Créditos: Divulgação
01-04-2026 às 08h34
Alberto Sena*
Depois de descoberto o potencial elástico dos fios de lembranças, podendo puxá-los de todo jeito ou até mergulhar por dentro deles, a impressão é de que são como os “buracos de minhoca” buscados pelos cientistas espaciais na tentativa de encontrar meios mais práticos, curtos e rápidos de explorar o universo.
À exceção das ruas centrais de Montes Claros, as demais eram de terra batida. Na época do estio, a poeira levantava à passagem de cada um dos poucos carros do trânsito local. Mas em compensação, quando era chegado o período das águas acontecia o milagre do reviver vibrante de tudo em derredor. O pó das ruas desaparecia e era então que se sabia chegado o tempo de jogar finca.
De tanto jogar, a pontaria ficava afiada que nem faca amolada. A finca seguia, com a maior presteza, o gesto de mão cuja linha era traçada a partir dos olhos rumo ao chão amolecido pela água da chuva benfazeja.
Com a lembrança desses momentos, hoje, se pode compreender a importância da brincadeira, quando o contato telúrico era em primeiríssimo grau, porque os pés descalços pisavam na terra e não em calçamento ou em ainda no incipiente asfalto.
Para quem está chegando agora, o que é narrado aconteceu há mais de meio século, no tempo em que as crianças inventavam os seus brinquedos, como confeccionar uma finca com as próprias mãos, tarefa que não é para qualquer um nem para muito adulto.
Primeiro era preciso procurar no quintal ou pelas ruas da redondeza de casa um pedaço de ferro próprio para servir de finca, depois de passado por minucioso, lento, paciente parcimonioso processo de uma quase alquimia.
Encontrado o pedaço de ferro apropriado, o passo seguinte era dado rumo à caixa de ferramentas para pegar um alicate. Ato contínuo prender o ferro ao alicate e levá-lo ao fogo diretamente ou às brasas do fogão a lenha.
Quando o ferro virava brasa, era o caso de imprimir a agilidade de um raio e correr ao quintal, e com o auxílio de um martelo e uma pedra fazer a ponta da finca, num trabalho semelhante ao de uma gueixa ao manusear o alimento com gestos delicados, cerimoniosos, pacientes.
Depois de idas e vindas, a finca aprontada, o próximo passo era arranjar um parceiro e iniciar a brincadeira, que, para quem não sabe, era assim: riscavam-se com a ponta da finca dois triângulos no chão, um distante do outro cerca de dois metros. Os triângulos seriam as “casas” de um e de outro.
Para iniciar de fato a brincadeira, era preciso cada um fincar a finca dentro da própria casa e o que conseguia fazer isto primeiro saía fincando a finca com a maior elegância no chão e enquanto ela estivesse caindo em pé, o jogador traçava no chão os riscos da sua jornada ao redor da casa do adversário até voltar à própria casa, dentro da qual era dado o golpe sacramental.
O gostoso da brincadeira estava justamente na volta, quando se podia traçar outra linha paralela à primeira, fincada por fincada, a mais estreita possível, para dificultar ao máximo a vida do adversário, que muitas das vezes não tinha pontaria boa o suficiente para passar por entre as estreitas linhas paralelas, quando era chegada a sua vez de fincar a finca.
Enquanto uns brincavam de finca, outros jogavam bolinha de gude ou corriam à caça de tanajuras apanhadas ao abano de camisas. Os sonhos eram tantos, mal cabiam no interior da caixa craniana.
De uma brincadeira se podia passar à outra, do modo como se davam as conversas dos adultos sentados nas portas das casas por conta de um dedo de prosa e de chupar picolé para driblar o calor.
Baseado na relatividade do tempo, tudo isto parece ter acontecido ontem. Naquela época, a pedagogia recomendava às crianças doses homeopáticas de leituras de fábulas, contos de fadas, parábolas e histórias que, como sementes lançadas ao chão, tiveram um tempo para germinar, cada uma segundo a espécie e a qualidade intrínsecas.
Montes Claros, mais de 50 anos depois desse ouro de aluvião que tomou conta de um estágio de vida desta geração, vive o que foi augurado antes, muito antes de nós, como cidade-polo.
Os fios elásticos de lembranças espicham, mas não partem, assim como o espectro da cidade cantada e decantada sobrevive dentro da metrópole e se poderá revisitá-la sempre, por meio de um “buraco de minhoca”.

