Créditos: Divulgação
24-05-2026 às 10h26
Leandro Garcia*
O início desta amizade entre Drummond e Alceu não foi de forma pessoal, frente à frente, mas à distância, conhecendo-se ambos apenas pela imprensa, pela publicação de obras e pela interseção de amigos em comum, especialmente Mário de Andrade, correspondente assíduo tanto de Drummond quanto de Alceu. Tal fato – a amizade puramente epistolar – era comum nesta geração que pouco se encontrava, mas que, na distância física, mantinha verdadeiras redes de contato e convivência. Desta forma, a carta era uma espécie de espaço de debates e formulação de pensamentos, estilos, opiniões, exteriorização de paixões, desabafo de sentimentos e até mesmo construção de certas ficções, naquele tipo de encenação própria de certas amizades. É o próprio Alceu que reconhece e até reclama com Drummond, nesta carta de 1/2/1929: “Mas você é um mau correspondente. Não envia cartas. Tenho de resignar-me a continuar no escuro. Eu sou o contrário. Sem ter tempo de escrever, escrevo demais e escrevo pelo prazer de receber a resposta. E pelo amor à correspondência, essa forma literária que hoje em dia me satisfaz”.
Quanto à vida literária diluída nesta troca epistolar, as cartas de Alceu e Drummond estão repletas de situações/circunstâncias que ajudam na montagem do complexo quebra-cabeça biográfico do nosso Modernismo. Como exemplo, lembro desta dúvida de Drummond: “Quem é Gildo Brasil, que me dedicou um livro de poemas?” (Carta a Alceu, outubro/1929). A dúvida do poeta é logo sanada por Alceu na resposta de 24/10/1929: “Gildo Brasil é o Caio Mello Franco, já viu os poemas? Tem alguns interessantes. Ele já voltou para a Embaixada em Paris, de que é um dos secretários”. Assim, esta correspondência também serve para iluminar e mostrar as particularidades – erros e acertos – do próprio movimento modernista brasileiro, através dos filtros de Alceu e Drummond, elucidando suas lacunas, conquistas, limitações, autores, obras, avanços e retrocessos.
Em pauta, fé e religião
Tal correspondência entre Drummond e Alceu serve não apenas para acompanharmos os debates e fofocas sobre o nosso Modernismo, mas também para desvendar aspectos íntimos e muito pessoais de ambos os correspondentes, como a complexa relação de Drummond com Deus, com a fé e com o catolicismo.

Um bom exemplo foi a publicação da revista “A Ordem”, órgão de divulgação da intelectualidade católica brasileira e publicada pelo Centro Dom Vital do Rio de Janeiro. Drummond não foi apenas leitor e assinante deste periódico, mas também o seu divulgador na Belo Horizonte dos anos 20 do século passado. Em suas cartas, Alceu fez diversos pedidos de contribuição intelectual em favor de “A Ordem”, como podemos verificar nesta passagem, em 1/2/1929: “A Ordem virá, a meu ver e segundo o meu desejo, ante sempre esse gosto pela Verdade, tão pouco dos nossos sabidos. Oxalá possa um dia você escrever nela, dentro do seu espírito, reconciliado com aquilo que parecia estar afastado”. Nesta carta a Alceu, em 1/3/1929, Drummond deixa claro o seu trabalho de divulgador desta revista em terras mineiras: “Como vai A Ordem? O Casasanta, com quem trabalho, tem feito propaganda eficiente da revista, e creio que o Abgar Renault também tem se interessado. Eu lhe mando mais um endereço: Joaquim Bento de Souza, Secretaria da Agricultura, Belo Horizonte”. Por esses fragmentos, sentimos que a correspondência entre Drummond e Alceu excedeu a vivência de uma simples amizade, mas também ajudou na criação de uma rede de sociabilidade entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro através de interesses comuns, inclusive, os de natureza religiosa. Ou seja, tais passagens comprovam a intensa rede de contribuição intelectual que se estabeleceu nesta correspondência, confirmando a tese de que a epistolografia proporciona uma ótima possibilidade de intercâmbios culturais e estilísticos, uma espécie de canal artístico e ideológico de grande complexidade.
