Créditos: Divulgação
05-02-2026 às 07h40
Luiz Carlos Silva Eiras*
“O moto-contínuo”, de Luís Carlos Eiras, é um romance-ensaio de ideias: costura narrativa histórica, ficção, ensaio econômico, filosofia da técnica e humor, usando a metáfora central da circulação (de sangue, mercadorias, dinheiro, informação, lixo) como fio que conecta séculos e temas.
- Aspectos literários
O livro mistura gêneros com bastante consciência formal: capítulos em forma de conto histórico (Quesnay, Marx em Londres, Markov em São Petersburgo, Russell no País de Gales), falso documento (relatório da CIA sobre o Cybersyn, informe de agente infiltrado), teatro escolar (“As letras do tesouro”), crônica mineira (“O infinito é inútil”), quase ficção científica político econômica (videogame capitalismo x comunismo, blockchain mundial), e uma espécie de “FAQ filosófico” em “Perguntas e respostas”.
Há um uso sistemático de cenas muito concretas, cheias de detalhes sensoriais e de fala, para introduzir conceitos abstratos: o Tableau de Quesnay aparece em Versalhes em diálogo com Pompadour, a incompletude de Gödel aparece via entrevista espirituosa com Bertrand Russell, cadeias de Markov surgem de uma leitura obsessiva de Púchkin, aprendizado por reforço é reencenado como evolução do sistema nervoso. Esse procedimento dá ao texto uma forte narratividade mesmo quando o conteúdo é altamente teórico.
O estilo oscila entre um narrador irônico de terceira pessoa (Quesnay, Allende, Leontief, McNamara), a primeira pessoa de “Engels” e de agentes, e vozes documentais (memorandos, anotações, colunas de jornal). Essa polifonia lembra, em menor escala, romances de ideias que usam documentos fictícios para comentar a história (Eco, Pynchon, W.G. Sebald), mas com um ritmo mais ensaístico e direto.
Formalmente, a metáfora do circuito é o eixo unificador: cada capítulo é um loop com variações — circulação da riqueza, da cerveja, da mentira, do crédito, do lixo, dos bits; moto contínuo físico impossível, moto contínuo lógico (recursão, programas em loop), moto contínuo social (dívida, guerra, burocracia). A estrutura do índice também aparece como um circuito: abre em Versalhes, dá voltas por séculos, e volta a Quesnay em “O círculo se fecha”, encerrando no “infraordinário” de Perec e na live de celular – um retorno irônico ao olhar que registra fluxos. - Veracidade histórica e liberdade ficcional
O texto se apoia em fatos históricos bem reconhecíveis, mas sempre dramatizados com liberdade de diálogo e de montagem:
• Quesnay, Pompadour, Mirabeau, Baudeau, Turgot, o Tableau Économique, a centralidade da agricultura na fisiocracia, a questão dos impostos e de Lavoisier como administrador do imposto – são fundados em dados reais, mas os diálogos são claramente inventados para explicar conceitos (dinheiro como “espelho”, classes “estéril” etc.).
• Marx e Engels em Londres, pubs, discussão sobre circulação e Quesnay, alusão às “Teorias da Mais-Valia” e ao Livro II de “O capital”: o enquadramento teórico está correto, mas a cena de bar é uma reconstituição literária, não documental.
• Markov e Púchkin, cadeias de Markov construídas a partir de “Evguiêni Oniéguin”: historicamente verossímil – Markov realmente analisou sequências de letras de Púchkin –, mas a conversa com o professor Yudin é ficcional e serve para explicitar o contraste entre “prever a próxima letra” e “simplesmente continuar lendo”.
• Russell, Gödel, Turing e o Oráculo: são articulados com bastante precisão conceitual, inclusive a ideia do problema da parada e dos limites da computação, mas o tom de entrevista espirituosa é literário (a piada com “gripe nos axiomas”, a analogia com papa pecador etc.).
• Cybersyn de Allende, relatórios da CIA, sabotagem econômica, Marcha das Panelas Vazias, greves de caminhoneiros, papel de Fidel Castro: o enquadramento histórico corresponde à literatura sobre o Chile de Allende e o projeto Cybersyn, mas o “memorando Top Secret” é uma reconstrução ficcional, com linguagem muito bem mimetizada de documentos de inteligência.
• Leontief, Nobel, matrizes de insumo produto, paradoxo de Leontief, ONU, crítica a armamentos e à estrutura das exportações americanas: são pontos reais da obra de Leontief, mas reencenados num contexto afetivo (o tríptico com Quesnay–Marx–Leontief) que é ficção.
• O Terceiro Reich: números de ouro saqueado, Frankreich pagando 400 milhões de francos por dia, KdF Wagen, uso de trabalho escravo e desequilíbrio entre custo da guerra e “lucro” – isso se ancora em historiografia econômica, mas a fala de Göring transformando tudo em planilha é um exagero literário que explicita uma lógica implícita.
Em geral, a veracidade factual de base é alta, mas o texto assume o direito de inventar falas e cenas para dramatizar teorias – é um híbrido entre ensaio rigoroso e romance histórico didático. O leitor que busca fidelidade literal a documentos precisa distinguir claramente entre dados e diálogos; o próprio livro ajuda nisso em “Anotações não utilizadas”, onde entra em registro expositivo puro (Carnot, Joule, Clausius, Planck; a explicação da máquina de Turing e Gödel, etc.). - Sátira e humor
O humor é central e muito variado:
• Sátira histórica: Pompadour reduz a circulação econômica a uma intuição quase mundana (“se tudo circula, por que há tantos pobres?”) e ironiza Quesnay com doçura; Baudeau chama a questão da classe “estéril” de heresia de salão; Quesnay é forçado a fazer lisonjas ao rei (“sem o rei, o reino não circula”) quando sabe que a circulação é travada por impostos e privilégios.
