Coronel Cleide Barcelos dos Reis - créditos: PMMG
31-05-2026 às 14h40
Amauri Meireles*
O avanço das instituições democráticas raramente ocorre de forma linear, mas consolida-se em momentos de profunda ruptura simbólica e prática. A escolha da Coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues para comandar a Polícia Militar de Minas Gerais carrega exatamente esse ingrediente histórico. Ao assumir a cadeira mais alta de uma corporação com mais de dois séculos e meio de existência, ela não apenas atinge o ápice de uma carreira irrepreensível, mas, também, traz consigo características que, por certo, contribuirão para subverter três vetores – repreensíveis e execráveis – de marginalização social: o pertencimento ao gênero feminino, a ancestralidade negra e a inserção no comando de uma força de matriz militar.
Historicamente, as estruturas de caserna foram edificadas sob uma óptica de exclusividade masculina, alimentando o mito de que a mantença da Ordem, incluída a garantia dos poderes constituídos, exigiria atributos e requisitos puramente associados ao homem. A ascensão da Coronel Cleide estraçalha esse anacronismo. O protagonismo de mais uma mulher ser colocada no topo da administração pública não se desenha, aqui, como um ato de condescendência política, mas como a colheita legítima de uma trajetória de alta performance. Sua liderança técnica à frente de ações especializadas e na gestão de políticas contra a violência doméstica comprova que a inteligência estratégica e a autoridade operacional independem de gênero, conferindo nova plasticidade e eficiência ao conceito de comando.
Esse episódio insere-se, ademais, em um movimento civilizatório mais amplo e irreversível: a autonomização feminina como força motriz da vida contemporânea. A mulher do século XXI não reivindica espaço por benevolência alheia — ela o ocupa por direito, por competência e por uma determinação forjada à contracorrente de séculos de invisibilização. Nos lares, nas universidades, nos parlamentos, nos tribunais e, agora, de forma cada vez mais contundente, nas cúpulas das forças de segurança, a presença feminina não é concessão: é conquista.
Lideranças como a da Coronel Cleide funcionam como faróis para as incontáveis meninas e jovens mulheres que, hoje, observam uma farda e passam a enxergar nela não um limite, mas uma vocação possível. O empoderamento feminino, quando alicerçado no mérito e na resiliência — como o é neste caso —, não se restringe a beneficiar as mulheres: eleva o padrão das instituições, diversifica perspectivas no processo decisório e fortalece a legitimidade democrática do Estado diante da sociedade que serve.
Num recorte étnico-racial, a posse da oficial atua como um poderoso contra-ataque ao excessivamente ideológico e abominável racismo estrutural que historicamente delimita, de forma descabida, tetos de vidro para a população negra no Brasil. Em um cenário social ainda marcado por profundas assimetrias, testemunhar uma mulher negra, vestindo a farda de autoridade máxima de uma das forças públicas mais tradicionais da federação, constitui um auspicioso divisor de águas pedagógico e reparador. A imagem da Coronel Cleide no comando desautoriza frontalmente o preconceito velado que tenta vincular a cor da pele a papéis subalternos, projetando uma referência de excelência intelectual e operacional que reflete, de forma autêntica, a demografia plural do povo mineiro.
Por fim, a própria condução da atividade de defesa integral é oxigenada por esse novo paradigma. Ao estabelecer como prioridade de sua gestão o bem-estar da tropa e a aproximação com a sociedade civil, a nova comandante-geral demonstra que a governança moderna exige um equilíbrio fino entre o cumprimento rigoroso da lei e a sensibilidade social.
É precisamente nesse ponto que se impõe uma crítica inadiável e sem meias palavras: o chamado disfemismo policial – esse conjunto de narrativas, linguagens e enquadramentos deliberadamente depreciativos, mobilizados para desconstruir, denegrir, desestabilizar e enfraquecer as instituições que realizam atividades policiais, em particular as forças públicas estaduais – representa uma das formas mais perversas e covardes de sabotagem ao Estado Democrático de Direito. Sob o verniz de uma pretensa crítica progressista, o disfemismo policial opera como um instrumento de erosão institucional: desumaniza o policial, criminaliza a farda antes mesmo do fato, alimenta o descrédito popular sobre corpos que são, em última análise, o escudo cotidiano da cidadania mais vulnerável. Atacar sistemática e retoricamente o órgão que, através de ações e operações de polícia ostensiva, garante a Ordem nos Estados, é, em essência, abandonar à própria sorte, minimamente, as comunidades periféricas, os bairros populares, as mulheres e as crianças em situação de risco – aqueles e aquelas que, paradoxalmente, mais dependem da presença protetora do Estado. A desconstrução irresponsável das forças públicas estaduais não produz liberdade: produz vácuo, e o vácuo é sempre preenchido pela violência organizada.
A liderança inaugurada pela Coronel Cleide Barcelos redesenha o futuro da força pública, que é patrimônio do povo mineiro. Três características que outrora operavam como ferramentas de exclusão foram transformadas, por meio do mérito e da resiliência, em insígnias de vanguarda, equidade e orgulho institucional. Contra o disfemismo que apequena, ergue-se o exemplo que engrandece. Minas Gerais estabelece, assim, uma nova baliza para o país: a demonstração prática de que a proteção integral – do povo, do território, do meio ambiente e do ecossistema policial – mais eficiente é aquela que se constrói com diversidade, justiça e competência absoluta.
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*Coronel Veterano da Polícia Militar de Minas Gerais

