Internet e comunicação digital - créditos: Ana Marchesini
26-04-2026 às 15h05
Anna Marchesini*
Assinaram o papel. A internet agora tem babá. Oficial, com carimbo e diário oficial. Em nome da proteção, vão ler o que a gente escreve quando acha que ninguém está lendo.
A ironia é quase uma arte: pra garantir a nossa liberdade, decidiram vigiar a nossa frase. Pra defender a democracia, colocaram coleira no comentário. Disseram que é por segurança. Estranho. Toda vez que falam “é pra sua segurança”, é a gente que perde alguma coisa.
E quem vigia? Ah, isso é detalhe técnico. Um “serviço especializado”. Contratado. Pago. Porque a desconfiança oficial também tem custo, também tem planilha, também bate ponto. O Estado não suja as mãos. Ele só assina o cheque pra quem vai sujar.
Aí eu te pergunto, baixinho, pra não acionar o algoritmo: existe sigilo naquilo que o outro monitora?
Se alguém tem a chave do seu diário, ele ainda é seu?
Se sua conversa passa por uma sala antes de chegar no destino, ela ainda é conversa ou é depoimento?
São regras rígidas, você já leu? Não leu. Ninguém leu. Estão escritas em “linguagem técnica”, em anexo de portaria, em parágrafo terceiro do inciso X. Traduzindo: se você falar o que eles não gostam, mas do jeito que eles não definiram, na hora que eles não esperam, você vira “risco”. E risco, hoje, se remove com clique.
Pensa comigo:
Já imaginou escrever uma receita de bolo e alguém interpretar como código?
Já pensou desabafar sobre o preço da luz e virar “ataque às instituições”?
Já calculou quantas palavras você apaga antes de postar, com medo de quem você nem sabe que está lendo?
Isso tem nome antigo: autocensura. Só que agora ela vem com wi-fi. A gente não deixa de falar porque concorda. A gente deixa de falar porque cansa de explicar que não disse o que disseram que a gente disse.
Instrução prática pra sobreviver à babá digital:
Leia a regra. Ela tá lá, escondida, mas tá. Saber o que é proibido é o primeiro jeito de não ser pego por bobagem.
Desconfie do “é só por segurança”. Segurança demais vira jaula. E jaula com nome bonito ainda é jaula.
Não normalize. No dia que achar normal ter alguém lendo por cima do seu ombro, aí a gente perdeu. O incômodo é saúde. É ele que lembra que muro não é ponte.
Converse fora. Telefone ainda existe. Praça ainda existe. Olho no olho não tem log de acesso.
O mais debochado de tudo? Dizem que é pra combater mentira. E criam um sistema onde ninguém mais sabe o que pode ser verdade sem pedir autorização. Combatem a sombra acendendo um holofote tão forte que cega todo mundo.
Então anota no caderno, que esse não tem backup na nuvem:
Liberdade vigiada é só outro nome pra liberdade condicional.
E a gente não cometeu crime nenhum além de pensar alto.
Se vão monitorar tudo, que monitorem também isto:
A gente tá vendo. A gente tá entendendo. E a gente não nasceu ontem.
*Anna Marchesini é Educadora e palestrante

