Imagem de ilustração créditos: criada por IA
31-05-2026 às 13h12
Dona Dianna Salomão*
Acompanho de perto a fase atual da história do Diário de Minas e reconheço o mérito de quem está em seu comando. São verdadeiros guerreiros.
Li o artigo de Dídimo sobre gestor de cultura embriagado de marketing cultural e concordo plenamente com seu ponto de vista. Sim, Durval Ângelo, presidente do TCE-MG está “ocupando o vazio deixado pelo Executivo e colocando-se no centro do debate sobre política pública de cultura” .
Sem dúvida, Durval conduziu com maestria os eventos sobre Implementação dos Sistemas Municipais de Cultura e Impactos da Reforma Tributária sobre o Orçamento da Cultura, realizados em 19 e 20 de março de 2026, no Auditório Vivaldi Moreira, TCE-MG.
ENTRE ASPAS: O VAZIO ESTÉTICO DAS LEIS DE INCENTIVO E O TEATRO DOS SEMINÁRIOS DE CULTURA
Contudo, Dídimo, o correto seria grafar Sistemas Municipais de ‘Cultura” e Orçamento da “Cultura”. O uso de aspas se faz necessário, porque, de forma desimpedida, a Cultura alimentada por renúncia fiscal não revela o resultado estético que mais de trinta anos das “Leis de Incentivo da vida” deveriam ter produzido. Fica evidente que, nos bastidores dos “grandes jogos”, a qualidade artística é secundária; o que importa é sustentar a ilusão do espetáculo.
Para fins de análise, dou aos referidos eventos de março o título de Seminário de Cultura I.
Essa escolha se justifica, primeiro, porque, em 21 de abril, durante a “cerimônia da Medalha de Inconfidência 2026” , assistimos ao que podemos chamar de chamar de Seminário de Cultura II. Em segundo lugar, porque o Seminário de Cultura II funcionou como um desdobramento direto do Primeiro, ambos dirigidos por Durval Ângelo e com as participações especiais de Ângelo Oswaldo, Mateus Simões e, como em jogo de cartas viciadas, Romeu Zema . Por fim, porque esses Seminários contaram com uma pré-estreia verdadeiramente teatral.
Minha tese é a de que essa movimentação política teve o claro propósito de canalizar em prol de Durval Ângelo as ferramentas que as Leis de Incentivo colocam à disposição de agentes da cultura, dando ao Presidente do TCEMG controle da narrativa cultural, para asfixiar a escola cívico-militar, e poder, para fortalecer a escola cívico-militante.
A estratégia usa o prestígio do prefeito de Ouro Preto para lançar a campanha do “nós não queremos escolas cívico-militares, queremos escolas cívico-militantes”. Sem alternativa em face do valor social já angariado pelas escolas cívico-militares, o grupo político admite que qualquer recuo na agressividade do movimento significaria “agradar a extrema-direita brasileira” .
Grandes jogos são jogados
entre a terra e o firmamento:
longas partidas sombrias,
por anos, meses e dias,
independentes do tempo…
Soldados e marinheiros,
camponeses e fidalgos,
ministros, gente da Igreja,
não há mais ninguém que esteja
fora dos vastos baralhos.
Batem as cartas na mesa,
na curva mesa da terra.
Partida sobre partida,
perde-se renome ou vida:
mas a perdição é certa.
A PRÉ-ESTREIA: QUEM MANDA NO PALCO DA ESCOLA CÍVICO-MILITAR?
Sobre a pré-estreia da campanha do “nós não queremos escolas cívico-militares”, eu nunca falei que foi circense. O que eu disse, e mantenho, é que foi algo puramente teatral. Portanto, caro leitor, imagine-se agora sentado na plateia de um teatro.
[Cenário: o palco está dividido em três espaços. À esquerda, o Plenário do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG). Ao centro, o Salão Principal do Palácio da Inconfidência, sede da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (ALMG). À direita, duas Salas da Justiça: no nível do palco, a 4ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias; um nível acima, a 19ª Câmara Cível.]
[Bate o terceiro sinal. Apaga-se a iluminação geral. Os refletores acendem-se, gradualmente, sobre os três ambientes. A função vai começar.]
