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25-02-2026 às 09h25
Marcelo Barros*
A decisão de desenvolver um submarino de propulsão nuclear representa, para qualquer nação, um salto civilizacional no domínio da tecnologia de defesa. No caso brasileiro, o Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA), o Submarino “Álvaro Alberto”, simboliza não apenas um projeto militar, mas um empreendimento estratégico de Estado, que combina soberania, inovação industrial e visão de longo prazo. Inserido no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e do Programa Nuclear da Marinha (PNM), o SNCA materializa décadas de investimento em ciência, engenharia e capacitação humana.
O Brasil ingressa, assim, em um seleto grupo de países capazes de dominar o ciclo completo de tecnologias críticas associadas à propulsão nuclear naval, um feito que exige persistência institucional, maturidade tecnológica e robustez industrial.
PROSUB e PNM: a arquitetura estratégica do poder submarino
O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e o Programa Nuclear da Marinha (PNM) constituem os dois pilares estruturantes do esforço brasileiro. Enquanto o PROSUB concentra-se na construção de submarinos convencionais e na infraestrutura industrial associada, o PNM é responsável pelo domínio do ciclo do combustível nuclear e pelo desenvolvimento do reator naval compacto.
Essa divisão funcional permitiu ao Brasil mitigar riscos tecnológicos e avançar de forma incremental. O PROSUB viabilizou a criação de um complexo industrial naval moderno em Itaguaí (RJ), incluindo estaleiro, base naval e cadeia de fornecedores nacionais. Paralelamente, o PNM, cuja origem remonta à década de 1970, consolidou competências sensíveis em:
- enriquecimento de urânio por ultracentrifugação;
- engenharia de reatores compactos;
- metalurgia nuclear;
- sistemas de segurança nuclear embarcada.
O resultado é um ecossistema tecnológico que ultrapassa o setor de defesa e irradia efeitos para a indústria civil, a pesquisa científica e a formação de recursos humanos altamente qualificados.
O SNCA brasileiro: características e concepção operacional

O futuro SNCA Álvaro Alberto foi concebido como um submarino de ataque (SSN) com armamento convencional. Diferentemente dos submarinos estratégicos lançadores de mísseis balísticos (SSBN), sua vocação principal está na negação do uso do mar, proteção de linhas de comunicação marítima e defesa da chamada Amazônia Azul.
Entre as características esperadas (com base em informações públicas) destacam-se:
- propulsão nuclear nacional;
- elevada autonomia submersa;
- alta velocidade sustentada;
- baixo nível de ruído irradiado;
- emprego de torpedos pesados e mísseis antinavio;
- integração a redes de comando e controle.
A opção por armamento convencional é coerente com a postura estratégica brasileira, que privilegia a dissuasão defensiva e o emprego proporcional da força.
O desafio tecnológico: dominar o reator naval

O verdadeiro núcleo de complexidade do SNCA reside no reator nuclear naval compacto, cujo desenvolvimento é conduzido pela Marinha no Centro Experimental de Aramar (SP). Projetar um reator para uso embarcado é substancialmente mais difícil do que para usinas terrestres, por três razões principais:
Geopolítica Marinha Francesa
- Miniaturização extrema sem perda de potência.
- Segurança passiva em ambiente confinado e sujeito a choques.
- Operação silenciosa, requisito crítico para furtividade.
O Brasil optou por desenvolver tecnologia própria, evitando dependência externa em um campo tradicionalmente sujeito a severas restrições de transferência tecnológica. Essa decisão elevou o grau de dificuldade do programa, mas também ampliou seu valor estratégico.
O Laboratório de Geração Núcleo-Elétrica (LABGENE) representa a etapa de validação em terra do sistema de propulsão nuclear, funcionando como protótipo funcional antes da integração ao casco do submarino.
Impactos industriais e transbordamentos tecnológicos
O PROSUB e o PNM configuram um típico programa estruturante de base tecnológica dual, cujos efeitos ultrapassam amplamente a esfera militar. A literatura internacional sobre grandes programas de defesa, especialmente aqueles envolvendo propulsão nuclear, demonstra que tais iniciativas funcionam como catalisadores de complexidade industrial, elevando o patamar tecnológico de múltiplos setores simultaneamente. No caso brasileiro, esse fenômeno já é observável em diferentes níveis.
Em primeiro lugar, há o adensamento da base industrial de defesa (BID) com incorporação de capacidades de engenharia pesada e de precisão que antes eram limitadas no país. A construção do complexo naval de Itaguaí exigiu a internalização de processos avançados de fabricação, incluindo soldagem de alta integridade estrutural, controle dimensional em tolerâncias extremamente restritas, metalurgia de ligas especiais e integração de sistemas complexos em ambiente de requisitos nucleares. Esses conhecimentos não permanecem confinados ao setor militar: difundem-se para a indústria naval civil, óleo e gás offshore, energia e grandes estruturas metálicas.
