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23-01-2026 às 14h35
Gisele Bicalho*
Quantos anos você tem? Ouço essa pergunta com alguma frequência. A resposta nem sempre chega com a objetividade esperada: talvez alguns a mais que você; talvez menos do que aparento. Vaidade? Longe disso. O que me assombra e me distancia dessa resposta é o fantasma do tal etarismo. Só quem já passou dos trinta sabe como é conviver com isso. É sempre assim? Felizmente, não. Como em tudo na vida, há contrapontos.
• Nossa! O tempo não passa para você. Você não mudou nada.
Passa, sim. Mudei também. Lá se foi o viço, o frescor. Hoje convivo com rugas, flacidez, pernas cansadas e falta de vigor. E não estou sozinha. O Brasil e o mundo estão envelhecendo rapidamente: em poucos anos haverá mais pessoas com 60+ do que crianças em vários países. Essa transformação exige que cidades, serviços e produtos se adaptem à nova realidade.
E não venha romantizar essa etapa da vida. O envelhecimento, apesar de inevitável, é difícil. Eu sei o quanto isso me custa. Mas, para me manter inteira, me recuso ao recolhimento, a aceitar o silêncio das horas e vestir o uniforme da “melhor idade”. Eu não me reconheço nesse figurino. Não quero ser rotulada de idosa, nem ser vista como alguém da terceira idade. Quero ser chamada pelo nome, pela história que carrego, pelo brilho que ainda mantenho nos olhos.
O NOLT surge como resposta cultural e social a esse cenário, dando voz à minha geração, às pessoas que, como eu, não se reconhecem no estereótipo da “velha recatada”.
• Mas para que isso? Mais um nome? Já não há nomes demais para rotular quem tem 60+?
•
Discordo. Essa nova denominação faz sentido. O NOLT nasceu do nosso inconformismo. É a recusa em aceitar que o calendário dite o ritmo da vida. É a afirmação de que aos 60, 70 ou 80 anos ainda se pode aprender uma língua nova, abrir um negócio, viajar sozinho, apaixonar-se outra vez, manter-se firme no mercado de trabalho que insiste em nos rejeitar e rotular.
Nas praças, nós, os NOLTs, caminhamos (ops!) com passos firmes. Nas redes sociais, compartilhamos ideias, fotos, memórias e planos. No mercado, exigimos produtos que falem conosco sem nos infantilizar. Na política, exigimos voz ativa. Somos protagonistas de uma história que não cabe em estereótipos e, como tal, devemos ser vistos, tratados e respeitados.
O tempo, afinal, não é uma sentença. É uma oportunidade de se reinventar. O NOLT acende um alerta: envelhecer não é perder, mas acumular experiências, afetos, coragem. É viver sem rótulos, porque a vida não se resume a uma etiqueta.
E talvez o maior ensinamento desse movimento seja simples: envelhecer é continuar. Continuar sendo, continuar sonhando, continuar vivendo. Até quando? Só Deus é quem sabe. E Ele sabe de tudo. Sabe, principalmente, sobre o nosso destino.
Ah, esqueci de dizer: a sigla NOLT significa New Older Living Trend, ou seja, uma Nova Tendência de Vida Mais Velha. Nessa vibe, sigamos.
*Gisele Bicalho é Jornalista

