tirado uma nota ruim. Já no estudo 3, de gramática, os 84 participantes repetiram essa convicção, em que aqueles que acharam que foram bem, na verdade, foram mal. Um estudo complementar, ao ver o desempenho superior do colega, acabou elevando sua própria expectativa. Qual fator faz alguém se nivelar? O fator humildade conta?
O quarto estudo analisado pela dupla de autores conclui que competência gera precisão. Contaram com 140 estudantes, separando os que receberam treinamento e os que receberam apenas aulas sem relação com o tema. A conclusão ficou conhecida como efeito Dunning-Kruger ao revelar que “quem tem pouca habilidade superestima a si mesmo, e aquele que sabe muito se subestima”. O fardo duplo quer dizer: a falta de habilidade também para se autoavaliar (déficit metacognitivo).
Nesses experimentos, concluíram que, quando os menos competentes recebiam treinamento, conseguiam recalibrar sua autoavaliação — o viés diminui com a aquisição de habilidade real. Ao se reexaminarem tais estudos, com metodologia mais rigorosa, de regressão à média, observou-se que os resultados não são tão extremos como o estudo original sugere. Pereira, na sua conferência, esclarece que o argumento que sobrevive dessa experiência foi que a regressão à média não prevê que treinar alguém depois da prova mude sua autoavaliação. Conhecer as nuances por trás de nossas escolhas sobre questões manipuláveis pela mídia e plataformas digitais pode nos preparar para superá-las?
Pereira ilustra sua apresentação ainda com um artigo de 2018, anterior à pandemia, em que participantes menos capacitados se autoavaliaram de forma convicta de que haveria relação do autismo com as vacinações. Estes desprezavam o posicionamento de médicos e cientistas a respeito do mesmo tema. O acesso à informação, mesmo que disseminado, destoa do que é realmente verdade. Um outro experimento avaliando médicos mostrou que, nos casos difíceis, estes erravam e não foram capazes de pedir ajuda a um colega mais experiente. Se, como mostrou o conferencista, o feedback negativo é socialmente raro entre os médicos, por outro lado, sociedades que possuem espaço para esses feedbacks conseguem se atualizar e prosperam. O ser humano tem, de forma geral, dificuldade em reconhecer seus erros?
O ambiente político, por exemplo, parece uma guerra legitimada pela sociedade, em que tudo é permitido. Para vencer campanhas, muitos recorrem à difamação, à mentira ou à eliminação física do opositor. Mesmo aqueles que nutrem ódio por outra pessoa podem mudar sua postura se lhes forem oferecidas condições para um entendimento. No cenário político brasileiro recente e recorrente, o número de pessoas perplexas com o posicionamento contrário de amigos e parentes aumentou drasticamente. Reagimos com mais perplexidade, inconformismo, raiva e decepção pela discordância alheia, como nunca.
No meu novo livro, Polarização, selecionei diversos exemplos. Um deles foi uma personalidade americana, Arnold Schwarzenegger, se rebelando com as manipulações midiáticas. Ele conseguiu ponderar ao lidar com políticos contrários às suas ideias e, quando governador, tinha momentos de descontração no trabalho, ao fumar seus charutos cubanos, reunindo-se com diversas pessoas. Numa série na Netflix, disse: “Se você pensa assim, alguém mentiu para você”. Faz alusão ao posicionamento rígido que desenvolvemos, como decorrente de manipulações. Na série sobre sua vida, manda um recado aos soldados russos na Ucrânia: “Estou falando com vocês hoje, pois há coisas acontecendo no mundo que estão sendo escondidas de vocês”.
Na Rússia, como sabemos, há um controle mais rigoroso dos noticiários e das plataformas da web, que remonta ao período da URSS. A manipulação das informações ocorre em diversas partes do planeta, principalmente em ditaduras e países socialistas. Foram perversões na Alemanha que fizeram com que a população apoiasse um líder tão improvável como Hitler. Schwarzenegger atribui às manipulações o que leva o mundo a um conflito. “Mais de seis milhões de judeus foram mortos. Pessoas inocentes foram torturadas e mortas, só porque mentiram para elas.”
