Créditos: Divulgação
01-07-2026 às 13h29
Luís Carlos Silva Eiras*
Há escritores que escrevem romances. Há escritores que escrevem ensaios. E há Georges Perec, que decidiu construir uma máquina imaginária para analisar um poema como se fosse uma montagem Lego, que caiu no chão. Em 1968, quando computadores ocupavam salas inteiras e tinham menos memória do que um relógio digital moderno, Perec já colocava uma máquina radiofônica para dissecar versos, contar sílabas, inverter palavras, estabelecer associações improváveis e, por fim, demonstrar que a lógica, quando aplicada com entusiasmo suficiente, inevitavelmente escorrega para a poesia.
O mais curioso é que A Máquina nunca pretendeu responder à pergunta “o que significa este poema?”. Essa seria uma ambição modesta demais. O objetivo era muito mais elegante: mostrar que um texto pode sobreviver a qualquer procedimento analítico, por mais obsessivo que seja. A Máquina mede, enumera, classifica, reorganiza, desmonta e remonta o poema de Goethe – Canção Noturna do Andarilho II – como uma criança que desmonta um relógio de corda apenas para descobrir se o tique-taque continua funcionando. Como o poema é pequeno, Perec teve menos trabalho do que Andrei Markov ao contar, em 1913, as primeiras 20 mil letras do romance em versos Eugene Onegin, de Alexander Pushkin – uma das bases das atuais IAs tagarelas.
A peça radiofônica tornou-se um dos experimentos mais brilhantes do espírito do Oulipo. Em vez de tratar o computador como um oráculo eletrônico – fantasia bastante comum na década de 1960 (Alpha 60, HAL 9000) – Perec o transforma em um burocrata meticuloso. A máquina não possui inspiração, possui protocolos. Não tem sentimentos, tem procedimentos. E justamente por isso acaba produzindo uma inesperada forma de beleza. Como mostram os estudos sobre a obra, a máquina percorre sucessivos níveis de análise — fonético, sintático, semântico e associativo — até transformar a leitura em uma performance sobre a própria linguagem.
Uma máquina tagarela
Hoje é impossível ouvir A Máquina sem pensar nos modelos de linguagem contemporâneos. Evidentemente, Perec não antecipou transformadores, embeddings ou bilhões de parâmetros. Mas antecipou algo mais importante: a ideia de que compreender um texto pode ser descrito como uma sequência de operações formais.
Seu computador falado trabalha quase como um ancestral excêntrico dos sistemas atuais. Primeiro observa padrões. Depois procura relações. Em seguida reorganiza estruturas. Finalmente produz interpretações que oscilam entre o rigor absoluto e o completo delírio. Quem já conversou longamente com uma inteligência artificial sabe que essa fronteira continua surpreendentemente familiar.
Há, porém, uma diferença fundamental. As IAs modernas tentam esconder seus mecanismos internos sob respostas elegantes. Perec faz exatamente o contrário: exibe todas as engrenagens. A máquina pensa em voz alta. Erra em voz alta. Insiste em voz alta. E transforma o próprio processo de análise em espetáculo. O algoritmo deixa de ser invisível para virar personagem.
Da ficção para o repositório GitHub
Um possível desfecho mais perecquiano dessa história aconteceu agora, quase sessenta anos depois. A máquina fictícia resolveu abandonar os estúdios da rádio alemã e ganhou uma existência concreta em um projeto disponível no GitHub, um repositório de programas de computador.
O programa reproduz os protocolos descritos por Perec, mas acrescenta algo que o escritor provavelmente teria apreciado: um módulo de grafo ontológico. Se, na peça original, a máquina estabelecia associações literárias por meio de sucessivas operações linguísticas e aritméticas, agora essas relações podem ser também organizadas como uma rede explícita de conceitos, entidades e conexões semânticas. Em outras palavras, além de desmontar o poema, a máquina passa a desenhar seu mapa mental.
A máquina de 1968 desmontava versos com a solenidade de um funcionário público apaixonado por formulários. A versão do GitHub faz a mesma coisa, mas ainda constrói uma cartografia das ideias escondidas no texto. Perec provavelmente aprovaria. Afinal, poucas coisas lhe davam mais prazer do que impor uma nova restrição formal para descobrir uma nova liberdade criativa.
A piada elegante de Perec
Existe uma ironia histórica irresistível aqui. Durante décadas, críticos discutiram se A Máquina era uma sátira dos computadores ou uma celebração deles. A resposta parece ser “sim”. Para ambas questões. Perec ria da obsessão tecnocrática por transformar tudo em algoritmo, mas também percebia que a própria literatura escondia mecanismos capazes de serem explorados sistematicamente.
Enquanto muitos imaginavam computadores substituindo escritores, Perec imaginava escritores brincando de construir computadores imaginários. A diferença é enorme. Num caso, a tecnologia pretende ocupar o lugar da arte. No outro, a arte transforma a tecnologia em matéria-prima para novas experiências estéticas.
Talvez por isso A Máquina continue tão moderna. Não porque tenha sido mais uma previsão da inteligência artificial, mas porque compreendeu algo mais profundo: qualquer máquina capaz de analisar um poema inevitavelmente acaba produzindo outro poema. E, quando isso acontece, já não sabemos se estamos diante de um algoritmo particularmente sensível ou de um poeta extraordinariamente metódico.
Por fim, Georges Perec realizou um dos truques mais elegantes da literatura do século XX. Inventou uma máquina fictícia para provar que nenhuma máquina conseguiria aprisionar completamente a linguagem. Décadas depois, este locutor que vos fala a transformou numa máquina de verdade, acrescentou um grafo ontológico e publicou tudo no GitHub. É difícil imaginar homenagem mais fiel ao espírito de Perec: transformar uma brincadeira literária em software funcional, sem que ela perca uma grama sequer da sua diversão.
Onde encontrar:
A peça radiofônica de 1968 original em alemão: https://www.youtube.com/watch?v=pu6TACgAdTI&t=1033s
O texto da peça em inglês: https://monoskop.org/images/6/62/Perec_Georges_The_Machine.pdf
O programa de A Máquina no GitHub com instruções de instalação e uso: https://github.com/LuisCarlosEiras/maquinaPerec
*Luís Carlos Silva Eiras é escritor e, no caso deste artigo, também programador.