Em segundo lugar, o domínio do ciclo do combustível nuclear por ultracentrifugação, conduzido no âmbito do PNM, possui externalidades tecnológicas relevantes. A tecnologia de ultracentrífugas envolve engenharia de rotores de altíssima rotação, sistemas de vácuo avançado, materiais de elevada resistência mecânica e controle fino de processos , competências que dialogam diretamente com setores como:
- geração nucleoelétrica;
- produção de radioisótopos médicos;
- indústria aeroespacial;
- instrumentação científica de alta precisão.
Outro vetor de transbordamento é a engenharia de sistemas complexos, área crítica em submarinos nucleares. A necessidade de integrar propulsão, geração elétrica, combate, navegação, habitabilidade e segurança nuclear em um volume restrito força o desenvolvimento de metodologias avançadas de:
- modelagem e simulação;
- engenharia baseada em sistemas (MBSE);
- gestão de configuração;
- garantia da qualidade em nível nuclear.
Essas competências são raras e altamente valorizadas em economias intensivas em tecnologia.
Há ainda o impacto sobre a formação de capital humano estratégico. O programa mobiliza universidades, centros de pesquisa e institutos tecnológicos, criando uma massa crítica de engenheiros nucleares, especialistas em materiais, físicos de reatores e técnicos altamente qualificados. A experiência internacional mostra que esse capital humano tende a irradiar inovação para outros setores ao longo do tempo, aumentando a produtividade sistêmica da economia.
Por fim, o PROSUB/PNM induz políticas públicas interministeriais, especialmente nas áreas de ciência, tecnologia e inovação, indústria, energia e educação. Programas dessa natureza funcionam como âncoras tecnológicas nacionais, reduzindo dependências externas em áreas sensíveis e fortalecendo a autonomia decisória do Estado.
Dimensão estratégica: dissuasão e proteção da Amazônia Azul

Sob a ótica da estratégia marítima, a introdução de um submarino de propulsão nuclear convencionalmente armado altera qualitativamente o cálculo de poder no Atlântico Sul. O Brasil possui uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo, a chamada Amazônia Azul, que abriga rotas marítimas críticas, infraestrutura energética offshore e recursos naturais de elevado valor estratégico.
A principal contribuição do SNCA situa-se no campo da negação do uso do mar (sea denial), conceito clássico da estratégia naval. Diferentemente da projeção de poder expedicionária, a negação do mar busca elevar o custo e o risco de qualquer força adversária que pretenda operar em áreas de interesse nacional. Nesse contexto, submarinos nucleares de ataque oferecem vantagens assimétricas decisivas.
Primeiro, a persistência submersa praticamente ilimitada permite a manutenção de patrulhas discretas por longos períodos em áreas distantes da costa brasileira, incluindo regiões profundas do Atlântico Sul. Submarinos convencionais, mesmo com propulsão AIP, permanecem limitados por autonomia energética e necessidade eventual de exposição.
Segundo, a alta velocidade sustentada dos SSNs amplia dramaticamente a capacidade de reposicionamento estratégico. Isso é particularmente relevante para o Brasil, cuja área marítima de interesse é extensa e dispersa. Um único submarino nuclear pode cobrir áreas que exigiriam múltiplos meios convencionais.
Terceiro, a furtividade acústica associada à propulsão nuclear moderna aumenta a incerteza do potencial adversário. A lógica da dissuasão submarina não depende do emprego efetivo da força, mas da impossibilidade de o oponente garantir a neutralização prévia do vetor. Nesse sentido, o SNCA contribui para uma dissuasão de natureza essencialmente defensiva e estabilizadora.
Além da dimensão militar estrita, o submarino nuclear amplia a consciência do domínio marítimo (Maritime Domain Awareness) ao operar como plataforma avançada de coleta de dados acústicos e oceanográficos. Em um ambiente de crescente competição por recursos marítimos e infraestruturas submarinas (cabos, dutos, plataformas), essa capacidade tende a ganhar relevância.
Assim, o SNCA deve ser compreendido menos como instrumento de projeção ofensiva global e mais como multiplicador de credibilidade estratégica regional, coerente com a tradição brasileira de defesa de caráter dissuasório e não intervencionista.
Desafios persistentes do programa
Programas de submarinos nucleares estão entre os empreendimentos tecnológicos mais complexos já realizados por Estados modernos. A experiência internacional, Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China e Índia, demonstra que mesmo países com longa tradição enfrentam desafios recorrentes. O caso brasileiro não é exceção.
