Guerra EUA, Israel e Irã no Oriente Médio- créditos: Bog do Esmael
05-04-2026 às 13h10
Prof. Dr. João Alfredo Nyegray*
Um mês após o início dos ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o cenário internacional revela um conflito que evoluiu muito além das expectativas iniciais. Para o professor João Alfredo Nyegray, professor do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o que se observa neste primeiro mês de guerra é a rápida transição de uma operação militar pontual para um confronto com efeitos sistêmicos.
Segundo Nyegray, a reação do Irã foi amplamente subestimada por analistas e formuladores de política. “Havia uma expectativa de que o Irã teria uma resposta limitada ou enfrentaria instabilidade interna. O que vimos foi o oposto: uma resposta coordenada, com uso intensivo de mísseis, drones e ativação de aliados regionais, ampliando o conflito e elevando o custo estratégico para seus adversários”, afirma o professor.
Na avaliação do especialista, esse comportamento revela uma lógica central do equilíbrio de poder: mesmo atores com menor capacidade militar convencional podem compensar essa assimetria por meio de estratégias indiretas. “O Irã demonstrou capacidade de transformar vulnerabilidade em poder de pressão. Isso altera o cálculo estratégico de Estados Unidos e Israel”, destaca.
No plano geopolítico mais amplo, o professor Nyegray chama atenção para a atuação de Rússia e China. Embora não participem diretamente do conflito, ambos os países desempenham um papel relevante ao limitar o isolamento do Irã e reforçar a dinâmica de um sistema internacional cada vez mais multipolar. “A guerra evidencia que grandes potências não estão dispostas a permitir que uma única potência defina os resultados de crises regionais. Rússia e China operam como contrapesos indiretos, ainda que de formas distintas — Moscou mais alinhada politicamente e Pequim mais pragmática, sobretudo em função de seus interesses energéticos”.
Os efeitos econômicos da guerra já se fazem sentir de maneira significativa. O petróleo voltou a ultrapassar os US$ 100 por barril, impulsionado tanto por riscos à oferta quanto pelo aumento do prêmio geopolítico. A instabilidade no Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do fluxo energético global —, intensifica as preocupações com abastecimento e logística.
De acordo com o professor , “o impacto vai muito além do preço do combustível. Trata-se de um choque que se espalha por cadeias produtivas inteiras, afetando transporte, alimentos, indústria e inflação global. É a geopolítica entrando de forma direta no custo de vida”.
Nesse contexto, o Brasil apresenta uma posição relativamente diferenciada. Nyegray destaca que a estrutura consolidada de biocombustíveis no país atua como um amortecedor parcial. “O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma matriz energética mais diversificada. O etanol e o biodiesel reduzem a dependência direta do petróleo e suavizam o impacto no consumidor”, explica.
Ainda assim, o especialista alerta para limites dessa vantagem. “Os biocombustíveis não eliminam o problema. O diesel continua sendo um ponto de vulnerabilidade, e o país segue exposto ao aumento de custos logísticos e à inflação global. O que o Brasil tem é uma vantagem relativa, não uma blindagem”.
Para Nyegray, o primeiro mês de guerra já deixa claro que o conflito transcende o campo militar. “Estamos diante de um episódio que revela as transformações da ordem internacional. Energia, segurança e poder continuam profundamente interligados, e as empresas e governos que não incorporarem essa dimensão geopolítica em suas decisões estarão cada vez mais expostos a riscos”, conclui.
*Prof. Dr. João Alfredo Nyegray é professor dos cursos de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)

