Créditos: Divulgação
02-08-2026 às 09h00
Teresa Caniatti*
Convivi, intimamente, com esta história um par de anos. Coisa pouca. Uns quinze. Pouco mesmo para conseguir desvendar um mundo tão especial. Um mundo com alguns valores imutáveis e outros tantos que, a cada três rios, mudam, radicalmente, sem o menor constrangimento.
Conheci homens e vidas tão especiais que torço para que Zé Altino escreva o próximo livro, só contando sobre eles. Desses que só existem por aqui, desses que só nosso país consegue fabricar. Que nem Zé Altino! Ele é daqui. Ele é Brasil.
Não vejo muita gente nova com essa garra. Pior, não vejo, no Brasil espaço para serem criadas. Espaço onde sejam respeitados os valores individuais e uma capacidade ímpar de conviver com as diferenças.
Zé bem que preveniu que aquilo tudo era passagem de tempo. Os garimpos, aos poucos, iriam mudar, empresariar-se, e com isso aqueles homens, aquela poesia acabaria. É difícil citar alguns, porque foram tantos e todos tão maravilhosos, que, a seu modo, cada um era mais incrível que o outro.
Assim como os coitados dos jornalistas estrangeiros. Eles não entendiam era nada. Vinham convictos de que tudo seria facilmente condenável, até porque era, para os valores e cultura deles.
Vinham prontos para contar e recriminar o lugar e voltar com cara de missão cumprida. Mas se envolviam e encantavam-se, corrompiam-se, extasiavam-se de tal maneira diante das situações mais inusitadas, que todos, sem exceção alguma, acabavam se misturando e percebendo a magia dos lugares e das pessoas. Defendendo-os e ressaltando suas maravilhas, sofrendo na hora de ir embora, torcendo para que fossem enviados novamente para o Brasil.
Este Brasil primordial, maluco, querido, alucinante. Viravam um deles, como todos. Virávamos sempre um deles. É mágico, é fascinante, é quase doentio.
No meio deste caminho, um dia, quis saber como o Governo via isso tudo, os garimpos, esses homens e, sobretudo, o próprio Zé Altino. Eu tinha amigos no SNI. Coisa séria, pesada, em pleno governo militar.
Quase ninguém, na época, arriscava-se a bater de frente com aqueles valores e, no fundo, o que eles pensavam era fundamental. Já que tinham o poder nas mãos, tinha que ser. Depois de muito esperar, chegou uma frase, sintetizando o conceito que os governantes faziam dele: “mal necessário”.
Custei muito a entender e aceitar. Mas, era por aí, mesmo. Zé Altino, mineiro de boa cepa, herdou a fortaleza do coronel Altino, a altivez de dona Aurita e, por cunho próprio, somou uma dose de coragem, com pitadas de intolerância, tornando-se o interlocutor dos garimpeiros. Mais que isso, a interface entre o oficial e a insanidade. Era a ligação entre os dois mundos. Aliás, a única.
O Governo teve que engoli-lo a seco e suportá-lo e, até, muitas vezes, consultá-lo. Ele defendendo sempre e primeiro os interesses dos garimpeiros, representando quase um milhão de homens e algumas toneladas de minérios, lastro da economia do Brasil, desagradava as autoridades. Só que, em quase todas as batalhas contra eles, de um jeito ou outro, os garimpos venciam.
*Tereza Caniatti é química e jornalista

