Ilustração - créditos: IA-DM
29-03-2026 às 10h20
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho *
O cemitério parecia uma extensão natural da própria Universidade. As mesmas placas de granito austero, as mesmas linhas rígidas que lembravam os prédios do campus. Tudo ali tinha o ar disciplinado de uma instituição que pretendia durar mais que as pessoas.
O céu de abril — aquele que Josafá gostava de chamar de “majestoso mesmo quando fechado” — espalhava uma garoa fina. Não molhava de verdade, mas pousava sobre os ombros como uma culpa antiga.
Bolívar estava imóvel à cabeceira da cova.
Não chorava.
Seu rosto mantinha a mesma expressão que usava para presidir reuniões de colegiado: firme, administrativo, impermeável. Para ele, aquele enterro era a última cerimônia oficial. Estava ali para sepultar não apenas a esposa, mas o escândalo, a desordem e a vitalidade indomável que ela sempre representara.
Com Cláudia debaixo da terra, pensava talvez, a instituição voltaria ao silêncio.

À ordem.
À paz burocrática das coisas mortas.
A poucos metros dali, Marcos e eu estávamos ombro a ombro.
Foi naquele instante que a velha nota de rodapé do autor deixou de ser ironia e se tornou carne:
Amáramos a mesma mulher.
E diante da cova aberta, isso já não parecia um segredo — parecia um destino.
Naquele momento não existia Carlos, não existia Bolívar, não existia universidade.
Existia apenas o vazio que ela deixara.
Marcos foi o primeiro a desabar.
O homem que anos depois se tornaria um grande empresário, e que acabaria fugindo para as noites teatrais de Bangcoc e Hong Kong tentando apagar da memória o cheiro daquela terra úmida.
Ele chorava sem elegância.
Não como um amante traído.
Mas como um soldado que perde seu último posto de comando.
— A gente achou que estava construindo um sonho de escola, não foi? — murmurou, entre soluços, a voz presa entre os dentes.
Eu o abracei.
Foi um abraço desajeitado, pesado, de dois homens que compartilhavam segredos demais para serem apenas amigos — e orgulho demais para serem cúmplices.
E foi então que a Unidade apareceu.
Não como teoria.
Como dor.
Por um instante éramos um único corpo. Um único passado. Uma única ferida.
Era como se as décadas de 60 e 70 estivessem sendo enterradas ali conosco, dentro daquele caixão de mogno.
Olhei para o lado.
Josafá estava afastado.
As mãos nos bolsos do casaco. Os passos finalmente imóveis. O corpo inclinado ligeiramente para frente, como alguém que observa uma paisagem muito antiga.
Ele também não chorava.
O rosto de Josafá fora esculpido por dez anos de cárcere. A prisão já lhe ensinara o peso do silêncio, a disciplina da perda. Seu rosto carregava cicatrizes suficientes para suportar mais aquela ausência.
Para ele, talvez, Cláudia não estivesse morrendo ali.
Ela já havia sido arrancada de sua história muito antes.
No banco de trás daquele carro.
Quando ainda se chamava Maria Berenice.
Bolívar pegou um punhado de terra.
O gesto foi seco, preciso.
E então deixou a argila cair.
O som da terra batendo na madeira ecoou dentro da cova como um martelo final de conselho universitário.
Um veredito.
Marcos limpou o rosto com as mãos molhadas de chuva e barro.
Respirou fundo.
— Acabou — disse.
Depois olhou para mim.
— Agora a gente pode contar tudo.
Fez uma pausa curta, olhando para a cova.
— Porque agora ela não pertence mais a ninguém.
Eu não respondi.
Olhei para a terra aberta.
Depois para os prédios da Universidade ao longe, erguidos contra o céu cinza como monumentos a uma promessa antiga.
Foi ali que entendi algo que até então evitara admitir.
O amor que construíra tudo aquilo — os projetos, os discursos, as alianças, as traições — era um amor desesperado.
Um amor que já nascera sabendo do seu próprio fim.
Porque toda utopia, no fundo, conhece seu destino:
o silêncio.
O enterro de Cláudia foi o instante em que
a Unidade revelou sua forma mais brutal.
A perda do objeto comum.
Sem ela, as engrenagens paravam.
As máscaras de Bolívar, a amargura de Marcos, o silêncio de Josafá — tudo começava a ceder.
Diante da única verdade que nenhum deles podia administrar, seduzir ou reorganizar.
O fim.
*Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

