Créditos: Divulgação
10-05-2026 às 10h23
Joseani Adalemar Netto*
Nasci no interior de Minas Gerais, em uma cidade que hoje não chega a 50 mil habitantes. Nasci franzina, em berço humilde, de uma linhagem que a poucos importa. Mas nasci na mesma cidade de Alberto Santos Dumont e tenho o privilégio de visitá-lo sempre que quero e posso em sua casa natal: o Museu de Cabangu.
Desde pequena, gostava de ouvir histórias sobre ele, sua família, suas invenções de menino, suas criações quando adulto, e foi em Cabangu que, aos poucos, matei minha curiosidade de criança. Entretanto, ainda hoje revisito sua história, que, de uma certa maneira, também é minha. Somos conterrâneos e, mesmo que não fôssemos, sua história se confunde com a história de todo o mundo. Afinal de contas, ele encurtou as distâncias colocando no ar um aparelho pesado, improvável, assim como eram improváveis as engenhocas de Júlio Verne.
Em busca de mundos outros que me trouxessem o encanto das improbabilidades, conheci a poesia que aos poucos foi se revelando a mim, ajudando-me a desvendar improváveis lugares, sonhos, palavras e seus improváveis significados que não se contêm nas linhas em que se desenham, mas saltam para um voo que se consolida a partir da luta vã que se trava com elas.
Foi um mineiro franzino como eu, nascido no interior de Minas Gerais, que me fez perceber na simplicidade do cotidiano que nossas retinas veem para além do significante e do significado, inaugurando um sentimento de mundo muitas vezes petrificado em nossas gargantas e que precisa explodir, romper os asfaltos e florescer. Por isso digo que, em todos os cantos e recantos de nosso planeta, existem inventores e poetas. E por que não dizer poetas inventores? Homens e mulheres que, conhecendo sua Língua, transformam com sensibilidade, às vezes áspera, às vezes flor, nosso cotidiano inexato, essa vida besta de todos os dias.
Ainda nos meus tempos de faculdade, estudando literatura brasileira, mais precisamente o Modernismo, o professor nos apresentou Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira do Mato Dentro. Um universo de possibilidades se abriu diante dos meus olhos. Não que eu não tivesse lido outros poetas geniais, mas este era, sem dúvida, o meu despertar real para a Literatura. Dele tenho em minha memória muitos poemas, mas o que mais me intriga até hoje é o “Poema de Sete Faces”.
O “Poema de Sete Faces” é um clássico dentre tantos outros poemas construídos por Drummond. Em sete estrofes e vinte e nove versos, o poeta prenuncia sua eterna busca por um lugar no mundo, assim como todo homem, em uma procura incessante, tenta encontrar suas várias faces diante de si e dos outros.
As sete estrofes do poema de Carlos Drummond convidam a uma reflexão que leva aos aspectos mais profundos da vida humana. Não é acaso o número sete compondo seu conjunto de versos, não é também misticismo. Todavia, sua simbologia traz ao poema autenticidade, delineando as palavras de forma que em cada verso transbordem experiências, conhecimento linguístico, sabedoria, levando o leitor a perceber que em cada ser há um mundo infinito precisando ser revisitado, explorado, entendido e transmutado.
Minhas poucas e efêmeras reflexões sobre o “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade, pretendem buscar não só nas palavras ditas, mas também nas entrelinhas, escondidas por metáforas, metonímias e muita melodia, as faces do eu-lírico que se confundem com o poeta e que se expandem para além dele, resvalando no homem do século XXI, que ainda busca seu lugar, sua identidade e sua verdade.
Publicado em 1930, na obra “Alguma Poesia”, é o primeiro poema que desvela todos os outros e, em seu primeiro verso, já dá indícios sobre um tema comum em sua escrita: o incômodo de estar no mundo. E mostra que o eu-lírico, que pode ser interpretado como o próprio poeta, está predestinado, por um “anjo” nada convencional, a uma sina estranha, torta, “gauche”. De forma especial, os primeiros versos me tocam profundamente, como se eu me visse performada por esse “Carlos”, irônico, metafórico, anunciado ao mundo não pelo “Anjo esbelto” de Adélia Prado, mas pelo diabo que confunde, que atormenta, que traça caminhos sinuosos pelos quais andejamos sem certezas, de pés e de alma nus.
Na segunda estrofe, através da prosopopeia, em que “as casas espiam os homens”, há um olhar por trás das janelas que pode representar a solidão, que observa a busca ininterrupta, até mesmo frenética, pelo amor, pelas relações que, muitas vezes, se fazem superficiais, mas que deseja a infinitude das forças opostas que se complementam. Poderíamos pensar em uma projeção dos próprios sentimentos do eu-lírico Carlos, que traduz o nosso olhar para o exterior, distanciado de nosso íntimo, percebendo com mais clareza nossas fragilidades, nossas dores e aspirações. Um olhar tão afobado, tão desejoso, que nem mesmo o “azul” da tarde é capaz de apaziguá-lo.
