Minas de lítio no Vale do Jequitinhonha - créditos: WD.com
07-05-2026 às 12h52
Por Soelson Araújo*
A aprovação pela Câmara dos Deputados do projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos representa um dos movimentos econômicos mais relevantes das últimas décadas para o Brasil. Em um cenário global marcado pela disputa por lítio, terras raras, níquel, grafite, cobalto e nióbio — elementos fundamentais para a indústria tecnológica e para a transição energética — o país começa finalmente a compreender que possui em seu subsolo uma riqueza comparável ao petróleo do século XX.
O novo marco legal estabelece incentivos para pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação mineral no território nacional, além de criar mecanismos de financiamento e estímulos tributários para projetos ligados ao setor mineral estratégico. É um avanço importante. O Brasil possui algumas das maiores reservas mundiais desses minerais, especialmente no Vale do Jequitinhonha, região que já desponta como uma das principais fronteiras globais do lítio, o chamado “ouro branco” da nova economia energética.
Entretanto, apesar de representar um passo positivo, o projeto ainda é insuficiente diante da dimensão histórica da oportunidade que se abre para o país — e principalmente para o Vale do Jequitinhonha.
O grande desafio brasileiro não é apenas extrair minério, mas transformar riqueza mineral em desenvolvimento humano, industrialização, tecnologia e empregos qualificados. Sem isso, o Brasil corre o risco de repetir o antigo modelo colonial: exportar matéria-prima barata enquanto importa produtos tecnológicos de alto valor agregado fabricados pelas grandes potências mundiais.
O Vale do Jequitinhonha simboliza esse dilema nacional. Durante décadas, a região conviveu com baixos índices de desenvolvimento, êxodo populacional, falta de industrialização e ausência de investimentos estruturantes. Agora, pela primeira vez em sua história, o Vale possui condições concretas de se transformar em um dos maiores polos industriais da nova economia verde do planeta.
Acompanhei a tramitação do projeto, li o texto constitucional aprovado, mas o que pude perceber, é que faltou coragem dos parlamentares para fazer o necessário. Mas demos o primeiro passo. Isso é o que importa! Acredito que um segundo passo deve ser dado quando os deputados tiverem mais compromisso com o povo e menos com o lóbi das meneradoras para ir além da mineração tradicional.
A verdadeira redenção econômica e social do Vale do Jequitinhonha exige a criação urgente de uma Zona Franca Mineral e Tecnológica, com incentivos fiscais, industriais e logísticos capazes de atrair indústrias de transformação, centros de pesquisa, universidades tecnológicas, fábricas de baterias, componentes eletrônicos, semicondutores, magnetos e equipamentos voltados à transição energética.
Não basta retirar o lítio do solo.
É preciso fabricar baterias no Vale.
Não basta extrair terras raras.
É preciso produzir tecnologia no Vale.
Não basta exportar grafite.
É preciso desenvolver a indústria de armazenamento energético em Pedra Azul, onde produz o grafite do Vale.
A criação de uma Zona Franca no Vale do Jequitinhonha permitiria transformar a região em um verdadeiro corredor nacional de inovação industrial, integrando mineração, tecnologia, ciência e produção de alto valor agregado. O modelo poderia seguir experiências internacionais bem-sucedidas de zonas industriais estratégicas voltadas à atração de investimentos globais e à geração acelerada de empregos qualificados.
Além da industrialização, uma Zona Franca garantiria condições para fixar empresas e profissionais especializados na região, reduzindo a dependência econômica histórica e interrompendo o ciclo secular de pobreza. O Vale deixaria de ser apenas fornecedor de minério bruto para se tornar produtor de conhecimento, tecnologia e riqueza industrial.
O impacto social seria profundo: geração de empregos qualificados, fortalecimento das universidades locais, aumento da arrecadação regional, expansão da infraestrutura, crescimento do comércio, modernização logística e valorização da mão de obra regional.
O Brasil precisa compreender que o futuro da economia mundial será definido pela capacidade de dominar cadeias produtivas tecnológicas. Quem controlar os minerais estratégicos e sua transformação industrial controlará parte decisiva da economia do século XXI.
Por isso, o Senado tem agora a responsabilidade histórica de aperfeiçoar o Marco Legal dos Minerais Estratégicos, incorporando mecanismos mais robustos de verticalização produtiva, exigências de transferência tecnológica e políticas regionais de industrialização.
Entre essas medidas, a criação de uma Zona Franca no Vale do Jequitinhonha precisa entrar definitivamente no centro do debate nacional.
O Vale não pode continuar apenas assistindo à retirada de suas riquezas enquanto permanece distante do desenvolvimento. A região possui potencial para se tornar um dos maiores polos tecnológicos e industriais do hemisfério sul.
Esta é uma oportunidade histórica.
*Soelson Araújo é empresário, jornalista, escritor, membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha e diretor presidente do Diário de Minas

