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24-02-2026 às 14h23
Caio Brandão*
Eleutério é uma figura singular porque, desde cedo, descobriu o óbvio: é finito. E, sendo finito, não pretende ignorar a sua transitoriedade, mas apenas viver o suficiente para usufruir os bônus da vida enquanto possível, poupado dos ônus próprios da idade avançada e de seus achaques.
Entre os radioamadores — hobby que adotou em décadas recentes —, é costume os aficionados despedirem-se, em suas interlocuções, desejando saúde, vida longa e morte rápida. São pinceladas de sabedoria que ensejam a lembrança do título de um blog de crônicas, de conhecido advogado e jornalista, que repousa na internet sob o título “A desimportância da importância”.
Eleutério divaga em face de prognósticos sombrios ditados pelo notório Elon Musk acerca de uma grande metamorfose esperada no mundo por nós conhecido, cujo prenúncio de transformações cabais já enseja a fuga dos detentores de poder e fortunas mundiais para os recônditos de cavernas em lugares remotos. No horizonte, tem-se como certo o apocalipse tecnológico, alimentado pela paranoia dos bilionários e por sua obsessão distópica, que remete a um futuro sombrio e opressor.
Estas reflexões erráticas, que sussurram pensamentos baldios e recorrentes, sempre trazem algo útil em face do mundo ambivalente em que vivemos, onde a lógica do certo faz o correto parecer errado e vice-versa.
Aos cinquenta e quatro anos e pai de filhos com quatro mulheres, Musk, para Eleutério — em face de tal histórico —, é acima de tudo um otimista; o que contrasta com o cenário funesto que ele próprio desenha para a humanidade em futuro próximo.
Mas não é apenas ele o profeta do apocalipse. Putin, acossado por seus questionamentos de foro íntimo no tocante a fluidos existenciais, mantém sob cerco a Ucrânia, que resiste heroicamente; enquanto isso, Israel insiste em manter o seu jugo feroz sobre a Palestina. Correndo por fora — e também por dentro, conforme a conveniência do momento —, Trump estica e encolhe a sua tromba escatalógica, enquanto tumultua as relações de mercado com o mundo e pincela interesses aqui e acolá, exercitando um estágio de “professor de Deus” antes de desencarnar.
Eleutério não se amofina, porque aprendeu com o saudoso Fernando Telles que tudo passa — inclusive o próprio, que já passou. Putin, com sua pose imperial; Netanyahu, com o peso de um passado complexo; Trump, com as lembranças recônditas de brincadeiras proibidas; são todos eles pessoas que, estivessem em meio a uma multidão, sobressair-se-iam menos do que o pipoqueiro de plantão. Ademais, logo, logo serão levados pela inexorabilidade do tempo, sempre implacável.
Essa gente é poeira, pensa Eleutério, mas ainda não se deu conta disso. Como no Brasil, medita, onde, mesmo no topo, togados ainda se lambuzam com deslizes incompatíveis com a posição, precisando de código de ética para saber o que se pode ou não fazer, a par de um presidente provecto que não se deu conta do provável desencarne ao longo de uma eventual reeleição.
Eleutério sorri, um sorriso maroto, e diz para si mesmo que o mundo ficará bem. Sobreviverá aos Nostradamus modernos, às invasões alienígenas, às mutações vibracionais das almas em processo de transição, aos políticos corruptos e aos magistrados neles espelhados — e até a uma guerra mundial, caso ocorra.
Ademais, a visão de Trump, em solenidade, premido por um flato erodido em fezes, mostra a fragilidade dos que se julgam imortais e querem se esconder em casamatas, enquanto por aqui, talvez, o mandatário não sobreviva sequer aos ímpetos da dama consorte, rebelde e incontrolável.
Quem viver, verá.
*Caio Brandão é Advogado e Jornalista.

