Idade da Razão - Capítulo 9 - créditos: IA DM
22-03-2026 às 10h19
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho *
Cláudia apareceu na minha porta sem aviso, tarde da noite. O ar anunciava chuva, o mesmo frescor elétrico daquele início de abril em que Josafá surgira na curva da avenida, trazendo de volta o passado. Havia algo circular naquele cheiro — como se o tempo insistisse em nos devolver ao ponto exato onde as fissuras começam.
Ela entrou sem pedir licença. Jogou a bolsa sobre a mesa que pertencera ao meu avô Juca — madeira antiga, resistente, testemunha involuntária de tantas confidências — e serviu-se do vinho que eu deixara aberto.
— O Bolívar sabe — eu disse, antes que o silêncio criasse conforto.
Cláudia levou a taça aos lábios e bebeu demoradamente, os olhos fechados. No colegiado, seu rosto era mármore; ali, sob a luz amarelada da casa, surgiam as linhas finas que o tempo e a clandestinidade haviam desenhado. A máscara acadêmica escorregava.
— Ele não sabe, Marcos. Ele decide não saber — corrigiu, com um cansaço que nem o corpo de Carlos conseguia mais dissolver. — O saber do Bolívar é burocrático. Ele arquiva a minha infidelidade na mesma pasta onde guarda as atas do conselho. É assim que ele me possui: transformando o meu desejo em irrelevância.
A frase ficou suspensa entre nós.
Ela caminhou até a janela. Do alto do morro, a Universidade brilhava sob os postes, silenciosa e imponente. Parecia um vigia — ou um túmulo iluminado.
— Você acha que eu sou louca, não é? O sexo, o Carlos, os motéis… — virou-se para mim, e por um instante vi Maria Berenice, a jovem trêmula no banco de trás do carro de Josafá, tentando recompor o próprio nome. — Mas é a única coisa que ainda é minha. A Universidade é dele. A política é de vocês, os heróis da resistência. Mas o meu corpo, Marcos… o meu corpo só é meu quando eu o entrego a quem eu quero, na hora que eu quero.
Havia raiva, mas havia súplica também.
Aproximei-me devagar.
— E o amor? — perguntei. — Falamos tanto desse amor que constrói uma universidade. Onde ele está agora?
Cláudia riu. Não era gargalhada; era um som seco, quase áspero.
— O amor é a própria construção. É o esforço de não virar estátua. — Aproximou-se de mim, tão perto que senti o perfume misturado ao vinho. — Eu trepo com o Carlos porque ele me lembra que estou viva. Que ainda sinto. A mesma carne que eles tentaram rasgar continua inteira. Cada orgasmo é uma resposta ao choque elétrico. Você entende? Eu não estou traindo o Bolívar. Estou traindo a morte.

A palavra morte não soou dramática. Soou íntima.
Ela tocou meu rosto com a mão fria. O gesto não era convite nem despedida — era reconhecimento. Seus dedos desceram pelo meu pescoço com uma lentidão estudada, como se testassem a temperatura da minha memória.
— Josafá caminha devagar porque tem medo de quebrar — murmurou. — Eu caminho rápido porque tenho medo de parar. Se eu parar, eu lembro. E se eu lembro, eu volto para a cela.
Havia ali mais do que sensualidade. Havia vertigem.
Por um segundo, senti que o desejo poderia nos engolir também — não como aventura, mas como continuação inevitável daquela cadeia de corpos que orbitavam em torno dela. A tensão era densa, quase palpável. Mas o que nos mantinha imóveis não era moral; era consciência. Sabíamos demais sobre as ruínas que carregávamos.
— No fundo — continuou ela, afastando-se um passo — somos trapos tentando recompor uma bandeira que ninguém mais quer carregar.
A chuva começou a bater no telhado, primeiro tímida, depois insistente. O som preenchia os intervalos das palavras.
Naquela noite compreendi que a Unidade nunca foi harmonia. Era fratura compartilhada. A Universidade, com seus conselhos e discursos, era apenas a face visível de um pacto mais profundo: sobreviver juntos ao fim do mundo que nos formou.
O amor — esse que dizíamos construtor — era cimento precário. Mantinha as ruínas de pé, mas não as tornava novas. E talvez Cláudia soubesse disso melhor que todos nós. Por isso corria. Por isso provocava. Por isso incendiava.
Quando ela se dirigiu à porta, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, virou-se:
— Eles pensam que o confronto acabou. Que agora é só administrar. — Seus olhos brilharam com algo que não era medo. — Mas a guerra nunca foi só contra o Estado, Marcos. É contra a paralisia.
Ela saiu antes que eu respondesse.
Fiquei olhando as luzes da Universidade sob a chuva, imaginando quantos de nós ainda resistiríamos ao próximo embate — não armado, não épico, mas íntimo.
Porque o verdadeiro confronto talvez estivesse apenas começando.
*Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