• Humor marxiano: Marx num pub dizendo que o capital é um cadáver que anda, um vampiro que chama de circulação o seu banquete, e brindando com Engels à “ditadura do proletariado do Tableau de Quesnay”, prevendo uma burocracia em que “cada copo de cerveja vai ter que ser anotado na tabela”.
• Humor mineiro/coloquial: em “O infinito é inútil”, Duílio desmonta o moto contínuo do sobrinho e explica recursão, fatorial e Fibonacci usando voz coloquial, piada com curandeiros e espiritismo, e xingamentos à aritmética da “conta de padaria”.
• Sátira financeira: “Seu empréstimo está velho” transforma o gerente em vendedor de moto contínuo de dívida, com retórica de “alívio” e “respirar melhor” que, na prática, eterniza o saldo devedor – uma sátira bastante precisa ao refinanciamento bancário doméstico.
• Humor político digital: “A circulação da mentira” mostra uma agência de disparo de fake news operando com lógica de call center de marketing, segmentando amantes de animais para receber fake opostas; o chefe comemora “reenvio orgânico” como se fosse taxa de circulação sanguínea, e o lanche coletivo celebra o sucesso da manipulação.
• Humor meta teórico: “Perguntas e respostas” é quase um auto comentário sarcástico do livro, listando perguntas “profundas” e respondendo com ironia (“o socialismo pode ser o primeiro motor que decide parar?” “Marx termina a noite em dúvida, o que o texto trata como profundidade”; “um papagaio pode pensar? Sim, desde que passe no teste de Turing”).
O riso raramente é gratuito: quase sempre aponta para um descompasso entre teoria e prática, promessa e realidade, discurso e circuito real. A sátira atinge tanto capitalistas quanto socialistas, tecnocratas de esquerda e de direita, banqueiros, gurus da termodinâmica, moralistas, políticos, até a própria economia circular da moda (o castelo de PET que termina no lixo). - Interesse do leitor
O livro fala com leitores que:
• gostam de história das ideias (economia política, matemática, ciência da computação, cibernética, termodinâmica);
• apreciam narrativa histórica saborosa (Versalhes, pubs londrinos, São Petersburgo, La Moneda, Harvard);
• têm algum interesse em política contemporânea (fake news, big data, vigilância algorítmica, blockchain).
A linguagem é acessível, com explicações didáticas embutidas em diálogo (por exemplo, Duílio explicando recursão; Russell explicando incompletude; o professor chileno explicando Cybersyn aos operários), o que amplia o público para além do leitor especialista. Ao mesmo tempo, é um texto muito denso em referências; quem não se interessa por teoria econômica ou computação pode sentir certa saturação em alguns trechos mais conceituais.
Há também uma forte dimensão “ensaio de não ficção”: capítulos como “O moto contínuo sai para conquistar o mundo”, “O cérebro eletrônico”, “Um videogame instável” e “O olho que vê sozinho” praticamente funcionam como ensaios de divulgação filosófica e técnica, com apenas uma fina camada narrativa. Isso agrada leitores de ensaio (à la Sennett, Harari, Morin), mas talvez decepcione quem espera um romance mais centrado em personagens e conflitos dramáticos contínuos.
Do ponto de vista de interesse e envolvimento, funcionam muito bem:
• a abertura em Versalhes (forte imagética e diálogo rápidoa sequência Marx/Engels;
• a entrevista com Russell;
• o bloco sobre Allende/Cybersyn (que combina documento e cena de chão de fábrica);
• o capítulo mineiro de Duílio;
• o gerente de banco e a agência de fake news, por serem muito próximos da experiência contemporânea.
Para leitores que gostam de ver “grandes teorias” aterrissando em situações banais (uma aula infantil de reciclagem, um teatro escolar sobre letras do tesouro, um senhor fazendo live na praça), o livro tem um apelo especial: ele insiste que o moto contínuo da circulação se manifesta tanto em Versailles quanto na sala de aula de escola pública brasileira. - Síntese crítica
Literariamente, “O moto contínuo” é ambicioso: quer ser, ao mesmo tempo, romance histórico, crônica, ensaio de história das ideias e sátira política. Em boa parte dos capítulos, consegue equilibrar forma e conteúdo com inventividade, usando metáforas recorrentes (círculo, sangue, espelho, máquina, lixo) para unificar um material heterogêneo.
A verossimilhança histórica é tratada com cuidado no plano dos fatos estruturais, mas a veracidade documental é deliberadamente sacrificada em favor de diálogos inventados que esclarecem e ironizam conceitos. O humor é constante, ora fino, ora abertamente popular, e serve menos para aliviar e mais para tornar visível o absurdo de sistemas que se vendem como racionais.
Para um leitor interessado em literatura de ideias, economia política e tecnologia, é um texto muito estimulante, que convida a pensar os “mecanismos perpétuos” (físicos impossíveis, lógicos, financeiros, digitais) que organizam a vida contemporânea. Para quem busca sobretudo enredo linear e psicologia profunda de personagens, ele pode soar mais como um mosaico de ensaios ficcionalizados do que como romance tradicional – o que, na prática, é justamente a sua proposta.
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