NARRADOR
(Voz em off. Neutra, de quem conhece as engrenagens da política; serena, de quem observa a dialética entre o homem e o tempo.)
Quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025. Durval Ângelo assume a Presidência do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais para o biênio 2024-2026.
(Ouve-se o som solene de sinos de posse. A luz de um refletor foca, brevemente, em Durval, à esquerda, no proscênio.)
NARRADOR
Pouco depois, em julho, o Governo de Minas Gerais decide consultar a “comunidade escolar para possível ampliação” do Programa de Escolas Cívico-Militares (PECM). Abre-se o debate.
(Luz intensa, no centro do palco, sobre o Salão Principal da ALMG.)
BEATRIZ CERQUEIRA, deputada estadual (PT)
(Postura firme, de quem sabe enfrentar o conservadorismo; tom pausado, de quem aprendeu a combater a violência política.)
Consulta? Isso é imposição! O que o militarismo quer? Hierarquia e disciplina; na verdade, obediência cega e mordaça ao pensamento crítico. Cadê a autonomia dos estudantes?
(Volta-se para o Plenário do TCEMG, à esquerda. Seus movimentos de mãos estabelecem limites no espaço, seus dedos indicam direções.)
Presidente Durval Ângelo, o povo exige aplicação do princípio da economicidade! Qual o custo-benefício desse programa? Eu quero saber: o ordenamento jurídico autoriza pagamento de militar com verba da educação? Sob a luz de Paulo Freire, o Tribunal não pode admitir que se implante, em pátio de escola pública, aparelho ideológico de doutrinação contra a educação libertadora. Resguarda o direito à pluralidade de ideias, no ambiente escolar!
DURVAL ÂNGELO
(No Plenário do TCEMG. Expressão equilibrada, feições harmoniosas. Músculos faciais relaxados, transparecendo extrema serenidade.)
A petição combativa e didática da parlamentar está prenhe de sensatez. A questão central é: o ordenamento jurídico autoriza pagamento de militar com verba da educação? Em princípio, não. E, por isso, determino a paralisação imediata da ampliação e exijo a extinção do modelo cívico-militar nas Gerais, a partir de 2026! Representação acolhida.
(Bate o martelo. O som ecoa.)
REPRESENTANTE DO ESTADO
(Entra, agitadamente, pela direita. Caminhando, indo e voltando, pelo corredor que separa TCEMG e ALMG.)
Pleno século XXI, Presidente… Não é hora de o Tribunal de Contas deixar de ser criança mimada e amadurecer?
(Gira o corpo, voltando-se para a Sala da 4ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias, no nível do palco à direita.)
Janeiro de 2026, Excelência! O povo mineiro está cansado dos absurdos administrativos reiteradamente emanados do TCEMG! Enquanto isso, aluno virou militante e sala de aula transformou-se em arena ideológica. É preciso combater a queda na qualidade do ensino básico, sob pena de se perder o bonde da história! O Tribunal de Contas não pode intervir em execução de política pública Judiciário, socorro!
MAGISTRADO DA 4ª VARA
(Sentado à mesa da sala inferior, à direita. Segura, na mão direita, a espada da autoridade e, na esquerda, a balança do equilíbrio. A venda está jogada sobre a mesa, indicando uma Justiça que enxerga a realidade sem perder a imparcialidade.)
Vistos etc. Poucas coisas são mais sagradas do que o princípio da separação dos poderes. Ele evita concentração de poder e garante exercício das liberdades individuais. Ora, o TCEMG determinar extinção de um modelo educacional inteiro está muito além de qualquer fronteira admissível ao controle externo. Não há argumento para esse tipo de excesso. É abuso de poder. Liminar concedida!
(Bate o martelo. O som ecoa, mais alto do que na outra vez.)
DURVAL ÂNGELO
(Firme, com gestos agitados e enérgicos, do lado esquerdo do palco.)
Que o Tribunal de Contas não se curve! Não se cale! Não se acovarde! Pela interposição de Agravo de Instrumento.
REPRESENTANTE DO ESTADO
(Caminha pelo palco, dirigindo-se ora a Durval Ângelo, ora a Beatriz Cerqueira.)
