A pobreza, segundo Carlos Mota - créditos: Mensagem Canção Nova
06-05-2026 às 17h36
Por Carlos Mota Coelho
6 de maio de 1976- meio século atrás – me ingressei no Serviço Público Federal, por força de um concurso com 45 mil candidatos e em que fiquei entre os cem primeiros colocados.
Antes de me submeter às provas, eu não tinha ideia do quanto o Ginásio Minas Novas e o Colégio Diamantinense, onde estudei, eram bons, pois eu imaginava que aqueles milhares de concorrentes, sobretudo os belorizontinos, juizforanos e das demais grandes cidades mineiras iriam me deixar na lanterna, eu, um pobre coitado do Vale do Jequitinhonha, mas não foi o que aconteceu.
Mas em verdade, além de comemorar uma data para mim tão importante, isso me leva a constatar que é fenômeno que acontece não só no Brasil, mas também em todo o mundo: estudantes de cidades ou regiões pobres superam os das regiões ricas, como ocorre, por exemplo, no ENEM, em cuja última edição o Nordeste emplacou quase todos os dez primeiros lugares e o Sul nenhum.
E o que pode explicar isso? Considero que sendo o conhecimento uma das melhores e honestas formas de alguém subir na vida, sobretudo se não vem de berço remediado ou rico, não recebe polpudas heranças, não acha tesouro ou ganha em loterias, ESTUDAR É MELHOR DO QUE FURTAR OU ROUBAR e, por incrível que costuma aparentar, regiões pobres, como o Jequitinhonha de antigamente, furtos e roubos eram raros, pois a pessoa preferia se sucumbir pela fome do que se valer de tais métodos.
Além do mais, confortos demais tiram os jovens do foco dos estudos, como hoje vem acontecendo com as suítes domésticas privativas, com ar-condicionado, cama King size e a parafernália eletrônica, sobretudo de jogos, além de geladeiras repletas de comidas, mas raramente saudáveis.
Indianos, em contraposição aos norteamericanos, brilham nas principais universidades do planeta e ocupam os melhores cargos, principalmente na Engenharia.
Mas para terminar, aqui conto a passagem que se deu comigo e um colega deputado por São Paulo, de uma bilionária família judia. Ele, assim que soube que eu sou de Minas Novas, me revelou, para surpresa minha, que, ainda adolescente, foi mandado pelo SÁBIO e RICAÇO PAI para passar alguns dias em minha cidade, nos anos de 1960:
⁃ Filho, esta boa vida que você está levando aqui na Capital não te levará a nada. Tome aqui esses trocados e pegue um ônibus para Belo Horizonte e outro para Minas Novas! Lá, jamais revele a sua origem!
E ele me disse que voltou a São Paulo com sua cabeça inteiramente modificada:
⁃ Mota, Minas Novas foi a minha melhor Escola de Vida!
E a cidade jamais soube que aquele jovem loiro, alto, bom de bola e batendo papo com todo o mundo era ele!
Quando pobreza e riqueza se convergem:
Como, ao contrário do que pensam os terraplanistas, tudo no Universo é curvo, isso resulta em que as pontas de uma reta se encontrem em algum ponto do Infinito.
Na minha crônica de hoje, eu que fui pobre, mas hoje nem tanto – e graças aos estudos – ressaltei as vantagens da pobreza – não da crônica pobreza – mas SER POBRE O TEMPO TODO É RUIM, COMO TAMBÉM SER RICO A VIDA INTEIRA NÃO É BOM.
Qual seja, pobreza e riqueza permanentes também se encontram em algum lugar do Universo.
O homem, em seu estado natural, não consegue comida o tempo inteiro, e isso cria em nós mecanismos (como gorduras acumuladas) e que nos permitem ficar sem comer por um ou até alguns dias, mas nos ricos full time esse mecanismo se arrefece ou se perde, porém aumenta a obesidade corpórea, causada pela obesidade patrimonial ou financeira, mercê dos gatilhos da acumulação desnecessária, do egoísmo e do desprezo aos que nada ou pouco comem.
E de nada adianta pedir perdão a Deus, rezar pra pneus, malhar em academias ou alisar a bunda em de divã de psicanalista, pois basta um PIX para uma instituição séria de caridade, não um para o dízimo de um pastor picareta, quase sempre um pobre que, em nome de deus, ficou rico!
*Carlos Mota é Procurador federal aposentado, ex-deputado federal, escritor e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

