Créditos: Divulgação
22-07-2026 às 08h46
José Altino Machado*
Em sua ação devastadora, o Estado intervinha, expulsava trabalhadores arbitrariamente, atropelava direitos…
A Amazônia impressiona o mundo inteiro e poucas pessoas têm tido o cuidado e o interesse de procurar entender as peculiaridades da região. Muitos a citam, falam, dizem que a defendem e raros estudam-na e singularizam-na.
Constantemente, fica evidenciado o interesse apenas em fatos, se possível, notáveis de preferência com sangue ou fumaça. Esses despertam a atenção e a cupidez da opinião pública. Para isso forjam utopias ou a venda de fabulosas aventuras. Como punição, encantam-se com os temas da terra, envolvidos com a magia daqueles novos horizontes e acabam voltando.
Sempre me considerei um apaixonado e deslumbrado com essa magnífica exibição da natureza. Ali, não cheguei movido por avidez material. O poder econômico sempre foi prescindível ao preenchimento de minha vaidade. Alcançar metas, obter difíceis vitórias e conquistas individuais é o que me satisfaz, somando aí as alegrias sentidas em meus diferentes caminhos percorridos. Percebi que a maioria das pessoas que por ali chegava, permanecia envolvida e interessada. Ao se desencadear uma situação, elas se faziam presentes.
No período em que atuei intensivamente na Amazônia, fui acusado por meus opositores de lhes causar desconforto e prejuízo ao usar minha inteligência contra seus interesses. Nunca a usei com essa finalidade. Na verdade, tornei-me um observador mais atento.
Antes de chegar, enfrentei sérios percalços no Nordeste. Alguns deles por encarar como pessoais alguns problemas de outros. Causavam-me revolta e angústia sentir a indolência de muitos e a vilania de alguns, prejudicando quem não tinha argumentos de defesa.
A falta de entendimento e diálogo do administrador público para com o povo é notável. Isso permite ao primeiro tangê-lo como gado. Não há vontade política em compreender o anseio do povo. Apenas lhe sobrava a síndrome da estranha magia das cadeiras do poder.
Com a previsão de duas horas de voo, certa vez viajava em meu avião de Boa Vista a Manaus com Natáli, conceituado repórter de um grande jornal de São Paulo. Na isolada demora na cabine eu, abalado por tantos acontecimentos, carente de que ouvisse minhas tristezas e desabafos, provoquei curiosa e delicada situação.
Sem encontrar solução, mergulhado nessa angústia, necessitava extravasar, colocar minhas apreensões. Ali estava ele, sujeito culto, aprisionado em sua trajetória aérea, forçado a me ouvir. De repente, percebi que não estava querendo dizer nada ao passageiro. Monologava, depois de passar tanto tempo desencantado e desiludido com as atitudes externas a respeito desse assunto.
O governo trocava, na ocasião, o tão necessário gerenciamento social ainda ansiado, por uma maquiagem que atendesse a uma utópica imagem Brasil-Amazônia.
Na Amazônia, com humilhação, vergonha e sacrifício, fazia-nos correr por todas as partes numa tentativa de mostrar eficiência ecológica. Em sua ação devastadora, o Estado intervinha, expulsava trabalhadores arbitrariamente, atropelava direitos, rompia propriedades e empurrava para a ilegalidade centenárias atividades. Estávamos desorientados: a insensatez e a ignorância generalizavam-se por todas longínquas partes.
O que acontecia no Amapá repetia-se em Rondônia, no Norte do Mato Grosso. O caos próximo se anunciara e vicejava com força, tanto no Pará como em Roraima, nas fronteiras venezuelanas, na Colômbia ou no nosso quintal. O que mais buscávamos, porque nos interessava, era uma revisão daquelas medidas, com possível acomodação de suas intenções, e o sobreviver dos atingidos. Se havia conflitos com a minha condição de delegado da “União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal”, organização que também havia presidido, não me lembro.
Não sabia exatamente o que me perturbava mais, exceto que não era o tumulto já formado no meio onde eu atuava. Talvez fosse mesmo a União Sindical o instrumento utilizado para meu martírio, pela sua representatividade e por não poder ser diferente do que realmente era, nem como pessoalmente gostaria que fosse.