Vocês vão insistir em educação militante? Com certeza, vão. Continuarão simpáticos a regimes autoritários? Sim, sem dúvida. Vão destruir infinitas gerações que deixarão de aprender gramática normativa, matemática pura e fatos históricos objetivos? Canalhas, desgraçados, sádicos.
(Aponta o nível superior, em direção à Sala da 19ª Câmara Cível.)
Não são educadores, são tarados que negam a crianças e adolescentes o direito de ingresso à Cultura. O que querem com mitigação da autoridade do professor? Falência do sistema ensino-aprendizagem! É o fracasso social e seria a derrocada de um ente da Federação. Diante desses desastres, o Governo do Estado de Minas Gerais pergunta: é regular gastar dinheiro público para destruir pessoas? É legal e constitucional gastar dinheiro público para gerar analfabetos?
DESEMBARGADOR DA 19ª CÂMARA CIVIL
(Aparece sob a luz de um refletor, no nível superior direito. Tom desprovido de paixão, frio e técnico.)
Silêncio. Aqui não é lugar para teoria pedagógica. Silêncio! Esta é a Casa da Norma Pura. A validade de uma regra não depende de sua conformidade a critérios como justo e injusto; advém, apenas, da formalidade.
(Abre um volume da 6ª edição, em 1998, de Teoria pura do direito, de Hans Kelsen, na tradução de João Baptista Machado, pela Martins Fontes; na p. 221. Lê.)
“Todo e qualquer conteúdo pode ser Direito. Não há qualquer conduta humana que, como tal, por força do seu conteúdo, esteja excluída de ser conteúdo de uma norma jurídica. A validade desta não está negada pelo fato de seu conteúdo contrariar o de uma outra norma que não pertença à ordem jurídica cuja norma fundamental é o fundamento de validade da norma em questão.”
(Fecha o livro. O som ecoa mais alto do que o das marteladas.)
Posto isso, só nos resta dizer que o Poder Executivo precisa, definitivamente, aprender a seguinte lição: Tribunal de Contas é competente para suspender ato administrativo com indício de ilegalidade. Portanto, o veto ao modelo cívico-militar deve prevalecer. Razão pela qual e em nome do princípio da prudência fiscal, casso a liminar!
(O centro do palco é, feericamente, iluminado. Entram as maiores autoridades do Governo de Minas.)
MATEUS SIMÕES, então Vice-Governador
(Discursa com altivez.)
O Estado não vai aceitar interferência da Justiça! Vamos implantar a escola cívico-militar, descumprindo a decisão judicial. E fica o aviso: podem se preparar para mandar me prender.
DURVAL ÂNGELO
(No Plenário do TCEMG. Reage, balança a cabeça, reprova.)
O vice-governador está no mau caminho. O que aconteceu com aquele que dizia que não obedecia?
(Pausa dramática.)
Lembrem-se da prisão de Bolsonaro.
ROMEU ZEMA, então Governador
(Ao centro, a indignação lhe brota das palavras.)
As decisões do TCEMG e do TJMG são absurdas. Escola cívico-militar não pode ser tratadas como questão ideológica ou por mera opinião do julgador.
DURVAL ANGELO
(Dá um passo à frente, com a decisão nas mãos.)
Esta Corte não atua ideologicamente! Escola cívico-militar não pode funcionar sem lei. E tem que saber de onde está saindo dinheiro para pagar militar e eu vou mandar fiscalizar. Para mim, uma coisa é clara: o Governador Romeu Zema não leu a decisão… ou não a entendeu!
[Os refletores piscam, alternadamente, entre os três espaços e as marcas onde estão o Governador e seu Vice, simulando tensão institucional intransponível. A luz cai rapidamente. Black-out.]
Lá vêm corações em sangue,
lá vêm tenebrosos chuços:
defrontam-se ouros e espadas,
saltam coroas quebradas,
morrem culpados e justos.
ALIANÇAS E AFAGOS: O RITUAL DE LEGITIMAÇÃO, NO SEMINÁRIO DE CULTURA I
Dídimo já falou quase tudo sobre o Seminário da Cultura I.
Para os propósitos da tese, destaco a coreografia de poder encenada por Durval Ângelo e Ângelo Oswaldo e a consequente legitimação institucional. O alinhamento ideológico escancarado e as deferências mútuas evidenciam o real propósito de toda a movimentação política.