Drummond encontrou em Alceu um interlocutor à altura das suas dúvidas existenciais, dos seus questionamentos em relação a Deus e à fé. Já Alceu, recentemente convertido aquando do início desta correspondência, encontrou em Drummond a possibilidade de uma “conversão de peso”, isto é, Alceu “injetaria” em Drummond aquilo que nele (Alceu) sobrava – a fé. O que faltava no poeta seria preenchido pelo que abundava no crítico, numa clara relação entre mestre e discípulo, tão cara na correspondência entre os nossos modernistas, particularmente entre Mário de Andrade e alguns dos seus principais correspondentes. Esta partilha sobre as “coisas do alto” ficou bem clara nesta carta do poeta itabirano ao crítico carioca, em 24/1/1929: “Sou dos maus, dos piores católicos que há por aí. Talvez seja uma crise da mocidade, não sei, entretanto, sinto pouca disposição para crer, e um contato extremamente doloroso que tive com os jesuítas me afastou ainda mais da religião. Fiz mal, talvez, em confundir a religião com os seus ministros…”
Respondendo a Drummond, em 1/2/1929, Alceu afirmou de forma um tanto dramática: “Você fala na ferida que levam os que como você não creem ou não sabem que creem. Essa ferida é já um pouco de amor à Fé. Os que nada esperam dela, nem ao menos tem a noção da ferida, a suspeição de uma ausência, a intuição de que há qualquer coisa além do mundo que nos cerca. E, no mais, a Fé é também uma ferida. É mesmo a maior das feridas humanas”. Ferida é sinal de dor, incômodo, inflamação, depuração. Todos esses sintomas intensificam a complexidade do problema religioso vivido por Drummond, aumentando ainda mais a necessidade da partilha, da exposição de tais ideias a alguém confiável, bem (in)formado, que também viveu esta problemática e a soube solucionar, como foi o caso de Alceu Amoroso Lima, convertido ao catolicismo em 1928.
As tentativas de Alceu em converter Drummond foram várias, intensas e bem articuladas, entretanto, sem uma resposta positiva por parte do poeta, que nesta carta de 1/3/1929 assim afirmou ao amigo: “Sou-lhe muito grato pela sua bela e generosa carta, que guardo com carinho entre os meus papéis. Só um trecho dela é que me perturbou: aquele em que você dá a entender que não encontrou a paz na religião, porque a paz não é deste mundo. Mas então não sei o que se deva procurar na religião. Se ela não é uma paz máxima e consoladora, uma dissolução de todos os ímpetos, revoltas, inquietações, não seria preferível continuar do lado de cá, sem nenhuma certeza superior e sem nenhuma esperança?” Desta forma, o “lado de cá” é por natureza fragmentado, rachado, incerto, cético e tais estados não preenchem o costumeiro vazio próprio da condição humana, a nossa busca pelo eterno, pelo infinito, por aquilo que fica e dura. É justamente este entre-lugar, profundamente marcado pela tensão, que corrói e traz incerteza e ceticismo, possibilidades e não certezas, desconfianças e o sentimento inquieto e incômodo de que algo a mais existe, esta espécie de metafísica perturbadora e tentadora do eu-lírico. Covardia? Medo? Insegurança? Apenas humanidade, esta medida comum a todos nós.
As cartas desta fase do epistolário (década de 20, sobretudo) testemunham importantes aspectos biográficos sobre a pessoa de Carlos Drummond de Andrade, aspectos estes não muito conhecidos do grande público, dos especialistas da sua obra e dos leitores em geral. O que vemos é um Drummond sintomaticamente fragmentado pelas vicissitudes da própria vida, pelas inconstâncias da carreira profissional, pelas escolhas realizadas – tudo isso comentado e debatido com Alceu, não raro tentando entender estas limitações pelo olhar religioso, tentando entender como Deus permanece (ou não) por trás de tais acontecimentos. Na verdade, o que incomoda Drummond é o silêncio de Deus manifestado na sua pessoal “falta de paz interior”, como ele sempre reclama com Alceu em diversas cartas.
Muito se poderia falar acerca desta questão religiosa e existencial nas inúmeras cartas trocadas entre Carlos Drummond de Andrade e Alceu Amoroso Lima, pois foram várias as missivas que testemunharam este debate que considero tão interessante para compreendermos esta dimensão – da fé – nem sempre bem explorada e explicada por críticos e historiadores da literatura brasileira. Contudo, outros assuntos foram igualmente discutidos por esses dois correspondentes e escolho, já encaminhando para a conclusão deste ensaio, analisar um pouco acerca da relação mais profissional entre ambos.