Já não me incomodava muito a questão social, nem o garimpo ou os garimpeiros. Estourava, com maior relevo, a necessidade da defesa do ser humano, do cidadão e da sua propriedade. Isso me incomodava profundamente. Sabia que, em socorro de um direito, é preciso fazer aquilo que deve ser feito, na forma que se sabe e que se pode fazer.
Contestava com veemência todos os motivos que moviam os argumentos e a roda da repressão às atividades produtivas. Convencido estava de que a cultura e a vocação de nossa gente permitiam apenas, aquele modelo histórico de ocupação e execução. Se isso ferisse o direito de alguém ou contrariasse ideias e vaidades de algum administrador público ou os interesses do próprio país naquele momento, caberia buscar emergencial forma normativa e educativa, à qual tudo se ajustasse de maneira adequada.
Revoltavam-me as ordens de expulsar os garimpeiros, impedindo-lhes o trabalho. Contrariava-me e muito, ver legitimada a ação do Estado e simplesmente interromper o meio de sobrevivência de quem quer que fosse. Colocavam-se pretensões e leis arranjadas às carreiras. Atropelavam-se as garantias individuais e os direitos de todos que ali estavam. Isso resultava numa situação estúpida e visionária.
Eu teimava em não aceitar que o Estado pudesse interferir e provocar a paralisação da criatividade humana, fato inimaginável naquele lugar e naquelas condições. Concordava com a interferência construtiva e administrativa para que tudo se fizesse melhor.
Eles poderiam reduzir as agressões ambientais de forma aceitável, sem buscar extirpá-las de maneira brutal, principalmente no que se referia à perturbação das causas e direitos de minorias étnicas. Os pensamentos que procurava difundir, embora conflitantes com as decisões tomadas pelo governo, respaldadas por setores religiosos e outros de leviana opinião, não se chocavam com a carência dos terceiros necessitados, os índios, questão sempre em pauta.
Tinha certeza absoluta de que a proteção deles poderia ser atingida sem que fosse necessário retirar, expulsar, excluir e aniquilar outros brasileiros e seus penosos ofícios.
O espanto maior era saber que as decisões enfrentadas por nós se originavam na falta de conhecimento e de cultura, um jogo para plateias internacionais, e na satisfação de interesse eleitoreiro. O mais grave: aquelas metas não seriam alcançadas. O próprio governo era sabedor de que removeria as precárias organizações regionais, que tinham rosto e endereço para diálogo ou repressão. A face oculta e anônima, a grande maioria, ali permaneceria sempre desconhecida, continuaria através de irregular presença e ingerência.
Naquele voo com Natáli, concluí ser essa a razão do meu constrangimento. Não sei se o repórter me ouvia ou se já se enfastiara com meu falatório. Falava para me assegurar de minhas convicções. Argumentava para me convencer de que nossa derrota seria a capitulação da razão. Da emocionada retórica, passei à tristeza com as conclusões. O jornalista prestava muita atenção, mesmo assim comecei a achar que o incomodava. Seria melhor cismar sozinho sobre esses fatos. Não conseguia calar-me e continuava compulsivamente.
Começava a pensar ser essa lamúria só minha. Era possível que o povo estivesse feliz, satisfeito e tranquilo. Grande parte dos brasileiros evita encarar a desgraça para fugir do sofrimento, aprendi isso muito tarde. Preferem ignorar ser a desgraça real. Têm medo do confronto. Envolvem-se nos problemas dos outros para fugir dos próprios. Temem sair da acomodação natural e complicarem mais a situação. Não percebem ou não se importam se a sua falta de atuação repercutirá mal para as gerações futuras.
Era-me difícil entender por que essas atitudes aconteciam também naquela região de pessoas tão especiais, mesmo sendo elas o alvo de tanta incompreensão. Meus pensamentos eram tomados de espantosa admiração, por acreditar não ser possível que apenas eu e alguns poucos, naquele momento, enxergássemos tanto esbulho da consciência e das necessidades de nossa gente. Com esse raciocínio, para piorar, presenciava na Amazônia tudo aquilo que já vira ter sido feito e aceito passivamente no resto do país.
