Desastres com muitas mortes devido aos fortes temporais em Juiz de Fora - créditos: jornal Mídiamax
07-03-2026 às 10h11
Sérgio Augusto Vicente*
Não há cidadão ou cidadã que se atreva a receber o gentílico de juiz-forano sem antes ter recebido como ritual de passagem um xingamento dela nas ruas centrais de Juiz e Fora. Posso começar dizendo por mim. Adolescente ainda, nas inúmeras vezes em que esperava pelo ônibus na Praça da Estação, ela coloria o espaço, andando para lá e pra cá com a caixa de buchinhas nas mãos, com a sua voz insistente de brasileira que não desiste nunca, implorando: “compra um meu”. Está certo que, sendo as mulheres e as adolescentes seu público-alvo, nunca fui xingado por ela, exceto no fatídico dia em que, literalmente, batemos de frente um com o outro na esquina da galeria da livraria Flamingo com a Avenida Rio Branco. Digo “bati de frente”, pois foi uma colisão frontal daquelas, seguida de um “puta que pariu” bem alto, ao que a minha vergonha de adolescente reagiu cavando um buraco bem fundo no meio da rua.
O fato é que se, no início, seus xingamentos despertavam ódio e ira de muitas pessoas, com o tempo, eles foram sendo adocicados pela folclorização da emissora. Mais do que uma vendedora ambulante, ela se tornou uma personagem que conseguiu permear o imaginário e o cotidiano das ruas.
No início do século passado, na Belle Époque carioca, o famoso cronista João do Rio, em seu livro “Alma Encantadora das Ruas”, dizia que andar pelas ruas de uma cidade é uma arte. Uma arte que envolve captar tudo o que personifica os espaços urbanos, dotando-os de vida transbordante de sentidos, símbolos e imaginário. A saudosa historiadora Sandra Pesavento, seguindo por essa seara, também falava de “cidades visíveis, cidades sensíveis e cidades imaginárias”. Diante dessa constatação, quem duvida que a “Tia das Buchinhas”, como tantas figuras que já faleceram, com a sua rispidez folclórica, imprimiu “alma” em nossas ruas centrais?
Se, de um lado, as ruas são batizadas pelo discurso oficial das elites que ostentam frios bustos de bronzes nas praças, quem dá o verdadeiro tempero ao nosso cotidiano são os populares, muitos deles, por sinal, ligados ao comércio de rua.
Seus xingamentos e seus bordões (“compra um meu”) assumiram a forma de licença poética. De tal forma que “rabo” e outras palavras de “baixo corporal” passaram a ocupar lugares mais elevados: as memórias lúdicas/pitorescas e as narrativas prosaicas que alegram as rodas de conversa.
É certo que, por trás da máscara do palhaço, poucos enxergam as lágrimas oriundas do sofrimento psíquico ou de qualquer outra (des)ordem. Sabemos do quão difícil – ou até mesmo impossível – é separar, com bordas bem definidas, a mulher da personagem. Não é possível dizer até que ponto a “Tia da Buchinha” performava. Mas o fato é que, por trás desse estereótipo, existia uma mulher com as suas fragilidades, inquietações e sofrimentos.
Com o tempo, fiquei tentado a conhecer um pouco mais de seu universo. Fui percebendo, através do seu envelhecimento, que o tempo para mim também não era estático. E, na medida em que fui enxergando a minha maturidade refletida em suas rugas, fui sentindo o desejo de eternizar na memória a sua imagem. Em 2020, ao sair do casamento de um primo na Igreja Metodista do Parque Halfeld, encontrei-a sentada na soleira de uma das portas da Avenida Rio Branco. Já demonstrava um semblante abatido e cansado. Sem que ela me pedisse, comprei um pacote de buchinhas. Não estava interessado em buchinhas, mas em tirar uma foto ao seu lado, ao que ela recusou com rispidez, dizendo que não gostava de ser fotografada. Com a mercadoria na mão, mas sem a almejada foto, despedimo-nos. Antes disso, porém, me pediu desculpas.
De lá pra cá, faz seis anos. Poucos meses atrás, espreitei-a no ponto de ônibus. Ela saboreava um picolé. Não mais carregava nas mãos as inseparáveis buchinhas de cabelo. Talvez tivesse se aposentado das ruas, pensei. Foi essa a última imagem dela fotografada em minha memória.
Não podia imaginar que, naquele momento, ela podecia de um mal: o câncer lhe corroía o pulmão. Logo ele, que lhe dava todo o fôlego necessário para circular incansavelmente pelas ruas e vociferar suas toleráveis insubordinações.
Hoje, aos 74 anos, dona Marinete (é como ela se chama) se despede. Seu corpo será sepultado no Cemitério Municipal. Nas ruas de Juiz de Fora, porém, ainda ecoa a voz da “Tia da Buchinha” (como será imortalizada). “Você compra um meu?”
*Sérgio Augusto Vicente é editor de cultura do Diário de Minas. É historiador da Fundação Museu Mariano Procópio, curador e escritor, com graduação, mestrado e doutorado em História pela UFJF.

