Créditos: Divulgação
19-05-2026 às 11h34
Soelson Araújo*
As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a importância estratégica das terras raras e minerais críticos recolocam o Brasil no centro da nova disputa econômica mundial. Mais do que uma questão diplomática envolvendo Estados Unidos, China e o controle global de minerais essenciais para a indústria tecnológica, o debate expõe uma oportunidade histórica que o país não pode desperdiçar novamente: transformar riqueza mineral em desenvolvimento real para sua população.
O jornal Diário de Minas vem defendendo há anos uma posição clara e inegociável sobre este tema. Não é mais aceitável que regiões extremamente ricas em recursos naturais, como o Vale do Jequitinhonha, continuem convivendo com baixos índices de desenvolvimento humano, carência de infraestrutura, dificuldades sociais e oportunidades limitadas para sua população enquanto bilhões de reais saem do subsolo rumo aos grandes centros econômicos e ao exterior.
O Vale do Jequitinhonha possui uma das maiores reservas minerais estratégicas do planeta. Lítio, grafite, terras raras e outros minerais críticos transformaram a região em alvo do interesse internacional diante da corrida global por baterias, inteligência artificial, carros elétricos, semicondutores e tecnologias de defesa. Entretanto, a grande pergunta que precisa ser feita é simples: qual será o verdadeiro legado deixado para quem vive na região?
Historicamente, o modelo mineral brasileiro foi estruturado para retirar riquezas, exportar matéria-prima e deixar para trás impactos ambientais, pressão social e pouca transformação econômica duradoura. É um ciclo antigo e perverso que se repete há décadas. A mineração chega prometendo progresso, gera empregos temporários durante a implantação dos projetos, movimenta a economia local por determinado período, mas frequentemente não constrói uma base sólida de desenvolvimento sustentável capaz de mudar a vida das futuras gerações.
O que o Vale do Jequitinhonha precisa não é apenas de mineração. Precisa de industrialização. Precisa de centros tecnológicos. Precisa de fábricas de baterias, processamento mineral avançado, refinarias tecnológicas, polos de pesquisa, universidades fortalecidas e qualificação profissional de ponta. Precisa que o valor agregado desses minerais permaneça dentro da própria região, gerando empregos qualificados, renda permanente e fortalecimento econômico regional.
Não há mais espaço para aceitar um modelo em que caminhões carregam riquezas diariamente enquanto comunidades próximas às minas convivem com estradas precárias, dificuldades no acesso à saúde, insegurança hídrica e baixo retorno social proporcional ao volume bilionário extraído do solo. A exploração mineral moderna precisa estar vinculada obrigatoriamente à transformação econômica regional.
Além disso, os impactos ambientais já não podem ser tratados como efeitos colaterais inevitáveis. O mundo inteiro discute sustentabilidade, transição energética e economia verde, mas não existe mineração sustentável sem responsabilidade social e ambiental rigorosa. O desenvolvimento não pode significar degradação de nascentes, contaminação de águas, destruição de vegetação nativa e comprometimento da saúde das populações vizinhas.
O Vale do Jequitinhonha vive um momento decisivo de sua história. A demanda internacional por minerais estratégicos poderá transformar a região em um dos principais polos econômicos do Brasil nas próximas décadas. Porém, isso só acontecerá de forma justa se houver coragem política para romper definitivamente com o velho modelo extrativista colonial que marcou a história econômica brasileira desde o período imperial.
As riquezas minerais do Jequitinhonha precisam servir primeiro ao desenvolvimento do próprio Jequitinhonha. Essa deve ser a prioridade nacional. O Brasil não pode repetir os erros do passado, exportando recursos estratégicos sem construir soberania tecnológica, industrialização regional e melhoria concreta da qualidade de vida das pessoas.
O desenvolvimento verdadeiro não se mede apenas pelo volume exportado, mas pelo legado social deixado para quem vive onde a riqueza é produzida.
*Soelson Araújo é empresário, jornalista, escritor, diretor presidente do Diário de Minas e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

