Créditos: Marina Ramos / Câmara dos Deputados
21-05-2026 às 09h43
Samuel Arruda*
O nome do deputado federal Aécio Neves voltou a circular nos bastidores nacionais como possível alternativa do PSDB para a disputa presidencial de 2026. A movimentação ocorre em meio à dificuldade histórica do partido em reconstruir protagonismo nacional após anos de perda de espaço político, redução de bancadas e fragmentação interna. Lideranças tucanas avaliam que Aécio ainda mantém densidade eleitoral em Minas Gerais, experiência administrativa e recall nacional suficiente para recolocar o partido no debate presidencial.
O cenário, porém, está longe de ser simples. Embora Aécio tenha sido um dos políticos mais influentes do país, ex-governador de Minas por dois mandatos e responsável por levar a eleição presidencial de 2014 ao segundo turno mais apertado da história recente, o desgaste acumulado desde as denúncias da Operação Lava Jato continua sendo um dos principais obstáculos para uma tentativa de retorno ao Palácio do Planalto.
Dentro do próprio PSDB há dirigentes que defendem cautela. O partido vive hoje uma realidade muito diferente daquela da polarização PT versus PSDB que marcou a política brasileira por quase duas décadas. Sem a mesma estrutura nacional, com perda de governadores e redução de influência no Congresso, os tucanos sabem que uma candidatura presidencial exigiria não apenas viabilidade eleitoral, mas também capacidade de unificar setores de centro e atrair alianças amplas. Nos bastidores, parte das lideranças entende que Aécio ainda possui trânsito político e articulação, mas avalia que a rejeição nacional poderia dificultar uma campanha competitiva diante da polarização consolidada entre direita e esquerda.
Outro fator relevante é que o eleitorado brasileiro mudou profundamente desde 2014. O espaço do centro tradicional foi comprimido pelo crescimento de candidaturas mais ideológicas e pelo fortalecimento das redes sociais como principal arena política. Nesse ambiente, uma eventual candidatura de Aécio teria de enfrentar tanto a resistência de setores antipetistas que migraram para a direita conservadora quanto a rejeição consolidada em segmentos alinhados ao governo federal. Além disso, há dúvidas internas sobre a capacidade financeira e estrutural do PSDB para sustentar uma campanha presidencial competitiva em âmbito nacional.
Por outro lado, aliados do tucano argumentam que Aécio preserva uma qualidade rara na política atual: experiência administrativa, conhecimento institucional e capacidade de diálogo entre diferentes correntes políticas. Em Minas Gerais, o ex-governador ainda mantém influência significativa em setores empresariais, prefeitos e lideranças municipais. Pesquisas recentes mostram que seu nome permanece competitivo na disputa pelo Senado. Levantamento divulgado neste mês aponta Aécio liderando um dos cenários para senador em Minas Gerais, à frente de adversários tradicionais.
É justamente por isso que, hoje, a avaliação predominante em setores políticos mineiros é de que a candidatura ao Senado apresenta viabilidade eleitoral muito mais concreta do que uma nova corrida presidencial. Aécio aparece competitivo em diferentes levantamentos e conta com a força histórica do eleitorado tucano em Minas, além do fato de que o estado elegerá duas vagas para o Senado em 2026.
Nos bastidores, interlocutores relatam que o próprio Aécio trata o Senado como cenário prioritário, aguardando apenas a definição das alianças estaduais e nacionais antes de bater o martelo. Há inclusive articulações envolvendo uma possível aproximação com o senador Rodrigo Pacheco em Minas Gerais, embora sem alinhamento automático na disputa presidencial.
Uma eventual candidatura presidencial, portanto, teria peso simbólico e poderia recolocar o PSDB no debate nacional, mas carregaria riscos elevados de desempenho eleitoral limitado, sobretudo diante da atual fragmentação partidária e da dificuldade do centro político em consolidar uma alternativa competitiva. Já a disputa ao Senado surge como caminho mais seguro, permitindo a Aécio reconstruir protagonismo político nacional a partir de uma posição institucional forte e estrategicamente relevante no Congresso.
A decisão final ainda dependerá das alianças regionais, do comportamento das pesquisas nos próximos meses e, principalmente, da capacidade do PSDB de definir se deseja apostar em um projeto nacional próprio ou atuar como força de composição em torno de outra candidatura de centro em 2026.
*Samuel Arruda e jornalista e articulista

