Créditos: Divulgação
30-01-2026 às 09h20
Sérgio Augusto Vicente*
Formado em Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ele é mestre em Literatura pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e acadêmico da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG).
Em 2024, lançou seu primeiro livro, Dias Possíveis, pelo Grupo Editorial Caravana. O autor também possui vários contos indicados à publicação em coletâneas Brasil afora, como a Coletânea Terra (do Selo Off Flip); a Antologia de Literatura Brasileira; o Livro Mágico das Histórias Fantásticas (da Editora Articule); Coletânea 20 Contos, 20 Autores (Editora Nauta); coletâneas da Editora Triumphus (Cinco Elementos, Primavera e Fantasmas); e Contos em Miniatura (Editora Comala). Além disso, Soares fundou a Casa de Contos Oficial, projeto que ainda ensaia seus primeiros passos.

Nesse início de 2026, o “professor que conta histórias” traz mais uma novidade aos públicos leitores: “O anjo torto e outras pequenas torturas”, livro de contos editado pela Editora Sertão Pasárgada. O novo livro de Sérgio é um mosaico composto de narrativas curtas (algumas delas em formato de aforismos), que nos convidam à reflexão sobre diversos temas que atravessam nosso cotidiano nas mais diferentes esferas. Todos os personagens, com suas sombras e fantasmas, são detentores de dramas reais: “anjos tortos”, cheios de tortuosidades e torturas, como recalques, solidão, contradições de classe, conflitos, taras, invejas, vinganças, perversões, desejos reprimidos, decepções, violências, psicoses e hipocrisia. Tudo orquestrado em pequenas pílulas narrativas que são verdadeiros estilhaços de um mundo hiperconectado pela tecnologia, mas fragmentado em todas as dimensões humanas. São histórias de indivíduos que se perdem e que, infelizmente, encontram na pulsão de morte ou no desejo efêmero a “saída” para uma vida distópica e banalizada.
Jovens afetivamente abandonados dentro e fora de casa, que sofrem por não darem vazão à própria sexualidade; os casos de abuso sexual e pedofilia; a verossímil experiência de personagens negros mortos no passado escravista e ainda discriminados e violentados pela cor da pele; as perversões sexuais por trás da moral religiosa; a homossexualidade reprimida por padrões heteronormativos; o sentimento de inadequação social associado às questões de gênero; a complexidade dos papéis sociais e a sua relação com o psiquismo; a tortuosa e torturante condição da mulher numa sociedade dominada pelo machismo estrutural; a solidão em meio à multidão frenética nas ruas; o trabalhador massacrado, explorado e objetificado, cada vez mais esgotado e dominado pela pulsão de morte/ suicídio (vide o personagem Quasímodo e sua “quase vida”); a vida performática nas redes sociais, em que a supervalorização narcísica e fictícia de uma vida “perfeita” joga para debaixo do tapete a capacidade de “deglutir” e encarar os fracassos do “mundo real”. Essas e outras questões e dilemas existenciais atravessam os personagens desse livro surpreendente.
Misturando tragédia, drama e humor (sobretudo a ironia), o autor descortina duras realidades. Entre tantos “entretantos” e camadas remexidas de um mundo estilhaçado, habitado por “anjos tortos”, você também poderá refletir sobre suas próprias tortuosidades e torturas, ressignificando a vida como o artesão que cata os cacos da destruição para construir mosaicos – metáfora da capacidade de vislumbrar o belo através da arte, sem a qual a vida não se torna viável.

*Sérgio Augusto Vicente é historiador, professor, escritor e curador com doutorado, mestrado e graduação em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente, trabalha na Fundação Museu Mariano Procópio e atua como colunista e editor de cultura do jornal Diário de Minas.

