Créditos: Divulgação
07-06-2026 às 10h26
André Tourinho*
Drummond, essa simples palavra-nome, já aciona em cada um de nós diferentes estímulos: a lembrança de lê-lo a primeira vez na escola, a sua estátua metálica próxima à Rua da Bahia ou em Copacabana, todo um mar de sentidos e sabores de alguma leitura do itabirano… enfim! O fato é que cada coração brasileiro, direta ou indiretamente, se contamina com algo de drummondiano — não por acaso, há um adjetivo a partir de seu sobrenome; à prova da passagem da própria vida e século, o poeta se infiltrou por definitivo no imaginário, não só mineiro, mas também nacional. Um denominador comum e poético que nos une no coletivo, ainda que cada qual estabeleça uma intimidade própria com o poeta — mesmo que de orelhada, ao alguém dizer num bar: “E agora, José?!?”. O valor disso excede o Nobel de vários autores estrangeiros, já mofados ou jamais ocupantes de um lugar em nossa estante afetiva.
No entanto, e o homem CPF por trás da figura consagrada, ou, como ele próprio diz em seu primeiro poema em livro, “o homem atrás dos óculos e do bigode”? Carlos carimbou impressões por tantas pessoas em sua trajetória por meio da escrita, porém, reservado como era fora dos versos, não muitos puderam captar retratos mais íntimos de sua pessoalidade.
Além dessas armaduras, colegas da poesia, com o raio-X de quem desnuda a si e ao outro para escrever, conseguiram registrar testemunhos desse homem férreo ecom o coração por vezes maior, menor ou exatamente do tamanho do mundo, conforme foi variando a própria percepção ao longo da obra quanto à dimensão do eu diante do mundo.
Sob as retinas de Ferreira Gullar…
Às vistas de Ferreira Gullar, a presença Drummond viria a ser fonte de espanto de forma dupla; após lançar seu livro de estreia, “A luta corporal”, o maranhense recebeu a crítica de Fausto Cunha em plena coluna do “Correio da Manhã”: “Por que um cara jovem faz uma poesia tão empoada?”. Com o peso dessas palavras ecoando, Gullar se predispôs a acessar de São Luís o que chegava do modernismo já em ebulição no Sudeste, tempo em que recebeu de seu amigo Lago Burnett um exemplar de “Poesia até agora”, do Drummond. Segundo Gullar: “No começo fiquei chocado, mas em seguida tentei entender por que ele estava fazendo uma poesia daquela maneira […] Fui procurar me informar para entender. Eu achava que aquilo poderia ser um absurdo, uma molecagem que estivessem fazendo”.
Em entrevista, ao questionarem Ferreira Gullar quanto a algum autor ou poema que lhe tenha dado um clique ao entrar em contato com os modernos, respondeu: “‘Lua diurética’, do Drummond, me chocou, por sua adjetivação louca. Minha noção de poesia era outra. Quando li ‘Escrevo teu nome com letras de macarrão na sopa’, pensei: isso não é poesia”. Felizmente, do choque se derivou uma fascinação, um recálculo diante de seu modo de abordar a poesia, também a partir de um mergulho profundo em outros poetas como Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Jorge de Lima.
A história de assombro entre Gullar e Drummond não se encerraria ali; já premiado por sua poesia singular e modernizada, Ferreira, certa vez, foi a um encontro com o amigo Condé na Livraria Francisco Alves; chegando lá, quem também se via na roda era Carlos D. de A. Falar com o ídolo literário? Sim, Gullar foi e conseguiu, porém se sobrepôs a sensação de ficar “impressionado com os olhos dele, que pareciam dois discos azuis. Nós nos cumprimentamos, mas eu fiquei intimidado com a presença dele”, não permanecendo tanto quanto gostaria. Ou seja, mesmo se autodenominando gauche ou franzino, Carlos possuía a capacidade de intimidar pela sombra de sua lenda um poeta mais jovem, cujos contornos da formação vieram do mineiro; a sua face marcada por linhas retas até conhecemos na frieza das fotos, mas não com a vivacidade de presenciar esses olhos dignos de espantar alguém de tão azuis.
Aos olhos adelianos…
Por outra via, Adélia Prado, outra filha das pegadas de Drummond, imprime uma visão diante dele. Ao conceder uma entrevista à revista “Poesia Sempre”, da Biblioteca Nacional, o tópico de a vocação ser uma graça veio à tona; a poeta afirma que, em última instância, a obra é sempre maior do que o seu autor. Para exemplificar essa percepção, utiliza-se da figura do Drummond homem versus a do Drummond escritor: “Para mim é um exemplo clássico, porque nada nele indicava sua genialidade, nada dizia que aquele homem comum, um típico funcionário público, seria capaz de escrever uma poesia de beleza constrangedora. Você pode fazer uma leitura psicológica, sociológica ou filosófica da obra, mas aquilo que a constitui como beleza e novidade é inalcançável. Isso é puro mistério”.