A civilização moderna no Brasil está restrita a não mais que um terço do território nacional. Áreas interiorizadas do Nordeste, Norte e Centro-oeste não haviam alcançado ainda esses benefícios. Mesmo no Sul há uma minoria, denominada de povão que, no seu dia a dia, não é contemplada com as benesses do progresso da globalização. Eles trabalham calados. Ninguém dá conta dessas pessoas. O governo não quer discutir esse problema, assim não se fala sobre o que não se conhece.
Relatava ao Natáli as atividades que empreendi e a má forma administrativa. Contestava a ingerência da ação governamental. Dizia ser curioso que nas minhas posições, em relação ao que somos e temos, raramente era contestado. Eu representara sonhos, não uma dura realidade. Vez por outra alguém me dizia que eu não fazia o que falava. Essa era uma forma simplista de combater meus argumentos. Outros, menos dignos, procuravam macular-me no intento de eu não ir com eles tão longe.
Finalmente escutei a voz do repórter contrapondo que eles não queriam que a minha influência fosse longe. Concordei. Eu também achava ser difícil enfrentar grandes grupos econômicos e formas autoritárias de governo. Confrontar o ideário de pessoas e autoridades eleitas com votos conscientes, originados por industriadas informações a eleitores que nunca nos conheceram nem jamais sentiram o que nós sentimos. Sabia que para tudo isso teria de contar com grande suporte que não fosse o dinheiro.
Afinal, isso todos os outros tinham e teriam sempre mais do que eu. Em uma contenda de bases financeiras, sairia derrotado. Em uma guerra de rebeldia e de arma, sairia perdendo. Jamais conseguiria reunir um conjunto armado que superasse outras forças, considerando a imensidade geográfica do Brasil. Se fosse do tamanho de Cuba, acho que já teria tentado qualquer coisa parecida.
Natáli contra-argumentou ser eu um pacifista. Realmente eu sou. Também o Brasil não é uma Cuba. Impossível obter sucesso quando se pensa em reação revolucionária ou guerra. Não há como prever em que lugar irá surgir ou aparecer a contrarreação. Grande parte de meus amigos do mundo da imprensa, conhecidos ao longo de minha juventude, veio da época da luta armada, a partir de 1968. Naquele período do regime militar eles pelejavam na rua e eu achando tudo uma burrice. O governo possuía a maior arma que já se inventou no mundo, a caneta, e o lugar para escrever com inteligência. Meus amigos erraram na opção.
O que tornava maior a complexidade para implantar nossas razões era a opinião pública nacional e internacional estar convencida de situações que eram inexistentes na Amazônia.
Em parte, originadas de informações deturpadas, dirigidas intencionalmente por interesses escusos de ordem econômica. Isso moldava as opiniões e as consciências. Afinal, não éramos nós os primeiros nem os únicos alvos submetidos a essa prática. A meu favor contava com minha perseverança. Nunca entenderei a fácil aceitação popular dessa ditadura de falsos conceitos. Nem no Norte se reage a ela.
O Natáli insistiu em sugerir que eu deveria escrever um livro com esses questionamentos. Expliquei-lhe que seria difícil alcançar o fundamental, principalmente quando não é o que os canais de informação e a grande mídia buscam e querem para a Amazônia.
Meus relatos não seriam apenas sobre as confusas metas para aquela gente, e lugar de índios morrendo e não índios próximos às suas terras. Não lhes interessava saber que a Venezuela derrubou avião brasileiro a tiros na fronteira. Muito menos que garimpeiro venezuelano ou colombiano cruzava fronteiras e atirava em soldado e o Exército Brasileiro preferia afirmar que eram revolucionários.
Vivia uma fase de decepção profunda. Sempre ansiara ver aquelas situações mais bem construídas. Sabia que todos aqueles desacertos eram de domínio geral. No entanto, só eu estava exposto, enquando os demais temiam se expressar para não correrem o risco de contrariar o poder.
Poderia publicar livros contando histórias dessas fronteiras brasileiras no mundo moderno, provocando discussões intermináveis. Histórias da perigosa conquista da floresta a pé, com avião, em páginas belíssimas e inusitadas. Finalmente, chegamos a Manaus. Eu cansado de falar, Natáli cansado de ouvir. Muito tempo se passou. E… Somente agora escrevi o livro.
*José Altino Machado é jornalista
Nota: Os Bundas Doidas foi lançado este mês em Governador Valadares e será lançado, em Belo Horizonte, pela Livraria Leitura


