Ilunstração - por IA
21-06-2026 às 16h40
Araciara Macedo*
Toda família tem aquele momento em que percebe que a criança da casa está crescendo. No meu caso, esse momento veio acompanhado de uma negociação diplomática, argumentos jurídicos improvisados e uma derrota histórica.
Tudo começou quando decidi que era hora de Benjamim abandonar a mamadeira.
Ele tinha cinco anos e uma relação de amor profundo com aquele objeto. Não era uma mamadeirinha qualquer. Era quase um patrimônio afetivo. Todos os dias, religiosamente, consumia pelo menos três mamadeiras de vitamina de abacate. Cada uma com quase 500 ml. O menino não tomava vitamina; ele administrava uma pequena usina de processamento de abacates.
Um dia, olhando para aquele rapazinho saudável, concluí que estava na hora de encerrar o ciclo.
— Benjamim, você já é um rapaz. Não fica bem um rapaz ainda tomar mamadeira.
Ele não gostou muito da notícia, mas, para minha surpresa, o primeiro dia passou sem grandes conflitos. No segundo dia, porém, achei prudente criar uma estratégia de distração.
Resolvemos fazer uma pequena viagem até uma comunidade quilombola onde mora parte da família. A ideia era simples: passear, conversar, visitar os parentes e fazer Benjamim esquecer a ausência da mamadeira.
Ledo engano.
Na volta, Benjamim pediu que uma prima viesse dormir em nossa casa. O pai dela autorizou e seguimos viagem felizes.
Ao chegar em casa, os dois desapareceram para o quarto dele. Pouco depois fui verificar o que estava acontecendo.
Encontrei Benjamim organizando tudo com a seriedade de quem estava assinando um contrato internacional.
— Mamãe, ela vai dormir aqui comigo.
— Não vai, meu filho.
— Vai sim.
— Não pode.
Ele me olhou intrigado.
— Por quê?
— Porque vocês são crianças.
Foi então que ele apresentou sua primeira defesa oral.
— Mas ela é minha namorada.
Confesso que precisei de alguns segundos para processar aquela informação.
— Mesmo assim não pode.
Benjamim pensou um pouco e lançou a pergunta que mudou completamente o rumo da conversa.
— Mamãe, a senhora não dorme com o papai?
Fui pega desprevenida.
— Durmo.
— Então…
Aquele “então” veio carregado de lógica infantil e perigo.
— Mas nós somos adultos.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ser rapaz é adulto?
Naquele momento eu deveria ter pedido a presença de um advogado.
Mas respondi.
— Sim… quer dizer… mais ou menos…
Era tarde demais.
Os olhos dele brilharam.
— Então eu posso dormir com ela.
Tentei reorganizar a argumentação.
— Não é assim que funciona.
— É sim.
— Não é.
— É.
— Não é.
Benjamim então cruzou os braços, respirou fundo e apresentou a peça final da acusação.
— Então a senhora me dá a minha mamadeira de volta.
Silêncio.
Aquela criança havia desmontado toda a minha tese.
Afinal, durante dois dias eu sustentara que ele não podia mais usar mamadeira porque já era um rapaz. Agora, quando tentou usufruir dos supostos privilégios de ser rapaz, descobriu que continuava sendo criança.
Na cabeça dele, aquilo era uma evidente quebra de contrato.
Olhando para mim com a seriedade de um ministro do Supremo, ele concluiu:
— Ou sou criança e tomo mamadeira… ou sou rapaz e durmo com a minha namorada.
Naquele instante percebi que estava diante da nossa primeira D.R. — discussão de relacionamento.
E, para ser sincera, acho que perdi.
Hoje, anos depois, a mamadeira já virou apenas uma lembrança divertida. Mas aquela conversa continua viva na memória da família. Sempre que alguém fala sobre coerência, lógica ou poder de argumentação, lembramos do pequeno Benjamin e de sua brilhante defesa.
Porque algumas pessoas fazem faculdade de Direito.
Outras nascem prontas.
Benjamim tinha apenas cinco anos.
Araciara Macedo é jornalista e Editora da Gazeta do Amapá

