Donald Trump e Chng Ping - créditos: euronews.com
03-03-2026 às 12h10
Rogério Reis Devisate
Na água, o jacaré só mostra os olhos e a ponta do nariz. É uma impressionante adaptação para o sucesso nas caçadas. Quem diria que, por trás daqueles olhinhos vulneráveis e das narinas silenciosas, há um animal imenso, forte e poderoso?
A lição do jacaré deve nos ser útil para a vida. Nem sempre conseguimos perceber o perigo real e imediato, pois costumamos nos distrair com o óbvio e não enxergar o que está acontecendo.
Certo ou errado, com métodos adequados ou não, Trump tenta evitar que a economia do seu país venha a erodir diante da potência chinesa. Tucídides, o grande general da Antiguidade, já ensinava a respeito, ao escrever sobre a Guerra de Peloponeso e advertir sobre a necessidade de renovação de forças pelo império que se sinta ameaçado por outro, insurgente.
Trump abalou o mundo com as suas tarifas elevadas e fez com que grande parte caminhasse na corda bamba, ora negociando, ora resistindo, ora sucumbindo. Mostrou, a seu modo, força e influência.
Não foi capaz, no entanto, de abalar a curva ascendente do capitalismo de Estado levado a cabo pelo comunismo chinês, historicamente com desrespeito a patentes, precárias condições de trabalho, subsídios e outros mecanismos que, somados, criaram um ambiente com certa artificialidade quando cotejado com os mercados produtivos de outros países, que respeitam acordos sindicais, ambientais e de não poluição.
Das tarifas impostas, os EUA passaram ao afastamento do Maduro, na Venezuela, país que chegou a vender para a China cerca de 80% da sua produção petrolífera. Ao fazer isso, os EUA se aproximaram do controle dessa linha de exportação – embora tenham anunciado o respeito aos contratos firmados. Observemos, contudo e com atenção, que os EUA já anunciaram que a produção local estava muito abaixo da sua capacidade, inclusive por conta dos obsoletos equipamentos, sendo natural que venham a investir para ampliar a produção, o que lhes permitiria manter o respeito aos contratos e, ao mesmo tempo, ter um excedente de produção que poderá merecer outra destinação.
Agora, ao mexer com o Irã, os EUA interferem no Estreito de Ormuz, região pela qual passam 20% do petróleo bruto mundial! Ora, a China importa cerca de 10 milhões de barris de petróleo, por dia e metade desse volume sai do Golfo Pérsico e… transita pelo Estreito de Ormuz!
Além disso, 80% do petróleo do Irã vai (ia) para a China…
Abstraindo aspectos outros desta celeuma, não por terem importância menor, mas pelo limitado espaço deste artigo, é crivel que Trump atirou no Irã para acertar a China.
O impacto é – e será – imenso, pois o petróleo está na base de várias cadeias produtivas, como as de fertilizantes, plásticos, pneus e tintas. Pensando bem, muito do que a China exporta depende desse contexto e, por isso, o impacto não atingirá apenas a economia chinesa, mas, também, a regional e global, visto que ainda está valendo a advertência feita pelo Lee Kwan Yew, o influente Primeiro-Ministro de Singapura (de 1959 a 1990), na obra publicada em 2013, intitulada The Grand Master’s Insights on China, the United States and the World, quando (em livre tradução) disse que o desequilíbrio mundial causado pela China é tão grande que o mundo terá que encontrar um novo ponto de equilíbrio. É neste rumo que o Trump está agindo, lutando por reequilíbrio, para tentar salvar a economia norte-americana e a influência do seu país no mundo Ocidental.
A propósito, embora se fale em novas fontes de energia e em alternativas à indústria do petróleo, é certo que a matriz petrolífera ainda é muito forte e dominante, sendo o mundo todo dela ainda dependente. Há livros que revelam muito sobre o que estamos vivendo, envolvendo verdadeira desordem mundial na geopolítica, além de profundos estudos sobre o petróleo e os seus derivados, demonstrando a sua força e influência na configuração do mundo, no Século XX, dentre os quais destacam-se duas volumosas obras: O Petróleo, de Daniel Yergin, e A conquista da Amazônia: Nelson Rockfeller e o evangelismo na idade do petróleo, de Gerard Colby e Charlotte Dennett.
Sob outro ponto de vista, não podemos desconsiderar que são finitos os recursos minerais e que a demanda global por crescimento exige o aumento do consumo. Assim, agindo como age, Trump não só garante aos EUA o espaço para crescimento como freia a ânsia de prosperidade do seu maior rival na economia global, a China, sendo crível que estamos mesmo vivenciando uma época em que a queda de braço entre os dois países já saiu duma novel Guerra Fria rejuvenescida. No fundo, lutam para impedir que “o vencedor” leve consigo toda a riqueza mineral do mundo e o que isso corresponde para o desenvolvimento industrial e comercial de cada país e dos seus aliados e povos.
A propósito, voltando especificamente aos conflitos em torno do Irã, é importante registrar que o preço do gás natural já aumentou 40% na Europa, o que causará forte impacto na economia européia – que já não caminha com pés firmes. Noutro aspecto, o preço dos seguros marítimos também disparou para os fretes na região de Ormuz, com reflexo no preço do transporte e encarecimento dos produtos. Como os impactos nos preços são repassados e se irradiam pelas cadeias econômicas, o cenário que se descortina é incerto e preocupante.
Uma última consideração deve ser trazida, pois a França pretende aumentar o número das suas ogivas nucleares, para melhorar a sua capacidade de defesa. Isso é apenas um exemplo da corrida armamentista em curso, fator que deve nos preocupar se essas questões geopolíticas e de guerra se irradiarem por nosso continente e país, já que os nossos armamentos estão muito aquém das capacidades militares dos grandes atores globais, uma vez que não possuímos sequer um porta-aviões, míssil intercontinental ou ogiva nuclear, além de tecnologia e armamentos de ponta. Parece que, nas últimas décadas, contrariamos o ditado que diz que devemos nos preparar para a guerra, se queremos paz.
Aliás, na hipótese de ampliação do conflito e da sua irradiação para a nossa região, devemos considerar que eventuais inimigos encontrariam, também, a nossa população desarmada, como fruto do Estatuto do Desarmamento. Nesta linha, não teríamos sequer guerrilheiros como aqueles que resistiram contra os Nazistas nas regiões ocupadas da França, Itália e Iugoslávia. Aliás, a respeito, o mundo inteiro conhece a canção Bella Ciao, hino que os partisans italianos cantavam contra o nazismo e que, recentemente, ganhou popularidade na série La Casa de Papel.
Tudo a respeito desses novos eventos é extremamente delicado, pois o mundo está se movimentando e as situações consolidadas começam a oscilar, pela modificação dos cenários mais estáveis que tinhamos nos últimos anos. Que tudo caminhe para o melhor desfecho.
*Rogério Reis Devisate é Advogado/RJ. Membro da Academia Brasileira de Letras Agrárias, da União Brasileira de Escritores e da Academia Fluminense de Letras. Presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários da UBAU. Membro da Comissão de Direito Agrário da OAB/RJ. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ.