Acerca da relação profissional
Tal momento se iniciou em 1934, época da mudança de Drummond de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, quando ele assumiu a assessoria e chefia do gabinete de Gustavo Capanema, no Ministério da Educação do governo de Getúlio Vargas. Foram onze anos à frente deste importante cargo de projeção nacional, que alçou o nome de Drummond, tornando-o ainda mais conhecido nos diferentes setores da sociedade brasileira. É importante lembrar que Drummond não exerceu apenas a chefia do gabinete de Capanema, mas também foi por este nomeado a outros cargos de igual relevância, como a direção do Departamento Nacional de Educação ou então a secretaria do Conselho Federal de Educação, do qual Alceu Amoroso Lima era um dos membros titulares. Tais coincidências aproximaram ainda mais o crítico do poeta, ainda que por vias meramente profissionais e políticas, já que eles mesmos confessaram – em depoimentos e entrevistas – que se encontraram mais via correspondência e em eventos sociais do que propriamente em encontros pessoais e familiares.
Neste período, Drummond não apenas adentra mais integralmente no serviço público em nível federal, como também exerce um importante intercâmbio entre artistas e intelectuais com o Ministério da Educação. É neste momento e sob esta natureza que se desenvolve a segunda fase da correspondência entre Drummond e Alceu, uma prática epistolar mais burocrática e marcada por contatos rápidos, telegráficos e objetivos, todos visando empregos, funções e problemas legais do sistema federal de ensino via Ministério da Educação.
Alceu via em Drummond a “ponte” certa para ter acesso direto a Capanema, numa cumplicidade de grandes amigos, sem cerimônias e com palavras objetivas. Por seu lado, Drummond também usava a mesma objetividade nas suas respostas e/ou comunicados, como neste bilhete enviado a Alceu: “Rio, 30-10-36 / Meu caro Alceu / Por meu intermédio, você pediu há dias ao Ministro uma palavra de interesse em favor do sr. Alberto Cerqueira, candidato a protocolista do Tesouro. Essa palavra foi dada, numa carta ao Ministro da Fazenda. É o que tinha a comunicar-lhe, com um abraço cordial, o / Carlos”.
Aqui se encontra um elemento de grande importância para os estudos histórico-literários e para a compreensão da vida literária modernista como um todo: o complexo e intenso mecenato exercido por alguns artistas e intelectuais, pois percebemos uma espécie de rede de contatos e pedidos de favores exercidos por Alceu Amoroso Lima sobre Carlos Drummond de Andrade. Eram pedidos os mais diversos, mas todos relacionados a problemas burocráticos do Ministério: dúvidas quanto à legislação educacional brasileira, pedidos de amigos por transferências entre instituições e/ou departamentos, nomeações, exonerações, questão salarial, concursos públicos etc. Neste sentido, salta à vista a quantidade de nomeações indicadas por Alceu ao Ministério da Educação, especialmente de pessoas ligadas à Ação Católica Brasileira, em geral, correligionários do Centro Dom Vital.
Ou, então, também tínhamos inúmeros pedidos que eram feitos por entidades, em geral católicas, solicitando algum tipo de ajuda a Alceu, que logo remetia a Drummond, no Ministério, como se pode perceber neste telegrama: “24-11-38 / Comunico-lhe ministro autorizou verificação prévia Colégio Santa Catarina em Petrópolis conforme sua solicitação abraços /Carlos Drummond de Andrade”.
Insisto em afirmar a importância de tais relatos e situações para compreendermos a noção de vida literária no nosso Modernismo que, certamente, ultrapassou as fronteiras das relações e eventos puramente culturais, atingindo as relações de amizade e/ou profissionais as mais diversas, fornecendo-nos dados que ajudam no preenchimento deste enorme quebra-cabeças biográfico-cultural da modernidade brasileira.

A correspondência trocada entre Alceu Amoroso Lima e Carlos Drummond de Andrade foi atravessada por questões religiosas, biográficas, históricas, humanas e culturais, aspectos estes que tornam ainda mais intrigante a noção de vida literária, conceito essencialmente aberto e sempre esperando novas interpretações.
Foram dois missivistas de peso: um grande escritor e um grande crítico literário. Duas personalidades essenciais para se compreender a cultura literária brasileira do século XX, marcada pela diversidade ideológica, temática e estilística. Dois intelectuais de pensamento e práxis inteiramente diferentes que refletem a própria heterogeneidade do nosso movimento modernista, marcado por rachaduras, divergências e fragmentações. Porém, tudo trocado e discutido via cartas entre Drummond e Alceu, testemunhando e nos legando um dos mais importantes epistolários do nosso modernismo.

Para saber mais!
RODRIGUES, Leandro Garcia. Ensaios sobre epistolografia. Belo Horizonte: Relicário, 2023.
____________. Correspondência de Carlos Drummond de Andrade & Alceu Amoroso Lima. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2014.