Tendo os dois se conhecido a partir da ponte tecida por Affonso Romano de Sant’Anna graças a uma carta corajosa de Adélia com poemas inéditos, a mineira nos traz em sua própria vivência que a produção artística consegue exceder os limites de seu autor; residente na realidade restrita de uma Divinópolis na década de 70, o deslumbramento de Carlos à luz daquela carga poética — tão particular e universal a um só tempo — o levou a abrir o caminho da poeta no meio literário; editada pela “Imago” por indicação do mestre, já no lançamento de sua “Bagagem”, em 1976, Adélia Prado não só contou com o comparecimento de Drummond como também de Clarice Lispector e do ex-presidente Juscelino Kubitschek, outro mineiro ilustre, de Diamantina.
A cooperação e a aderência à voz adeliana, carregada de mineirismos, porém dotada de agudezas que dizem respeito ao que constitui todo coração humano, foram determinantes para que hoje a tivéssemos em seus 90 anos como uma mulher entre os escritores incontornáveis, um lirismo que abarca metafísica e corpo, elevação e cotidiano como elementos em diálogo, tudo sob a tez da memória, a carne de que se faz a experiência mais pessoal e profunda. Drummond, como explorado no artigo produzido por Leandro Garcia neste especial do “Diário de Minas”, era curto de fé, mas grande o suficiente para reconhecer uma densidade na poeta até então fora dos radares das capitais. A colocação franca de Adélia mostra que, ao entrar em contato com a pessoa de Drummond, não se podia ver ao claro as minas de onde se extraíram os versos marcantes que já havia lido. Um homem que não a intimidou — como a Ferreira Gullar —, e talvez esse descompasso entre criador e criação seja ainda mais fascinante, pois as contenções externas não justificariam de forma imediata a efervescência do mundo silencioso daquele itabirano.
Engravatado e, ao mesmo tempo, com versos como “Eta vida besta, meu Deus”; funcionário público e, ao mesmo tempo, de onde viria a nascer a obra-prima em forma de poema “A máquina do mundo” — no qual a humanidade trisca o centro secreto da existência. O enigma Drummond nos instiga por não apresentar um plano piloto, e sim uma vastidão de biomas, uma polimetria capaz de formar um gênio: entre o coloquial e o erudito, entre o circunstancial e o atemporal, e tantas outras polivalências que não se anulam nem se enfraquecem, complementando uma largueza de horizonte, topografia poética em que o brasileiro encontra forma aos agitos da alma sem nome, algo improvável de alcançar se cada um tivesse a chance de sair a passeio com o próprio Carlos: a poesia dele abraça um universo maior que seus braços de homem, reunindo pedaços de verso para um mosaico maior. Drummond fala a partir do mundo e com o mundo, mas acaba indo além dele.
A cada poema, uma lente de aumento captura certa nuance, e essa barca de nuances — livro de poemas — seria de transbordar se fôssemos conscientemente tudo isso a um só instante; por essa razão, um poeta consegue ser superado por sua obra. Na de Drummond, colhemos olhares históricos das mazelas da ditadura, do pós-guerra, das favelas, dos movimentos sociais sem lastro, o encanto e o desencanto, a esperança idealista e o seu desmanchar — naquela leitura de tempo, o passado de um coração se alinha ao nosso no presente, e notamos que, apesar das mudanças visíveis de trajes e costumes, falando hoje mais inglês do que francês, as questões e as conjunturas são essencialmente as mesmas, pois o binóculo de Drummond se direcionava ao que era elementar, ainda que em sua crônica mais factual e menos pretensiosa. A tendência à abstração se aliava ao fervor da experiência, seus olhos estavam abertos tanto à dimensão interna quanto à externa, afinal, elas lhe compunham uma única realidade: “Há uma cidade em ti […]”.
