Créditos: Divulgação
11-07-2026 às 08h16
Luís Carlos Silva Eiras*
Em 1916, um revolucionário russo exilado na Suíça escreveu um dos panfletos mais influentes do século XX. Em Imperialismo, fase superior do capitalismo, Vladimir Lênin apresentou uma tese brilhante em sua simplicidade: o capitalismo não permaneceria eternamente competitivo. À medida que amadurecesse, os monopólios substituiriam a concorrência, os bancos se fundiriam à indústria e o capital financeiro passaria a comandar o capital produtivo.
Era uma interpretação ousada da economia mundial e, concorde-se ou não com suas conclusões políticas, uma notável demonstração de capacidade analítica.
Talvez tenha chegado a hora de acrescentar um novo capítulo. Um século depois, o capitalismo parece ter desenvolvido uma fase ainda mais sofisticada. Se Lênin descreveu o domínio do capital financeiro sobre o capital produtivo, o Brasil parece experimentar algo diferente: a bandidagem como fase superior do capitalismo de laços.
Capitalismo de laços é o nome dado a um sistema em que o sucesso das empresas depende menos de competir no mercado do que da proximidade com o poder político. Crédito subsidiado, proteção regulatória, contratos públicos, incentivos fiscais e barreiras à concorrência passam a valer mais do que inovação, produtividade ou eficiência. O lucro deixa de ser conquistado apenas nas prateleiras ou nas bolsas de valores; passa a ser negociado também nos corredores de Brasília.
O Brasil tornou-se um dos laboratórios mais conhecidos desse modelo. Ao longo de décadas, grandes grupos econômicos aprenderam que cultivar boas relações com governos frequentemente rendia retornos maiores do que investir em tecnologia ou reduzir custos. Não se tratava da substituição do mercado pelo Estado, mas de uma parceria altamente lucrativa entre ambos. Era um capitalismo de compadres, não de concorrentes.
Durante décadas acreditamos que nosso grande problema era a corrupção. Era uma visão quase inocente. Pressupunha um Estado relativamente autônomo, ocasionalmente seduzido por empresários, empreiteiros ou lobistas carregando dinheiro para obter favores específicos. O sistema era imperfeito, mas ainda havia uma distinção entre quem corrompia e quem era corrompido.
O caso Master sugere que essa distinção talvez tenha deixado de existir. O objetivo já não parece ser comprar uma decisão administrativa ou uma licitação. O que está em jogo é algo muito mais ambicioso: transformar partes do Estado em ativos privados. Não se compra mais um favor. Compra-se a capacidade permanente de produzir favores.
Da propina ao controle acionário
Existe uma enorme diferença entre alugar o Estado e adquiri-lo. O corrupto clássico oferece propina, porque reconhece que o Estado pertence a outra pessoa. Ele paga para obter uma exceção. Já quem pretende controlar o Estado pensa como um investidor, que acaba de concluir uma aquisição hostil. Ministérios, bancos públicos, agências reguladoras, tribunais e órgãos de fiscalização deixam de ser instituições independentes. Passam a integrar um mesmo ecossistema de interesses.
É exatamente aí que o capitalismo de laços muda de natureza. Antes, empresários cultivavam relações privilegiadas com o poder político. Agora, o objetivo passa a ser influenciar quem nomeia, quem fiscaliza, quem investiga, quem regula e quem pune. O lobby evoluiu para um sistema de governança.
Lênin talvez descrevesse esse processo como uma nova concentração do capital. Um consultor financeiro provavelmente preferiria chamá-lo de integração vertical.
A República como ativo estratégico
Os defensores do livre mercado costumam repetir que o Estado é ineficiente. Descobriram, porém, que ele possui um atributo irresistível: controla leis, regula mercados, arrecada impostos, distribui crédito, concede licenças e exerce o monopólio da força. Nenhuma empresa privada consegue competir com um modelo de negócios tão completo.
A consequência é curiosa. Já não se discute apenas reduzir ou aumentar o tamanho do Estado. A questão passa a ser quem administra esse gigantesco conglomerado de poder.
Por isso, expressões como “corrupção” ou mesmo “captura regulatória” começam a parecer insuficientes. Corrupção descreve um desvio. Captura sugere um sequestro temporário. O que se desenha é algo mais permanente: uma fusão societária entre interesses privados e estruturas públicas.
Nesse estágio, a propina torna-se quase um detalhe operacional. O verdadeiro negócio consiste em controlar os mecanismos que definem quem será investigado, quem receberá crédito, quem vencerá disputas regulatórias e quem ficará protegido da lei.
A Transparência Internacional talvez precise de uma nova categoria
A literatura sobre integridade pública costuma diferenciar a corrupção episódica da captura do Estado, quando interesses privados conseguem moldar instituições inteiras em benefício próprio. É uma distinção importante. Há uma diferença considerável entre furtar uma máquina de uma fábrica ou tornar-se dono da fábrica sem pagar por ela.
É justamente por isso que o caso Master desperta tamanho desconforto. A hipótese inquietante não é apenas a existência de crimes ou esquemas ilícitos. É a possibilidade de estarmos assistindo à passagem de um modelo baseado na corrupção para outro baseado na apropriação do próprio Estado. Quando criminosos deixam de enganar o Estado para utilizá-lo como instrumento permanente de seus negócios, o problema já não pertence ao Código Penal. Pertence à teoria do Estado.
Lênin acreditava que o capitalismo terminaria dominado pelo capital financeiro. Talvez, se pudesse observar certas democracias contemporâneas, acrescentasse uma última nota de rodapé ao seu livro. Existe uma fase ainda mais avançada. É quando o capital deixa de disputar influência sobre o Estado porque conclui ser muito mais eficiente incorporá-lo ao balanço patrimonial.
(Segundo Tom Stoppard, na peça Pastiches (1974), Lênin teria se encontrado na Suiça com James Joyce e Tristan Tzara, quando discutiram sobre revoluções).
* Luís Carlos Silva Eiras é escritor.

