Área de extração de lítio no Vale do Jequitinhonha - créditos: divulgação
26-06-2026 às 09h11
Por Soelson Araújo*
O Vale do Jequitinhonha vive hoje um dos momentos mais decisivos de sua história. Nos últimos anos, a região passou a ocupar espaço de destaque no cenário mundial da mineração em razão das suas gigantescas reservas de lítio, mineral estratégico para a transição energética global e para a fabricação de baterias de veículos elétricos.
O que muitos chamam de “Vale do Lítio” concentra atualmente algumas das mais importantes mineradoras do setor. Entre elas está a Sigma Lithium, pioneira na produção em larga escala na região de Araçuaí e Itinga. Também avançam projetos da Lithium Ionic, especialmente nas áreas de Bandeira, Salinas e Itinga, além de iniciativas conduzidas pela Atlas Lithium e diversos grupos nacionais e estrangeiros que mantêm requerimentos de pesquisa e projetos em diferentes fases de desenvolvimento. O interesse internacional pelo território cresce a cada ano, atraindo investimentos de empresas da América do Norte, Europa e Ásia.
Paralelamente à corrida pelo lítio, a região também assiste ao avanço de novos projetos voltados à exploração de grafita, mineral igualmente estratégico para a indústria de baterias. O crescimento simultâneo desses empreendimentos reforça a importância geológica do Vale do Jequitinhonha, mas também amplia os desafios ambientais e sociais que já começam a ser percebidos pelas comunidades locais.
A grande questão que precisa ser debatida de forma transparente é a água.
Embora as empresas afirmem utilizar tecnologias de reaproveitamento e recirculação hídrica, é inegável que operações minerárias e plantas de beneficiamento demandam volumes expressivos de água para processamento mineral, controle de poeira, transporte de rejeitos e atividades industriais. Em uma região historicamente marcada por longos períodos de estiagem, rios intermitentes e insegurança hídrica, qualquer aumento significativo da demanda merece atenção redobrada.
Ao percorrer comunidades rurais do Vale, ouço relatos frequentes de moradores preocupados com a redução de vazões em córregos, a pressão sobre nascentes e o futuro do abastecimento humano. São preocupações legítimas. O desenvolvimento econômico não pode ocorrer às custas da segurança hídrica das populações locais.
O que mais preocupa é que o debate público ainda está muito aquém da velocidade com que os projetos avançam. Enquanto novas áreas são requeridas junto à Agência Nacional de Mineração e novos empreendimentos entram em fase de implantação, permanece a dúvida sobre a capacidade real da região de suportar, simultaneamente, mineração, agricultura familiar, pecuária e abastecimento das cidades.
A experiência de outras regiões mineradoras do Brasil demonstra que os conflitos pela água tendem a aumentar quando não existe planejamento integrado entre empresas, órgãos ambientais, municípios e sociedade civil.
Também é preciso fazer uma reflexão econômica. O Vale do Jequitinhonha não pode repetir a velha lógica histórica da exploração mineral brasileira: retirar riquezas do território e deixar para trás apenas passivos ambientais e dependência econômica.
O lítio, a grafita e outros minerais estratégicos precisam gerar desenvolvimento local efetivo. Isso significa industrialização regional, formação profissional, fortalecimento das universidades, investimentos em ciência e tecnologia, melhoria da infraestrutura, diversificação econômica e geração de empregos permanentes. Não basta exportar minério. É necessário agregar valor aqui.
As comunidades que convivem diariamente com os impactos da mineração têm o direito de participar das decisões sobre o futuro do território. A riqueza produzida no Vale deve permanecer, em parte significativa, no próprio Vale.
Faço, portanto, um alerta aos governos Federal e Estadual. Ainda há tempo para construir um modelo de desenvolvimento equilibrado. Mas ignorar os sinais de pressão sobre os recursos hídricos poderá levar a região a uma situação de grave instabilidade social nos próximos anos.
Sem água não haverá mineração sustentável, nem agricultura, nem qualidade de vida para a população.
O Vale do Jequitinhonha possui riquezas minerais capazes de contribuir para a transição energética mundial. Contudo, essas riquezas só terão sentido se forem transformadas em prosperidade para quem vive aqui.
A história cobrará das autoridades, das empresas e da sociedade as escolhas feitas neste momento. O desafio não é apenas extrair minerais. O verdadeiro desafio é garantir que o desenvolvimento aconteça sem comprometer o futuro das próximas gerações.
E esse futuro começa pela proteção da água.
*Soelson Barbosa Araújo é empresário, jornalista, escritor, membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha e pré-candidato a Feputado Federal

