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19-05-2026 às 14h46
Samuel Arruda*
A decisão da Polícia Federal de marcar o depoimento da empresária Roberta Luchsinger, apontada nas investigações como possível elo entre o lobista Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e Fábio Luís Lula da Silva, elevou novamente a tensão política em torno do escândalo das supostas fraudes bilionárias envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. O depoimento foi marcado para a próxima quarta-feira, por videoconferência, e integra uma nova fase da força-tarefa montada pela PF para concluir dezenas de oitivas ainda pendentes no inquérito.
Segundo os investigadores, Roberta teria atuado como intermediária em relações comerciais e financeiras entre Lulinha e Antônio Camilo Antunes, personagem que passou a ser tratado como um dos principais operadores do esquema investigado. A Polícia Federal tenta esclarecer se houve participação direta ou indireta de pessoas próximas ao núcleo político do governo em movimentações financeiras consideradas suspeitas. Até o momento, porém, não existe condenação judicial contra Roberta, Lulinha ou outros citados na investigação.
O caso ganhou ainda mais repercussão após relatórios da PF indicarem que a empresária recebeu cerca de R$ 1,5 milhão em transferências atribuídas ao grupo ligado ao “Careca do INSS”. Em fases anteriores da Operação Sem Desconto, Roberta Luchsinger chegou a ser alvo de busca e apreensão. Os investigadores também analisam trocas de mensagens, viagens internacionais e possíveis relações empresariais que possam ajudar a reconstruir a dinâmica do esquema.
A defesa de Lulinha nega qualquer envolvimento em irregularidades e afirma que o empresário está à disposição para prestar esclarecimentos. Os advogados de Roberta sustentam que ela já forneceu informações por escrito às autoridades e que não houve prática de crime. A investigação, contudo, passou recentemente por mudança de comando dentro da própria Polícia Federal, deixando a divisão de crimes previdenciários para ficar sob responsabilidade de um setor voltado a casos com possível repercussão em autoridades com foro privilegiado. A alteração provocou críticas da oposição e ampliou o debate político em Brasília sobre a condução do inquérito.
Nos bastidores políticos, aliados do governo classificam o caso como uma tentativa de desgaste contra o entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto parlamentares de oposição defendem aprofundamento das investigações e cobram transparência total sobre as conexões reveladas até agora. A expectativa é que os próximos depoimentos tragam elementos capazes de esclarecer se as relações identificadas pela PF configuram apenas vínculos empresariais e pessoais ou se existiu efetiva participação em práticas ilegais ligadas às fraudes no sistema previdenciário.
O episódio reacende também o debate sobre a vulnerabilidade estrutural do INSS diante de organizações que atuam na captação indevida de recursos de aposentados e pensionistas. O escândalo já é tratado nos bastidores de Brasília como uma das investigações mais sensíveis do atual governo, principalmente pelo potencial de atingir figuras politicamente próximas ao Palácio do Planalto e provocar novos desdobramentos no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

