Dicas gastronômicas - créditos: divulgação
01-02-2026 às 08h32
Gisele Bicalho
No Brasil, quando o assunto é Carnaval, as bebidas reinam. Da cerveja à caipirinha, do corote até o catuçai, mistura belorizontina de catuaba com creme de açaí. Nesse ano teremos novidade. Quem aí já conhece a ApareCidra? Uma delícia. Cidra feita a partir da fermentação da maçã. Beto, um dos meus irmãos, até já fez a versão dele. Nesse caso a base é o gengibre. Uma delícia também. Mas é bom não abusar. Tem 7% de teor alcóolico.
Atenção também na hora das refeições. A recomendação de nove entre dez médicos é apostar no básico: carboidratos, frutas, saladas e muita água para aguentar o calor e a maratona de folia.
- Uai, Gisele! Nunca soube que você é foliã. Desde quando se esbalda na folia?
Não sou mesmo. Faço parte do bloco da cama, das séries e dos livros, do eu comigo mesma. Aproveito os quatro dias para hibernar e, por que não, para cozinhar. No meu caso, a felicidade mora na cozinha. Panelas, facas, fouets e formas de bolo substituem à altura os tamborins e atabaques. Lembrando que o avental é minha fantasia preferida (ou seria o meu abadá?).
Mas nem sempre foi assim. Tenho memórias do tempo da delicadeza: lembro da minha bisavó, a Dinha Donana, na cadeira de balanço, costurando a mão uma fantasia de pierrot para o tio Maneco. Era azul com pontinhos brancos. Foi vestido de pierrot que ele nos levou para brincar no carnaval infantil da Mesbla. A loja já não existe mais; minha bisavó e meu tio também não. Sobrou a lembrança doce e delicada.
Mudando o rumo da prosa, tem fofoca correndo solta no mundo da música. Dizem as más línguas que a Ivete Sangalo anda furiosa. Ficou sabendo que a rainha do rebolado, a Gretchen, promete dominar o Carnaval 2026 com o relançamento de seu clássico “Freak Le Boom Boom”. Foi lançada em 1979. E pasmem! Se você tem mais de 20 anos, essa você conhece. “Boom, boom, boom …” está de roupa nova. Ganhou batida carnavalesca. Está em todos os streamings. Viralizada.
Entre nostalgia e inovação, “Freak Le Boom Boom” volta com força total e promete animar blocos, trios elétricos e playlists, consolidando a Gretchen como ícone eterno da cultura pop brasileira. Ivete que se cuide. Ah! Deixa pra lá. Deixa pra quem é do babado.
Eu, que não sou de fofoca, recomendo que neste Carnaval você passe longe do disse me disse. Apenas abstraia. Leia Socorro Acioli. Seu primeiro livro, “Oração para desaparecer”, é avassalador. Agora estou mergulhada, ou melhor, vivenciando “A Cabeça do Santo”. Descobri que o realismo fantástico é muito a minha praia. Não por acaso, “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez, também está na minha lista de inesquecíveis.
Mas não pense que vivo só de realismo fantástico. Caminho por outros estilos, a exemplo de “As vinhas da ira”, de John Steinbeck. Esse me marcou demais. Foi presente do meu amigo Paulo Marcelo. Tem ainda “A guerra do fim do mundo”, de Mario Vargas Llosa, e, ainda, “Os sertões”, de Euclides da Cunha. Embora os dois últimos tenham como pano de fundo a Guerra de Canudos, as obras são completamente diferentes. Volta e meia, trechos dessas leituras me vêm à cabeça. Tornaram-se parte de mim.
Concluindo essa prosa sem pé e nem cabeça, Carnaval é isso: cada um encontra sua própria batida. Se você gosta, se jogue na folia. Os blocos estão por todos os lados. Outros, como eu, se refugiam nas panelas ou nos livros. Entre bebidas novas, memórias antigas, hits que ressurgem e histórias que permanecem, a festa segue viva, dentro e fora de nós. E eu sigo no meu bloco particular. Nele, a folia é feita de palavras, lembranças e sabores que nunca saem de moda.
*Gisele Bicalho é jornalista

