Créditos: Divulgação
02-02-2026 às 10h42
Tadeu Martins*
Em 16 de março de 1978 foi criado no Vale do Jequitinhonha o jornal GERAES, com o objetivo de dar voz e vez ao povo daquela região considerada como uma das mais pobres do mundo. Semente do movimento cultural organizado do Vale, o GERAES gerou o FESTIVALE e várias entidades culturais nas 80 cidades da região.
Uma das entidades nascidas no bojo desse movimento foi a COENA – Comissão Organizadora dos Encontros de Neocruzeirenses Ausentes – que trazia no nome o objetivo, mas que se ampliou e desenvolve até hoje um sério trabalho cultural e social em Novo Cruzeiro.
Em novembro de 1983, fui convidado pelos companheiros da COENA para participar do Encontro em Novo Cruzeiro. Saímos de Belo Horizonte em dois ônibus, preparados para as festas, shows, debates, gincanas, enfim, para a grande confraternização dos neocruzeirenses. E… foi lá que aconteceu o “causo”. Quem me contou a segunda parte, a invasão do quintal, foi Dedim de Ciço, fonte de muitos causos que eu conto. Dedim, acadêmico da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha, mora há muitos anos na Suíça e tem alguns livros publicados. Eu tive a honra de prefaciar dois livros dele: “A Doce Voz de suas Vidas” (1988) e “Bananas” (2015), lançado na Suíça.
Na madrugada de 13 de novembro de 1983, após uma seresta, saímos à procura do que comer e, nada. Tudo fechado na cidade. Um sugeriu dar uma espiada lá nas “Oropa” (zona boêmia) e outro, mais sensato, lembrou da pensão da Duca, onde poderíamos encontrar o que comer. Acordamos a Duca, que se prontificou a preparar um jantar “pra ninguém botar defeito”, caso alguém arranjasse duas “arancõas” (galinhas). Umas oito pessoas ficamos na pensão, tomando umas e outras e tocando viola, enquanto outras seis saiam para “roubar” as galinhas.
Na pensão de Duca, um mosquito que pousou em nossa mesa foi o tema de um repente que durou mais de quatro horas. Os repentistas Dércio Marques, Rubinho do Vale, Eros Januzzi, Zizinho, Dedim e eu, viajamos o mundo e seus problemas, usando o repente como estrada e o mosquito como condução. Dedim e Zizinho integraram-se ao repente depois que voltaram da aventura noturna de “arrochar os arancoãs”. Só depois que o mosquito voou (ficou mais de 3 horas pousado no mesmo lugar, como que encantado pelo lindo som da viola de Dércio Marques), é que soubemos, pelo Dedim, da arrojada excursão galinácea do grupo: ele, Zizinho, Bitenil, Artur de Pinião, Zé Tué e Dila. Bitenil foi o guia do grupo: “Deixa comigo”. “Seu” Zé Prudêncio mora lá perto de casa e eu sei onde as galinhas dele empoleiram. Vai ser fácil. Vamos lá”.
Lá, Bitenil e Zé Tué saltaram o muro, enquanto os outros ficaram do lado de fora assistindo ao “roubo”, iluminados por uma linda lua cheia que tomava conta do céu.
Debaixo da grande mangueira, auxiliado por Zé Tué, Bitenil pulou e pegou duas galinhas… pelos pés. Voou pena pra todo lado e foi o maior escândalo das galinhas. Zé Prudêncio acordou e, da porta da cozinha, com uma espingarda na mão gritou: “Quem tá ai? Vou atirar”. Antes de Zé Prudêncio chegar no “aí” da frase, Zé Tué deu um pulo pra cima da mangueira, empoleirou-se ao lado das galinhas e começou a imitá-las com a voz trêmula. Tremor maior foi o de Bitenil, que segurando as duas galinhas, gritou: “Num atira não Zé Prudêncio. É eu, Bita”. O dono da casa: “Que desgraça que você está fazendo em meu quintal uma horas dessas Bitenil?” Bitenil, tremendo igual vara verde mas sem soltar as galinhas, que faziam o maior barulho em suas mãos, respondeu: “Uai Zé Prudêncio, é os minino da serenata. Olha lá procê ver, tá tudo lá! Aí, esticava o braço usando uma das galinhas como indicador, para mostrar as quatro cabeças do lado de fora do muro. E, ao som do escândalo da galinha e do cacarejar de Zé Tué, completava: “Tá tudo lá, Dedim de Ciço, Zizinho de Chico Mota, Artur de Pinião, e Dila. Olha eles lá”. Sacudindo nervosamente as duas galinhas de um lado para outro, Bitenil continuou: “Eles agora aprenderam esse negócio de roubar galinha nas serenatas. Eu falei mesmo com eles, as de Zé Prudêncio ninguém leva não”. Ao sacudir o braço, ou melhor, uma das galinhas para dizer o “não”, foi que Bitenil percebeu a seriedade da situação e pediu ao proprietário das penosas: “Ô Zé, deixa nós levar essas duas pra comer lá em Duca. Amanhã nós te pagamos”.
Lá na pensão, depois de uns bons goles de pinga, do bonito repente, e de comer das duas galinhas deliciosamente preparadas por Duca, Bitenil sorriu e comentou, apontando para o conterrâneo:
“Eu lá no maior aperto e o besta do Zé Tué dicocado no pau, gagarejando igual galinha”.
*Tadeu Martins, escritor e produtor cultural já publicou 15 livros e 84 folhetos de cordel. Gravou um CD de causos e cordéis. É o atual presidente da ALVA- Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha.

