13-03-2026 às 13h07
Sérgio Augusto Vicente*
Comprada, em julho de 1910, pelos imigrantes portugueses Patrocínia de Jesus e Serafim Cardoso, a casa em destaque na foto é a sede do sítio Vargem Alegre, mais conhecido como Buraco Fundo. O casal aportara em terras brasileiras por volta de 1893, na recém-implantada e conturbada República, após um percurso de navio literalmente inverso ao do “Alagoas”, no qual D. Pedro II e sua família, em 1889, viajaram no exílio para a Europa.
Camponeses e pobres, ambos deixavam Trás-os-Montes, norte de Portugal, com “uma mão na frente e outra atrás”, a procura de trabalho em lavoura de café. Depois de quase vinte anos de labuta pesada, compraram o tão sonhado pedaço de chão onde puderam garantir o sustento de sucessivas gerações. Traziam no colo Manoel, o primeiro de uma prole que se formaria ao longo dos próximos anos. Uma prole nem pequena nem grande para os padrões da época. Mas suficiente para ajudar nos afazeres domésticos e na lida da roça.
No relógio decorativo desenhado nos fundos da casa, o número 1902 sinalizava para o ano de construção daquela rústica edificação há pouco comprada. Mariana, uma das filhas do casal, assim como o novo lar, nascera no mesmo ano. O destino dera à luz, juntas, a menina e o local que lhe serviria de morada até os últimos dias de sua vida.
Assoalhada, com duas varandas, janelas com vidraças, seis cômodos e um pequeno porão, a casa em estilo colonial não possuía banheiro, energia elétrica, água encanada, nem corredores. Portas ligavam um cômodo a outro, tirando a individualidade e a privacidade dos moradores. Mas tudo normal… Privacidade para que, em uma sociedade senhorial e patriarcal?
Engana-se, porém, quem acha que a autoridade masculina prevalecesse naquele pedaço de terra. Em 1925, Patrocínia enviuvou. As filhas, em sua maioria, também tiveram o mesmo destino. Mariana se tornou viúva muito jovem, no primeiro ano de casamento. Aurora se casa, mora com o marido Antenor na fazenda Vale Formoso, mas também perde o marido, assim como Glória, sua filha, que se vê viúva ainda em tenra idade. Maria é abandonada pelo marido, apelidado de Caboclo, perdido no mundo com suas maluquices. Palmira não se casou. E Joaquina, fugindo da má sorte das irmãs, mantém-se muito tempo ao lado do marido e dos filhos. A única que constituiu um casamento longevo e estável.
Em 1950, a matriarca portuguesa, Patrocínia, falece. Mariana e Palmira lutam com unhas e dentes para manter o legado dos pais, impedindo que o sítio se dividisse em pequenas porções da herança e passasse às mãos de terceiros. Comprando a parte dos irmãos e irmãs na partilha, ambas – respectivamente viúva e solteira – batalhavam no cabo de enxada e no exercício do ofício de vendedoras ambulantes de ovos, leites, doces e hortaliças. Para lhes ajudar nos afazeres domésticos, pediram à Glória, sua sobrinha, a companhia da menina Nair, que, aos sete/oito anos de idade, deixava o lar materno para assumir os compromissos para os quais fora designada.
Apartada do convívio diário com a mãe viúva, Glória, Nair cresceria cuidando das tias com enorme carinho e zelo. Enquanto crescia, via-as envelhecer, enxergando em seus rostos as rugas de sol e preocupação e, em suas mãos, os calos do cabo da enxada.
Além das tias, cuidou da prima, Joaquina, salva dos maus-tratos no manicômio Colônia, de Barbacena. Como reconhecimento pelo cuidado que lhes devotou, Nair herdou o sítio por meio de testamento no qual ambas lhe manifestaram palavras de gratidão e afeto. Casando-se em 1967 com Antônio Vicente, seu primo, Nair deu à luz duas meninas e quatro meninos, exercendo papel extremamente ativo em suas formações e na administração do lar e da propriedade. Longe de ser submissa ao marido, atuava junto dele na luta pela sobrevivência nas terras que herdara das tias-avós.
Preocupados em garantir estudo para os filhos, compraram um apartamento em Juiz de Fora, livrando-os da constrangedora experiência de morar de favor na casa dos outros. E, assim, deram condições básicas a quem desejou estudar e trabalhar na cidade. Antônio Carlos, o filho do meio, após uma breve experiência como trabalhador da fábrica de tecidos Ferreira Guimarães, optou por continuar morando na roça e administrar esse legado. Na busca pela sobrevivência, além de criar algumas cabeças de gado e tirar leite, tornou-se pequeno produtor de queijos, doces e cachaça, mantendo a inclinação das tias-bisavós, Mariana e Palmira, para o comércio. Com a finalidade de lhes render homenagem, batizou a cachaça com o nome de Mariana e o queijo com o nome de Palmira. Tudo isso sob o incentivo e a parceria de D. Nair, o principal elo da corrente que conecta a história dos filhos aos antepassados.
Educados para lavar, passar e cozinhar, todos os filhos foram ensinados a viver a sua autonomia, sem a tradicional distinção entre “afazeres de mulher” e “afazeres de homens”. Não vou dizer que estivemos totalmente isentos da cultura do machismo. Não é para tanto… Porém, atribuo à tradição de mulheres fortes e obstinadas na família, impelidas, pelas circunstâncias, a ocupar papéis não muito convencionais para o sexo feminino, a causa de uma formação na qual eu e meus irmãos não fomos enquadrados nos moldes de um machismo estrutural tão forte e arraigado na sociedade brasileira.
Depois de muitos anos, me dei conta de que, historicamente, em minha família, as mulheres predominam como provedoras e exemplos de luta e autonomia. Foram elas que, principalmente, mantiveram o legado das tão sonhadas terras de nossos ancestrais. Não obstante tudo isso, pergunto-me se essas mulheres camponesas recebem o destaque que merecem. Em um contexto em que muito se avança nas discussões de gênero, cor e raça, que lugar é reservado a essas mulheres na história de nosso país? Precisamos, urgentemente, tirá-las dessa invisibilidade cruel e inseri-las nas tão propaladas narrativas plurais da atualidade…
* Sérgio Augusto Vicente é editor de cultura do Diário de Minas. É historiador da Fundação Museu Mariano Procópio, curador e escritor, com graduação, mestrado e doutorado em História pela UFJF.