As impressões do autor de “Macunaíma”…
Em sua publicação “A rosa do povo”, o itabirano reafirma uma flexibilidade incomum, talvez o mais longo de seus livros de poesia; nela, fala da sociedade, do ser além das épocas, também de episódios altamente pessoais, porém de valor para nós: a despedida de seu mestre Mário de Andrade. Sim, por trás daquele que viria a propulsionar tantos outros, houve quem lhe servisse antes de orientador. Em sua formação, Drummond se punha ávido pelas orientações do paulistano por meio de cartas. Quando jovens, incertos de nosso caminho, o olhar do outro, ainda mais de uma referência já consagrada, pode nos moldar. Com a sua leveza humorada, Mário diz em uma de suas correspondências: “Quereria não conhecer pessoalmente você pra mostrar pelos seus versos o formidoloso tímido que você é. De fato pra você ser feliz, era preciso que não tivesse nem a inteligência nem a sensibilidade que tem. Então seria um desses tímidos-tímidos, tão comuns na vida, uns vencidos sem saber que o são e cuja absoluta mediocridade acaba fazendo-os felizes. Mas você é timidíssimo e ao mesmo tempo sensibilíssimo e inteligentíssimo. Coisas que se contrariam pavorosamente e se brigam com ferocidade. E desse combate você é todo feito e sua poesia também.”
O autor de “Pauliceia Desvairada” fornece ao jovem Carlos um material revelador, de uma síntese certeira capaz de ultrapassar meses em terapia; nesse sentido, o diagnóstico de Mário de Andrade entra em consonância com Adélia Prado: o paradoxo de alguém aparentemente prosaico de tão tímido conter dentro de si ferramentas agudas de inteligência e sensibilidade — até excessivas. Mário já havia conhecido a pessoa de Carlos durante seu passeio por Minas Gerais junto a outros modernistas; foi a partir das cartas de Drummond que Mário entraria na intimidade de uma composição mais complexa e fascinante; o veterano ainda o alerta quanto ao preço de escapar da mediocridade, do conforto da não multiplicidade. Entretanto, é dessa tensão entre faces incongruentes, aquele que se quer oculto e aquele que se quer revelado, que borbulhou uma poética de alta voltagem, levando mais pessoas a também se verem nesse retrato disforme por meio da palavra, afinal, somos mais redondos do que planos, ainda mais os que vão em busca de poesia para viver.
As miradas de Bandeira…
Nas interações mais iniciais, quando o mineiro ainda não havia estreitado as relações com o pernambucano, como viria a fazer mais à frente, Drummond demandava impressões de Bandeira quanto aos versos que integrariam “Alguma poesia”, livro responsável por abrir as alas definitivas do modernismo da década de 30 no país. De acordo com o pesquisador Silviano Santiago, Drummond “era, para ele, ainda um jovem poeta iniciante e que, em relação à vida e à literatura precisaria, também, aprender, embora pudesse já ser considerado um grande poeta”. Mesmo assim, o entusiasmo de Mário de Andrade quanto aos jovens mineiros já havia contaminado Bandeira; nas palavras deste: “Por aqui (Rio de Janeiro) quando se fala no ‘grupo mineiro’ é com admiração, respeito e uma enorme esperança”.
O sentimento ambíguo de Manuel dá tintas no que escreve a Mário de Andrade sobre Carlos: “O Drummond jantou aqui conosco. Feinho pra burro. Implicantinho. A gente não faz fé. Couto deu uma esfrega de verve nele. Afinal já no trole a caminho da estação ele riu. Uma semana depois ele escreveu de Belo Horizonte se rindo muito e mandando quatro poemetos, três dos quais deliciosos, perfeitos, definitivos: ‘Ouro Preto’, ‘Cantiga do viúvo’ e ‘Infância’. Ele é feinho mas é de fato’”. A crítica estética por parte de Bandeira soa mais curiosa se formos relembrar o seu rosto, levando a refletir o impacto disso na percepção de Drummond — o mesmo cujos olhos impressionaram Ferreira Gullar. Teria o tempo feito bem a Carlos? O fato é que ele, desde cedo, já era “de fato”: a potência de sua criação era inegável aos olhos desses modernos já consagrados, ainda que sem encantos pelos efeitos da presença em si, talvez isso o tornasse mais intrigante enquanto figura — se a pessoa já portasse o suficiente, o provável é que a literatura não fosse o campo solitário — mas nem tanto — de sua plena manifestação.
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Quais foram as circunstâncias necessárias para produzir um nome que se tornou o maior marco cultural da poesia em língua portuguesa desde Fernando Pessoa? Esse nome, porém, não se restringe ao gesso e metal dos louvores: do aeroporto de Belo Horizonte à canção de Anitta tocando no rádio, o poeta-paradoxo segue encontrando formas de nos povoar. Mesmo com o relato desses poetas, ainda acabamos como Cazuza, o qual amava acompanhar de bicicleta o passo lento de Drummond na orla de Copacabana; nós, como o cantor, sempre a passos atrás, maravilhados pelas faces vivas do mineiro que provam estar eternamente se reconfigurando; em seu legado, um origami dinâmico, com versos para qualquer momento. Sob o sopro desse homem-enigma, é certo que sabemos viver melhor nossas perguntas, essa agonia deliciosa de existir.