No primeiro dia, em 19 de março, Durval Ângelo fez questão de interromper o protocolo para cumprimentar o prefeito de Ouro Preto, que estava na plateia. Visivelmente lisonjeado, Ângelo Oswaldo levantou-se e girou o tronco para a plateia, agradecendo os aplausos com uma reverência quase imperceptível.
No dia seguinte e consolidando a aliança no melhor estilo vai e vem de afagos, foi a vez de Ângelo Oswaldo interromper a própria apresentação só para saudar Durval Ângelo.
Batem as cartas na mesa…
Cruzam-se naipes e pontos:
não se avista quem baralha
esta confusa batalha
de enigmas, quedas e assombros.
Grandes jogos são jogados.
E os silenciosos parceiros
não sabem, a cada lance,
que o jogo, fora de alcance,
pertence a dedos alheios.
Mesas [ouropretanas] cobertas
de ouros, paus, espadas, copas…
(Minas, sangue, sofrimento…)
No baralho bate o vento
e o jogo segue outras voltas.
SEMINÁRIO DE CULTURA II: O USO DO ENSINO PÚBLICO COMO PANO DE FUNDO PARA DISPUTA IDEOLÓGICA
Ali, em Ouro Preto, no dia 21 de abril deste ano, concedeu-se a Medalha da Inconfidência a três dezenas de militares . _ _ _ _
Diante da tropa, Ângelo Oswaldo referiu-se ao Museu da Inconfidência para categorizá-lo como “a melhor escola”, “a verdadeira”; “uma”, em suma, “escola cívico-militante”. Em seguida, posicionou-se a “favor de uma educação cívica lúcida, transparente e democrática” e condenou “o militarismo como um atentado aos princípios basilares da República” .
“A fala provocou reação imediata do governador Mateus Simões” , que pediu a militares que se levantassem e recebessem aplausos. O apoio de Mateus Simões foi além. Sugeriu que Ângelo tem “vergonha do militarismo”. Desqualificou-o como “dono da casa”, por ofender a tradição de hospitalidade mineira. E reduziu o discurso do prefeito ouropretano a “palavras vazias e baratas”, isolando-o como um “daqueles que não respeitam as instituições brasileiras”.
Ato contíguo, Romeu Zema comparou luta de Inconfidentes com “enfrentamento aos intocáveis” , tangenciando a Lei n. 9.504/1997, art. 36-B e art. 73, I e II.
Ângelo Oswaldo, Simões e Zema evitaram a dimensão ideológica que sustenta tudo isso: ensino público fundamental e médio como instrumento de guerra cultural.
CONCLUSÃO
A tese está provada pelo fato de que o tema da “escola cívico-militante” tem sido utilizado para atacar o modelo militarizado. Além disso, o conflito adquiriu grande repercussão, visto que, afinal, não é todo dia que Presidente de TCE se coloca “no centro do debate sobre política pública de cultura” .
Com isso, qualquer discussão técnica sobre eficiência escolar é deixada de lado. Não ser capaz, de forma alguma, de “agradar a extrema-direita brasileira” significa abandonar a discussão pedagógica sobre ensino e aprendizagem e focar no “inimigo” (Schmitt): a neutralidade em relação à sala de aula torna-se impossível e um grupo passar a viver apenas para combater o avanço do outro.
Em Minas Gerais, educação e “cultura” tornaram-se teatro de guerra política.
Fiador da classe “cultural” mineira, Durval Ângelo reuniu no TCEMG poder de legitimar o que é “cultural” e, por consequência, capacidade de esvaziar pautas da direita. Ao agendar temas ideologizados dentro de um tribunal técnico, Durval Ângelo aufere prestígio, moeda de troca em sucessão municipal, debate pedagógico e rumos “culturais”.
A seu favor? A tecnicismo e unanimidade do Colegiado de Contas; a base jurídica das decisões do TCEMG; a convergência institucional, uma vez que o TJMG validou a posição da Corte de Contas, e a declaração de submissão: “O quer for aprovado na ALMG, a gente vai cumprir, o que estiver no orçamento, não temos o que questionar” .
*Dona Dianna Salomão é professora

