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02-02-2026 às 12h25
Beatriz Rodrigues Rossi*
Não é segredo que os governos norte-americanos carregam um legado de posicionamentos imperialistas e violentos, tanto internamente, com as deportações, quanto externamente, com as intervenções militares e de inteligência em países que possuem recursos de interesse estratégico. No entanto, apesar dos eventos, a narrativa disseminada não costumava ter um teor tão agressivo ou escancarado. Suas motivações se camuflavam em narrativas de “libertação e democratização”.
A mudança repentina de postura não é devaneio de um homem, é estratégia de manutenção de poder disfarçada de discurso ideológico. Em entrevista à NBC, o presidente americano afirmou que “não estava brincando” ao falar sobre um possível terceiro mandato e mencionou que “existem métodos para que isso aconteça”. O curioso nessa declaração é que a Constituição estadunidense proíbe a reeleição para um terceiro mandato presidencial, ainda que não seja consecutivo, ou seja, não há, por meios democráticos atualmente, como Donald Trump ser reeleito.
Mas, por que agora?
Os títulos de dívida externa americana, que já chegaram à USD 38 trilhões, vencendo este ano e seus principais compradores não demonstrando interesse em renová-los, aliado a utilização de tarifaços internacionais de forma agressiva na tentativa de fortalecer os esvaziados bolsos do tesouro americano, revelam as fragilidades de um império em declínio. Mais do que isso, a crise econômica que reflete no bolso do cidadão e gera insatisfação, abre brecha para achar um grande culpado, os imigrantes.
O horror se instala com justificativa e aceitação de grande parte da população, à princípio, mas a escalada de violência e em especial o uso dela até mesmo contra cidadãos nativos, o tratamento desumano e atuação ilegal, inflamam a revolta e criam um cenário de instabilidade política e social em um país com uma população fortemente armada, colocando-os à beira de uma guerra civil.
Seria essa a justificativa perfeita para que, em um cenário de caos, novas eleições sejam impossibilitadas e urgisse então a “necessidade” de permanência de Donald Trump no poder até que a situação se estabilize? Não há teoria suficiente que revele o futuro, mas há ainda a capacidade de pensar e analisar de formas alternativas. E dessa forma evitar a ingenuidade em acreditar que as ações de um homem que ocupa, pela segunda vez, a cadeira presidencial, sejam impulsivas ou insanas e não um roteiro bem planejado e com objetivos concretos
*Beatriz Rodrigues Rossi é Cientista do Estado