Na década de 80, fui aluno de José Ângelo Gaiarsa em São Paulo, autor do Tratado Geral da Fofoca, que atribui à fofoca um sintoma universal de dissociação psicossocial. O professor, também vítima de muitas fofocas a seu respeito, compara “resistência” a “preconceito”, em que a primeira é uma ação subjetiva e a segunda se refere aos limites de uma ação objetiva. Seguindo as influências do psiquiatra Wilhelm Reich, autor do desabafo Escuta, Zé Ninguém (1945), em que criticou o homem comum que se deixa massificar pelos poderes dominadores, cedendo aos discursos dogmáticos, Gaiarsa se pergunta: “Somos nós que fazemos a fofoca ou é a fofoca que nos faz?” Um de seus livros foi inspirado por Carl Rogers. Nele, Gaiarsa escreve: “Os bons resultados das psicoterapias ‘centradas na pessoa’ mostram o quanto é importante ser bem ouvido. Ouvir bem não é apenas saber o que o outro disse. É estar presente por inteiro, captar o tom de sua voz, a expressão do rosto, o contexto verbal (o assunto), o contexto vital do que fala (seu presente, os fatos principais de sua vida — na sua estimativa)”. O mundo digital em que nos metemos não ajuda a decifrarmos as expressões do nosso interlocutor, mesmo com a progressiva qualidade das imagens. O que podemos fazer para diminuir as reações negativas diante de uma pessoa com ideias opostas?
Luis Brusco, psiquiatra decano da Universidade de Buenos Aires, definiu pós-verdade como uma mentira sendo repetida, tentando convencer-nos de algo irreal como verdadeiro. No mundo digital, uma avalanche de dados inexatos é repetida, principalmente aqueles de difícil comprovação, enquanto outros visam neutralizar informações conforme interesses de manipulações midiáticas. Atualmente, eu só recorro ao Jornal Nacional da Rede Globo para estudar esses aspectos de manipulação. O termo “trama golpista” é repetido, mesmo após resultados de julgamentos e imagens mostrando o que ocorreu em 08 de janeiro. Com essas repetições, conseguem manter as impressões nos telespectadores do posicionamento político que defendem e dão impressão de um ativismo político, ao invés de jornalismo.
Brusco fala em “dispersão cognitiva”, dificultando as vítimas a tomarem um posicionamento, preferindo acatar as notícias mais pela emoção do que pela razão. Diante dos jornalistas ativistas, de algumas redes de TV, por exemplo, as pessoas têm tendência a “terceirizar o pensamento” e aceitar passivamente, mesmo o que é improvável. “Los sistemas de creencias producen la expectativa de confianza e impactan sobre la función emocional, racional y corporal de las personas”, escreveu Brusco no seu livro “El Cerebro Político”. Para isso, destacam a amígdala, responsável por uma emoção inconsciente, e o lobo pré-frontal, que nos conscientiza daquilo que cremos. Desesperadamente, a emissora precisa de que acreditemos nela, e os telespectadores, por seu lado, precisam de acreditar em algo. Estou falando de “necessidades” que comprometem a liberdade e o exercício do livre pensar.
Recorrendo aos estudos de Drew Westen, da Universidade Emory de Atlanta, ao analisar eleitores que descobriam contradições de seus próprios candidatos, o córtex cingulado anterior e o lobo pré-frontal ventromedial ficavam ativados na ressonância magnética funcional. São as mesmas áreas ativadas quando vivenciamos algo negativo, estressante ou que nos provoca dor, o que diferencia nosso posicionamento diverso diante de um candidato contrário à nossa referência. De que forma podemos explicar nossas indulgências com aqueles que escolhemos, mesmo nos deparando com seus deslizes? Com esse funcionamento, o sistema de crença e sua influência no cérebro determinam em que e como acreditar, seja no político e sua linha ideológica, seja na religião, ou em demais áreas que envolvem o “acreditar”, como, por exemplo, entre amantes. Nesses casos, quanto mais você tenta convencer um crente a deixar um determinado segmento, mais, paradoxalmente, você estimula sua resistência. Tarefa impossível, em que o sistema emocional coopta qualquer tentativa de argumentação racional.
As manipulações se estabelecem com esses mecanismos, os quais fazem parte do comportamento humano, em que os manipuladores procuram nos fazer acreditar naquilo que lhes interessava. Muitos de nós, pelo menos por pouco tempo, acabamos acreditando em algo que nada tem de relação com os fatos. Estabelecer critérios para sabermos a verdade e incluir, dentre eles, critérios propostos pela ciência pode ser o melhor caminho. A realidade virtual pode ser medida, confirmada ou não, no mundo real, mesmo que o cérebro seja um órgão passível de ser enganado e de se perder na ilusão, em algumas situações. Alguém está mentindo para você. E você continua acreditando?
*Marcos de Noronha é Psiquiatra titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), é psicoterapeuta e psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama. Preside a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e integra entidades internacionais dedicadas à psiquiatria cultural e transcultural. É um dos fundadores da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, autor de artigos científicos e dos livros Terapia Social e O Cérebro e as Emoções. Atua em Florianópolis coordenando grupos de Terapia Social nos setores público e privado, além de apresentar o programa Psiquiatria Sem Fronteiras e conteúdos do Humanitas TV no YouTube.

