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08-05-2026 às 09h16
Thais Oliveira*
A recente valorização do real frente ao dólar tem pressionado a rentabilidade do produtor brasileiro, mesmo em um cenário de safra robusta e recuperação pontual das cotações internacionais. Segundo análise da Biond Agro, o câmbio passou a ter peso decisivo na formação de preços no país, reduzindo a receita em reais e ampliando o aperto nas margens.
Nos últimos meses, o dólar recuou de níveis acima de R$ 6,20 para cerca de R$ 5,00, movimento que impactou diretamente os preços das commodities exportáveis. Com isso, mesmo quando há reação na Bolsa de Chicago ou melhora nos prêmios, o efeito não tem sido suficiente para compensar a perda cambial na conversão para reais. “A pior armadilha do mercado é parecer alívio quando, na verdade, é aperto”, afirma Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro.
No mercado físico, a pressão aparece nos preços. A soja, que girava entre R$ 130 e R$ 133 por saca, recuou para perto de R$ 127 em pagamentos mais curtos. Em paralelo, o ritmo de comercialização indica necessidade de caixa: em um único dia, foram negociadas cerca de um milhão de toneladas, sendo aproximadamente 900 mil da safra 2025/26, mesmo em um ambiente de preços pressionados.
Isabella explica que o impacto do câmbio não é compensado pelo lado dos custos. Mesmo com alguma vantagem na compra de insumos, os custos com fertilizantes, diesel e logística permanecem elevados, limitando a melhora da relação de troca. O resultado é um cenário em que o produtor vende pior em reais e não consegue compensar essa perda.
A projeção para a safra 2026/27 reforça esse quadro. A relação de troca da soja com os insumos está no pior patamar da história, refletindo principalmente a queda da receita projetada em reais, e não apenas o nível de custos. Um exemplo em Sorriso (MT) ilustra essa dinâmica: com receita bruta estimada em R$ 7.067,07 por hectare e custo total de R$ 7.697,78, o resultado final é negativo em R$ 630,71 por hectare, mesmo com produtividade considerada elevada. “Nunca sobrou tão pouco no bolso do produtor como sobra agora quando se compara custo com preço futuro da soja.”, comenta a analista.
No milho, o comportamento segue a mesma lógica. Mesmo quando Chicago encontra suporte, o mercado doméstico pode seguir pressionado, refletindo a influência do câmbio e das condições internas de oferta na formação dos preços. Do lado macroeconômico, a valorização do real é explicada pelo diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, superior a 11 pontos percentuais, além da entrada de divisas com as exportações de soja, que superam 16 milhões de toneladas por mês neste período.
Apesar disso, Isabella afirma que o dólar mais baixo não deve ser interpretado como solução para o produtor, já que a melhora cambial, isoladamente, não recompõe a margem. “O dólar baixo, hoje, não pode ser lido como boa notícia automática para o agro. Dentro da porteira, ele virou mais um fator de compressão de margem”, conclui.

