Cantar, e cantar! ilunstração: Pngtree cartoon
15-03-2026 às 13h33
Tadeu Martins*
Geraldo Pereira, cantador de Itaobim, tem uma das vozes mais bonitas que conheço. Sou suspeito para falar assim, pois também sou de Itaobim e, além, disto, sou acusado sempre de supervalorizar os amigos. Mas tenho o aval de grandes nomes da MPB para fazer tal afirmação. Milton Nascimento, Fernando Brant e Beto Guedes, quando o conheceram, falaram a mesma coisa.
Se Geraldo, quando abre a boca para cantar, despeja a sonoridade de mil cascatas, quando se aproxima de água, fica de boca fechada. Mudo de medo.
Criado às margens do Rio Jequitinhonha, Geraldo é dos poucos que não aprenderam a nadar. Não foi falta de engolir uma piaba viva, isto ele fez. Foi mesmo falta de liberdade para ir com a molecada para a beira do rio. O pai era muito rigoroso, não levava nem deixava ir sozinho. Era uma ou outra fugida de vez em quando, mas não nadava. Se chegasse em casa molhado, era surra na certa.
Mas até aí não tinha motivo para ter medo de água. O medo veio depois de adulto.
Um belo dia, Geraldo Pereira resolver criar coragem e dar uns bons mergulhos, mas a correnteza do Jequitinhonha o arrastou. Hoje, infelizmente, as águas não tem força e a beleza de outrora, as mineradoras estão assassinando o rio. A correnteza arrastou Geraldo, que se debatia como um rato na boca de cobra. Afundou uma vez, Socorro! Mais outra vez, a voz não saia, e mais uma. O povo na praia percebeu o afogamento e dois nadadores, Xodó e Diozon, pularam para salvar o rapaz. Tiraram-no do rio desfalecido, com a barriga enorme de tanta água que bebeu.
Arrastaram-no para a beira do rio, deixaram-no com metade do corpo ainda dentro da água e começaram a fazer massagem para recuperá-lo. Xodó apertava a barriga de Geraldo, e Diozon erguia os seus braços. Cada vez que isso acontecia, Geraldo vomitava muita água.
Aperto na barriga, braços levantados, mais água vomitada. Isto foi repetido várias vezes.
Percebendo que Geraldo já estava fora de perigo, Sarué, o goleiro da seleção de futebol de Itaobim, resolveu quebrar o clima de tensão e gritou para os massagistas: “Eu não tenho nada com isso não, mas cês tira o traseiro dele de dentro d’água, senão cês vão secar o rio Jequitinhonha”.
*Tadeu Martins é poeta, escritor, promotor cultural, presidente da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha
Livro “Casos Populares” – 1992.

