Créditos: Divulgação
28-06-2026 às 10h25
Soelson B. Araújo*
Nasci em Turmalina, no coração do Vale do Jequitinhonha, onde a vida ensina cedo o valor da simplicidade, da resistência e dos sonhos. Foi ali que comecei a descobrir o poder das palavras, ainda menino, contando histórias para meus colegas. Eu não sabia, naquele tempo, que aquelas pequenas narrativas já eram sementes de tudo o que viria depois. Só sentia que havia algo especial em transformar a vida em palavra.
Na adolescência, deixei minha terra e segui para Belo Horizonte com um propósito muito claro: trabalhar, estudar e conquistar meu lugar na universidade. Eu queria estudar Letras. Não era apenas um curso — era um chamado.
Foi na capital que minha admiração por Carlos Drummond de Andrade ganhou forma concreta. Caminhando pela Rua da Bahia e pela Praça Raul Soares, eu buscava sentir a presença daquele que tanto me inspirava. Sabia que ali funcionara o “Diário de Minas”, jornal onde Drummond trabalhou, e, de alguma forma, eu queria me aproximar daquele universo que tanto me encantava.
Saber que Drummond passou por aquelas redações e corredores reforçava em mim a convicção de que a palavra escrita tem o poder de transformar destinos — como transformou o dele e, de muitas maneiras, ajudou a transformar o meu.
Por volta da década de 1980, a vida me presenteou com um encontro transformador. Trabalhando com Dom Serafim Fernandes de Araújo, encontrei não apenas um líder espiritual, mas um incentivador da minha paixão pelas letras. Ele sabia do meu interesse por escrever e, com uma generosidade que nunca esquecerei, me entregava diariamente o jornal “Estado de Minas” para que eu pudesse ler as crônicas de Drummond. Cada texto que eu lia aumentava ainda mais minha admiração e fortalecia meu desejo de também escrever, de também tocar as pessoas com palavras.
Com muito esforço, ingressei na então Universidade Católica, hoje PUC Minas, para trabalhar e estudar Letras. Antes mesmo de concluir o curso, tive a honra de servir como secretário dessa faculdade. Era mais uma prova de que, quando se caminha com determinação, a vida vai abrindo portas — muitas vezes antes mesmo de estarmos totalmente prontos.
O tempo seguiu seu curso, e novos caminhos se abriram. Tive a oportunidade de conhecer Newton Cardoso, com quem construí uma relação de amizade e trabalho como assessor na prefeitura de Contagem. Mais tarde, no Governo de Minas, mergulhei no universo da comunicação social, ocupando um cargo estratégico que ampliou minha visão e fortaleceu minha trajetória.
E foi justamente nesse percurso que vivi um dos momentos mais simbólicos da minha vida. O jovem que um dia caminhou pela Rua da Bahia tentando sentir os passos de Drummond, anos depois, conquistaria o título e o acervo do “Diário de Minas”, que estava com sua redação fechada. Para mim, não foi apenas uma conquista — foi como se a vida fechasse um ciclo e, ao mesmo tempo, abrisse outro ainda maior.
Voltei à minha terra e tive a honra de ser prefeito de Turmalina por duas vezes. Também fui o primeiro suplente de deputado estadual mais votado no Vale do Jequitinhonha. Mas, acima de tudo, nunca deixei de ser aquilo que comecei sendo: um homem das palavras.
Tornei-me jornalista, escritor, membro da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha (ALVA) e, acompanhando os novos tempos, também empreendedor digital. Com orgulho, trouxe de volta o “Diário de Minas” em formato online, transformando-o em um espaço vivo de ideias, com quase uma centena de colunistas e milhões de leitores. Nos 160 anos de existência do DM, a coluna “Tributo a Carlos Drummond de Andrade”, composta por 13 artigos especiais, chega à sua penúltima publicação.
Talvez uma das coincidências mais significativas dessa caminhada esteja justamente na história que une Drummond ao “Diário de Minas”. O jornal que, décadas mais tarde, eu teria a honra de resgatar e conduzir em sua versão digital foi também um dos espaços decisivos para a formação profissional do poeta itabirano. Conhecer essa trajetória sempre reforçou em mim a dimensão histórica e simbólica dessa ligação.
Poucos sabem que a trajetória de Carlos Drummond de Andrade nesse jornal foi marcada por crescente protagonismo. Inicialmente editor-adjunto do jornal, ele assumiu posteriormente a função de editor-geral, sucedendo ao professor, jurista e jornalista Mendes Pimentel. Essa passagem ocorreu durante o período em que o “Diário de Minas” pertencia ao empresário e prefeito de Belo Horizonte, Negrão de Lima. Foi naquela redação que Drummond consolidou sua experiência jornalística e aprofundou sua convivência com o ambiente intelectual e político mineiro, construindo uma vivência que mais tarde dialogaria com sua extraordinária obra literária.
Hoje, quando olho para trás, vejo que minha história sempre esteve sendo escrita — linha por linha — desde aquelas primeiras histórias contadas na infância. A influência de Drummond nunca foi apenas admiração; foi direção, inspiração e, de certo modo, companhia permanente ao longo da jornada.
Se aprendi algo ao longo dessa caminhada, é que os sonhos não se realizam por acaso. Eles se constroem com trabalho, persistência e, sobretudo, com paixão.
Ao concretizar esta série em homenagem aos 160 anos do Diário de Minas e à memória de Carlos Drummond de Andrade, tenho a certeza de que algumas histórias transcendem o tempo. A dele, marcada pela força da palavra; a minha, moldada pela busca constante de significado através dela. Em determinado momento, esses caminhos se encontraram no mesmo jornal, como se a história tivesse reservado esse encontro muito antes que eu pudesse imaginá-lo.
E eu sigo escrevendo. Porque, no fim das contas, é na palavra que encontro meu caminho — e é por meio dela que continuo existindo no mundo.