Se, antes, o observador espiava através das janelas, agora, ele lança seus olhos para os usuários dos bondes elétricos, o meio de transporte mais usado no Rio de Janeiro, do final do século dezenove até a década de 1960. Uma situação cotidiana transformada em um evento por Drummond a partir de um olhar examinador. A metonímia existente em “O bonde passa cheio de pernas:/pernas brancas, pretas amarelas.”, traz à tona a mesma sensação de incômodo e solidão de Carlos por ser mais um em meio a uma multidão; porém, essa tensão deixa entrever mais do que se possa imaginar. As saias, mais curtas a partir do século XX, já consentiam vislumbrar os tornozelos femininos e, novamente, o conflito entre a razão e a emoção se faz: “Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.” Entretanto, a ironia se apresenta expondo a dualidade humana, quando os “…olhos/não perguntam nada”. Século XIX ou século XXI, a modernidade ainda nos impacta, ainda nos coloca diante dos valores aprendidos e dos valores que insistem em romper.
A quarta estrofe do “Poema de Sete Faces” deixa claro que o “homem atrás do bigode” não é apenas a voz do poema, o personagem que vive as experiências urbanas da modernidade, mas o próprio autor que se esconde “atrás dos óculos e do bigode”. Uma das características mais conhecidas de Drummond é justamente sua timidez, que se expressa em um comportamento contido, apesar de sua inteligência e sensibilidade. Seus versos expressam o trabalho perspicaz com as palavras ora contidas, ora desinibidas, mostrando mais uma vez o conflito da existência, do ser “esquerdo” em um mundo cujo fluxo parece igual para todos. Seu poema encontra-se na contramão da emotividade por si mesma, da dor de cotovelo ou de uma timidez meramente de aparências. As palavras são escolhidas com rigor a partir da sua inteligência, sem colocar à margem sua sensibilidade, uma luta, em muitos momentos vã, como ele mesmo afirma em “O Lutador”.
Para além da aparência de “sério, simples e forte”, confessa seu silêncio: “Quase não conversa./Tem poucos, raros amigos…”. Um movimento que, diferente das outras estrofes, em que a observação do exterior é mais evidente, se volta para dentro, em uma análise mais intimista, confirmada pela quinta estrofe, em que questiona a Deus o seu estar só na multidão. Há um sentimento não apenas de solidão, mas também de abandono (“Meu Deus, por que me abandonaste?”), revelando um sentimento de fraqueza e orfandade: “se sabias que eu não era Deus/se sabias que eu era fraco.” Dessa maneira, compartilha com todos os leitores o traço de humanidade inegável aos seres que, parecendo fortes, são frágeis diante de si mesmos e de seus semelhantes.
Sobre essa fragilidade humana diante de um volumoso mundo, Drummond se afasta de um olhar sobre a massa para um olhar mais exclusivo, qualificando-se como uma pequena parte, quase insignificante do universo, em que a poesia, a rima, não são o remédio para as controvérsias existenciais: “Mundo mundo vasto mundo,/se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima/não seria uma solução.”. E, por fim, declara que cada indivíduo carrega em si um mundo ainda maior que o próprio cosmo, cheio de infinitas possibilidades e improbabilidades, que eu, você e todo sujeito que expande sua consciência para além das aparências, num embate infinito entre o ser e o estar, o estar e o pertencer, buscamos para nos manter vivos e sãos. O coração de Carlos é maior que o mundo, por isso cabe nele a poesia: “Mundo mundo vasto mundo/mais vasto é meu coração.”

A sétima e derradeira estrofe desse poema icônico nos leva à última face de Carlos, que se mistura a tantas outras faces de tantas outras gentes, mostrando que somos todos, na verdade, um amálgama de sensações, dores e conflitos. Basta um momento de descuido e a “lua” e o “conhaque” “botam a gente comovido como o diabo”. Ironia e sarcasmo se combinam para, em um movimento de looping,retornarmos ao início, em que o “Anjo Torto” dita o nosso destino “torto” no mundo.
Diante desse poema com tom confessional, é possível conceber que um homem não se mede pelos dois lados de uma só moeda, mas pelas sete faces que se multiplicam infinitamente ao longo de toda uma existência.
E sim, Drummond, meu coração tem muitas perguntas, mas meus olhos não. Eles apenas constatam minha vulnerabilidade e confirmam minha existência também canhestra.
Para saber mais!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.
Sites consultados:
<https://www.riodejaneiroaqui.com/pt/bondes.html>
<https://modafeminina.biz/saias-moda/a-influencia-das-saias-na-moda-do-seculo-xix>
<http://www.carlosdrummond.com.br/>


