Javier Milei, presidente da Argentina e Donald Trump presidente do EUA - créditos: divulgação
21-03-2026 às 12h010
Samuel Arruda*
A Argentina, sob a administração de Javier Milei, consolidou uma guinada radical na sua política externa entre 2025 e 2026, abandonando a dependência histórica das relações comerciais com o Brasil e o Mercosul em favor de uma aliança estratégica profunda com os Estados Unidos.
A assinatura de um amplo acordo de comércio e investimentos com Washington em novembro de 2025, focado em minerais críticos e facilitação de fluxo de bens, não foi apenas um passo econômico, mas uma decisão política que analistas apontam três pilares principais para essa mudança:
Ideologia, necessidade econômica urgente e desconfiança na agilidade do Mercosul.
1. Afinidade Ideológica e “Química” com Donald Trump:
O fator pessoal desempenhou um papel central. Javier Milei, autodeclarado libertário, alinhou-se ideologicamente à administração de Donald Trump nos EUA, criando uma aliança que substituiu o pragmatismo tradicional diplomático por afinidade política. Enquanto a relação entre Milei e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, permaneceu fria e distante, marcada por trocas de farpas públicas, o governo argentino buscou ativamente a “fórmula Trump” de crescimento:
2. A “Tábua de Salvação” Econômica:
Com a economia argentina enfrentando inflação, necessidade de reservas cambiais e a promessa de dolarização, o governo Milei viu nos EUA um parceiro mais atraente que o Brasil. Washington ofereceu suporte financeiro e investimentos, incluindo acordos de estabilização cambial, cruciais para a sobrevivência do modelo Milei.
A Argentina passou a priorizar a exportação de recursos naturais e carne para os EUA com tarifas reduzidas, buscando consolidar o país como um “hub” de commodities para o mercado americano.
3. Crítica ao Mercosul e Preferência por Livre Comércio:
Milei criticou abertamente o Mercosul, descrevendo-o como um bloco baseado mais em ideologia do que em eficiência de mercado. O governo argentino argumentou que o bloco regional, liderado pelo Brasil, é lento e burocrático, limitando a capacidade da Argentina de firmar acordos bilaterais rápidos com potências mundiais.
“A Argentina não tem tempo a perder e precisa consolidar seu crescimento”, justificou o governo argentino ao assinar acordos que desafiam a Tarifa Externa Comum (TEC) do bloco, colocando em risco a integração produtiva, especialmente no setor automobilístico, com o Brasil.
A mudança de postura de Buenos Aires gerou forte preocupação em Brasília e na indústria brasileira. Com a priorização dos EUA, produtos brasileiros — como veículos e eletrodomésticos — podem perder espaço na Argentina para produtos americanos com isenção tarifária.
O Brasil, através de fontes do governo em fevereiro de 2026, indicou estar analisando o acordo argentino por potenciais violações às regras comerciais do Mercosul, sinalizando uma possível crise institucional no bloco.
Ao se unir aos EUA, a Argentina buscou um parceiro de maior peso financeiro, apostando que o alinhamento ideológico com Trump trará o desenvolvimento que a integração regional não garantiu. Para o Brasil, representa um desafio à sua liderança no continente e a necessidade de repensar as estratégias de vizinhança.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