O primeiro grande desafio é a maturação tecnológica do reator naval compacto. A transição do protótipo em terra (LABGENE) para a integração embarcada envolve riscos de engenharia não triviais, especialmente em:
- gestão térmica em regime dinâmico;
- isolamento vibracional e acústico;
- segurança nuclear em ambiente marítimo;
- confiabilidade de longo ciclo operacional.
Esses requisitos exigem extensivos programas de testes, validação e certificação, naturalmente prolongando cronogramas.
O segundo desafio é a sustentação orçamentária de longo prazo. Submarinos nucleares demandam investimentos contínuos por décadas, não apenas na construção, mas também em infraestrutura, formação de pessoal, manutenção e ciclo de vida do combustível nuclear. A previsibilidade fiscal é condição crítica para evitar descontinuidades que elevem custos e riscos.
Outro ponto sensível é a retenção e renovação de capital humano altamente especializado. Programas nucleares dependem de equipes com conhecimento tácito acumulado ao longo de anos. Flutuações institucionais, aposentadorias e competição com o setor privado podem gerar perda de massa crítica se não houver políticas robustas de formação e retenção.
Há ainda desafios no campo da governança industrial e da cadeia de fornecedores. Manter fornecedores nacionais qualificados em padrões nucleares requer demanda estável, certificação rigorosa e acompanhamento permanente. Sem escala e continuidade, existe risco de erosão da base industrial construída.
Por fim, subsiste o desafio geopolítico da gestão de sensibilidade internacional. Embora o programa brasileiro seja convencionalmente armado e sob salvaguardas, a propulsão nuclear naval é historicamente objeto de atenção no regime de não proliferação. A transparência seletiva e o cumprimento rigoroso de compromissos internacionais permanecem essenciais para preservar a legitimidade do programa.
Perspectivas futuras

O avanço do SNCA tende a produzir efeitos estruturantes de longo prazo sobre a postura estratégica e tecnológica do Brasil. Caso o programa alcance plena maturidade operacional, o país ingressará de forma definitiva no grupo restrito de nações com domínio completo da propulsão nuclear naval — um divisor de águas em termos de autonomia estratégica.
No plano operacional, a introdução do submarino nuclear exigirá a evolução da doutrina submarina brasileira, incluindo novos conceitos de emprego, padrões de patrulha de longa duração, logística nuclear embarcada e integração com sistemas de comando e controle de maior alcance. Isso implicará também adaptações na formação de tripulações e na cultura operacional da Força de Submarinos.
No campo industrial, a consolidação do ciclo completo, do combustível ao casco, poderá posicionar o Brasil como polo tecnológico relevante no Atlântico Sul, com potencial de cooperação seletiva em áreas como:
- engenharia naval avançada;
- segurança nuclear;
- sistemas de propulsão naval;
- tecnologias de silenciamento acústico.
Outro vetor promissor é a incorporação progressiva de digitalização avançada, inteligência artificial e manutenção preditiva na operação dos futuros meios. Submarinos de nova geração tendem a operar com maior grau de automação, melhor consciência situacional e ciclos de manutenção mais eficientes, áreas nas quais o Brasil poderá evoluir incrementalmente a partir da base construída pelo PROSUB.
No horizonte mais longo, o domínio da propulsão nuclear naval abre possibilidades indiretas para o avanço em reatores compactos modulares, tecnologia de crescente interesse global no setor energético civil.
Em síntese, as perspectivas do SNCA transcendem o lançamento de uma única plataforma. O verdadeiro legado potencial reside na consolidação de um complexo tecnológico-militar de alta intensidade de conhecimento, capaz de sustentar a autonomia estratégica brasileira nas próximas décadas — desde que mantidas a continuidade política, a disciplina programática e o investimento em capital humano.
Conclusão: coragem estratégica e construção de soberania
O desenvolvimento do Submarino Nuclear Convencionalmente Armado representa um dos mais ambiciosos empreendimentos tecnológicos já conduzidos pelo Estado brasileiro. Mais do que um vetor militar, o SNCA é expressão de vontade estratégica, continuidade institucional e confiança na capacidade científica nacional.
Ao articular o PROSUB e o PNM como programas estruturantes, o Brasil não apenas busca fortalecer sua defesa marítima, mas também impulsiona um ciclo virtuoso de inovação, indústria e formação de conhecimento.
Num sistema internacional cada vez mais competitivo, a verdadeira relevância do SNCA reside menos no casco que tocará o mar e mais no ecossistema tecnológico que já começou a transformar o país.
*Marcelo Barros é Jornalista

