Banco Master - créditos: Jota
29-01-2026 às 15h40
Por Samuel Arruda*
A crise envolvendo o Banco Master tornou-se um dos episódios mais sensíveis enfrentados pelo governo federal no atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O que inicialmente parecia restrito ao campo financeiro evoluiu para um caso de forte repercussão política, à medida que investigações passaram a apontar a participação ou proximidade de pessoas ligadas ao presidente e ao Partido dos Trabalhadores com dirigentes e operações do banco. A situação ganhou dimensão nacional ao atingir não apenas o sistema financeiro, mas também o debate sobre governança, transparência e conflitos de interesse no alto escalão do poder.
O Banco Master entrou no centro das atenções após a revelação de práticas financeiras irregulares que incluiriam gestão fraudulenta, emissão de ativos sem lastro suficiente e possíveis esquemas de lavagem de dinheiro. As irregularidades levaram o Banco Central a decretar sua liquidação extrajudicial, decisão que desencadeou uma série de investigações conduzidas pela Polícia Federal. A apuração passou a envolver executivos do banco, familiares do controlador e empresas ligadas ao grupo financeiro, ampliando o alcance do caso e elevando sua gravidade institucional.
À medida que as investigações avançaram, surgiram informações sobre vínculos entre o Banco Master e figuras com histórico de atuação em governos petistas ou com proximidade política do presidente Lula. Consultorias prestadas por ex-ministros e a circulação de dirigentes do banco em ambientes institucionais de Brasília passaram a ser interpretadas politicamente como indícios de uma relação que extrapolaria o plano meramente profissional. A revelação de encontros entre o presidente e representantes do banco, ainda que negada qualquer irregularidade direta por parte de Lula, alimentou o discurso de que o governo poderia ter sido, no mínimo, politicamente condescendente com o grupo financeiro.
O caso também provocou tensões entre instituições do Estado. Decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas ao andamento das investigações, à centralização de depoimentos e ao controle de informações sensíveis geraram críticas de setores do Congresso e de membros da própria Polícia Federal. Parlamentares passaram a defender mecanismos de fiscalização mais rígidos, como comissões parlamentares de inquérito, sob o argumento de que haveria risco de esvaziamento das apurações. Paralelamente, a PF abriu novas frentes de investigação, incluindo a possível contratação de influenciadores digitais para defender o banco e atacar autoridades reguladoras, o que ampliou ainda mais o alcance político do escândalo.
Do ponto de vista eleitoral, a crise do Banco Master representa um fator de desgaste para o projeto de reeleição de Lula. Embora não haja, até o momento, provas de envolvimento direto do presidente em crimes investigados, o caso reforça uma narrativa explorada pela oposição de que velhas práticas de proximidade entre poder político e interesses econômicos continuam presentes. Em um cenário de disputa eleitoral acirrada, episódios dessa natureza tendem a influenciar eleitores indecisos e dificultar a construção de uma imagem de governo comprometido com padrões elevados de ética e transparência.
O governo tem buscado sustentar o discurso de que as investigações demonstram o funcionamento regular das instituições e a autonomia da Polícia Federal e do Banco Central. No entanto, a presença de aliados históricos do presidente no entorno do banco e a exposição pública de relações políticas anteriores reduzem a eficácia dessa estratégia comunicacional. O impacto político do caso dependerá, em grande medida, dos próximos desdobramentos das investigações e da eventual responsabilização de figuras relevantes.
Em síntese, a crise do Banco Master extrapolou o campo financeiro e se consolidou como um problema político de grande magnitude para o governo Lula. Ela evidencia fragilidades na relação entre o Estado e o sistema financeiro, tensiona instituições e adiciona um elemento de risco ao cenário eleitoral de 2026. Com investigações ainda em curso e novas revelações possíveis, o caso permanece como uma variável importante na dinâmica política brasileira e um teste relevante para a credibilidade do governo e de seu projeto de continuidade no poder.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

