Ilustração - Sérgio Vicente Editor de Cultura DM
26-04-2026 às 10h12
Isabel Travancas*
“O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.” (Drummond)
O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade escreveu muito ao longo dos seus 85 anos. Em sua estreia no jornalismo, assinou seu primeiro texto como Manoel Fernandes da Rocha. Talvez um pouco por vergonha e também por brincadeira. Geralmente, assinava com seu nome, mas também gostava de usar pseudônimos: Antonio Crispim, Belmiro Borba, José Maria, Gato Félix, Mickey, José Joaquim e X.C. F. eram alguns deles. Mas foi o seu nome verdadeiro, Carlos Drummond de Andrade, que o tornou conhecido.
Drummond nunca se afastou da imprensa e, por isso, pode ser definido como um jornalista. Ele mesmo afirmava: “Sou um jornalista porque a vida toda estive ligado a jornal. Fui redator-chefe do Diário de Minas, onde, com outros companheiros, fizemos a campanha modernista em Belo Horizonte e nos divertimos muito.”
O poeta itabirano acreditava que o jornal era uma boa porta de entrada para um futuro escritor. Foi exatamente assim com ele. No início da década de 1920, começou a publicar seus primeiros textos e a colaborar com o Diário de Minas. Ele tinha apenas 19 anos e começava sua carreira de jornalista e escritor. E, se ele não entrou em concursos literários, nunca saiu dos jornais. Eram contos, poemas, resenhas e crônicas. Estas últimas, impregnadas de realidade e juventude. Para a jornalista Cristiane Costa, há um sentimento de pertencimento do poeta pelo jornalismo. Ele dizia que a única coisa que fazia com prazer, além da literatura, era o jornalismo.
A quantidade de textos publicados por Drummond sempre me impressionou. Ele escreveu, intensamente, mais de 6000 textos para os jornais. Somente no “Correio da Manhã”, colaborou com 2422 crônicas e, no“Jornal do Brasil”, alcançou a marca de 2304 textos. Nos anos 1920, são 27 crônicas e 30 poemas. Já nos anos 1930, quando se mudou para o Rio de Janeiro (então capital do Brasil) e ganhou mais espaço em muitos periódicos de diversos estados, o número cresceu para 70 crônicas. Dentre esses periódicos, destacam-se Estado de Minas (BH); A Tribuna (BH); O Malho (RJ); Diretrizes (RJ); Folha de Minas (BH); Diário da Tarde (BH); Fon-Fon (RJ), Letras (Fortaleza), entre outros.
Crônica: um gênero literário?
Aurélio Buarque de Holanda dá dois sentidos para o termo crônica: o primeiro é “texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como tema fatos ou ideias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo, etc, ou simplesmente relativos à vida cotidiana.”
A produção jornalística do poeta mineiro se enquadra nessa definição e também se junta à visão de José Marques de Melo, que diz: “A crônica é um gênero jornalístico e constitui uma questão pacífica. Produto do jornal, porque dele depende para sua expressão pública, vinculada à atualidade, porque se nutre dos fatos do cotidiano, a crônica preenche as três condições essenciais de qualquer manifestação jornalística: atualidade, oportunidade e difusão coletiva.”
Assim, as crônicas do poeta se situam neste patamar. Ainda que muitas sejam datadas e outras revelem a juventude do poeta nessas duas décadas, seus textos possuem uma ambição maior do que apenas comunicar um acontecimento. Buscam permanência. Permanência essa expressa na própria atitude do escritor, que não apenas guardou de forma criteriosa e organizada (por ordem alfabética dos títulos dos periódicos e por ordem cronológica das publicações) tudo que escreveu na juventude, como também doou seu acervo para o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ), espaço de memória criado em 1972, e que contou, inclusive, com seu incentivo público. É o que se observa na crônica que publicou no “Jornal do Brasil”, em 4 de janeiro de 1973, na qual procurou estimular outras pessoas a colaborarem com as memórias literárias brasileiras: “Colecionador ou não colecionador, que tenha em casa um retrato, uma carta, um poema, um documento de escritor brasileiro digno do nome de escritor, e pode com ele enulentar [sic] o arquivo-museu menino, dirigido pelo espírito público de Plínio Doyle na Casa de Rui Barbosa: faça um beau geste, mande isso para São Clemente, 134, e terá oferecido a si mesmo o prêmio de uma satisfação generosa.”
Foi exatamente no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (AMLB) da Fundação Casa de Rui Babosa (RJ) que tive a oportunidade de organizar e analisar 1500 textos drummondianos, os quais consegui categorizar em quatro grandes temas: amor, literatura, memória e atualidade. Ao longo desse trabalho, percebi o quanto há um “Drummond jornalista” que fica escondido atrás do “Drummond poeta”. Esse duplo não me parece contraditório. Na concepção drummondiana, havia uma relação tão forte de complementaridade entre ambos que seria equivocado dizer que a sua experiência jornalística lhe parecesse algo menor ou mero “ganha-pão”. Arriscaria dizer que a sua obra poética está impregnada dessa experiência intensa de proximidade com a realidade.
Para finalizar, recorro ao pensamento de Alceu Amoroso Lima, que foi taxativo ao afirmar que “o Jornalismo é um gênero literário”. Para ele, não se deve considerar a literatura como estética pura ou como ficção, mas como arte da palavra. Certamente, destaca Lima, “mau Jornalismo não é literatura, como tampouco o é uma má poesia ou mau romance. (…) Há literatura que fica e literatura que passa. É uma qualidade independente da natureza do ser.” Portanto, de acordo com essa perspectiva, o jornalismo tem todos os elementos que lhe permitem entrar no campo da literatura, dependendo apenas da sua qualidade, e não da sua natureza.
Para saber mais!
TRAVANCAS, Isabel. Entrando no arquivo do Drummond e lendo suas crônicas na imprensa. In: TRAVANCAS, Isabel; ROUCHOU, Joëlle; HEYMANN, Luciana (orgs.). Arquivos Pessoais: reflexões multidisciplinares e experiências de pesquisa. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2013.


