
Uma vida em um ritmo exageradamente frenético, perturbador, pode resultar na perda de tempo de qualidade. CRÉDITOS: Freepik
Getting your Trinity Audio player ready...
|
02-04-2025 às 10h10
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
A vida humana se mostra, por vezes, com algum sentido, vai acontecendo e sendo narrada. As conclusões são resultantes de cadeias de acontecimentos com ordenações lógicas e pitadas de aleatoriedades. Há o tempo da preocupação e da despreocupação, da agitação e do deixar fluir.
Uma vida em um ritmo exageradamente frenético, perturbador, pode resultar na perda de tempo de qualidade para a reflexão, a síntese. Quem acelera muito perde a pausa, o descanso. Tudo se constrói e reconstrói, mas o olhar atento permite o lapidar. O repouso revigora as energias.
Por vezes, importa mais o não fazer que o fazer. O silêncio é vital. Quando a fala cessa, gritam as possibilidades.
Byung-Chul Han em seu livro “Favor fechar os olhos: em busca do tempo perdido” retrata a necessidade do silêncio, das coisas falarem por si mesmas, do demorar-se que permite a contemplação. Adverte que quem tudo quer ver, esgota-se. Os excessos cansam, tornam tudo demasiadamente repetitivo. Causam desatenção.
A aceleração desmedida resulta na dificuldade atual que tem o sujeito de concluir raciocínios e encerrar falas, o que empobrece a articulação. Não há direção, mas muita confusão. No livro, cita-se, o exemplo da insônia como a incapacidade de concluir, colocar um ponto final nas tarefas. Acaba adormecendo o sujeito por exaustão, excessivo cansaço, não porque simplesmente um dia acabou e outro começará.
O tempo e espaço se comprimiram, as coisas escapam rápido, o atual é efêmero. Acelera-se a velocidade, reduz-se a profundidade de compreensão. Perde-se o senso de direção. Ademais, a capacidade de pensar, parar, refletir e concluir está em falta, não há análise crítica. Agrada o barulho, a frenética busca por sabe-se lá o que.
Pensar com propriedade e de modo reflexivo carece de hiatos de silêncio e solitude, mas na contemporaneidade o turbilhão impede a conclusão.
Encerrar para recomeçar é vital, mas cada vez mais isto é pouco acessível. O fim de um dia de trabalho deveria ser um momento de fechamento para sua reabertura em breve. Quem está a todo tempo conectado, atento, não se permite o recarregar. Pausas não são sinônimo de fechamentos, são tempos de respiro.
Os trabalhadores na pós-modernidade, em sua maioria, perderam os marcadores entre o início e fim do expediente, o smartphone eterniza a jornada, não há mais o tempo do término, da conclusão do dia. O trabalho tem estado presente nas férias, no relacionamento, na hora de dormir. Não há mais o tempo de regenerar, revigorar as forças. Todos são reféns da tecnologia alienante de estar conectado 24 horas por dia.
Repousar, fechar circunstâncias abertas, pretéritas, é um devaneio, no máximo o sujeito desacelera, para em seguida acelerar de novo. Não se divide os tempos em começo e fim, mas há um “ir adiante” que se eterniza. Porém, quando não há começos e finais demarcados é mais difícil estar bem.
Byung-Chul Han afirma que o tempo está acelerado e se esvai sem conteúdo algum. Não há o momento dos rituais e seus fechamentos. Tampouco diálogos com abertura para propiciar sínteses. Também são dificultosas as trocas de pontos de vista. A rede social não propicia intercâmbio de ideias, apenas likes com validação de quem pensa parecido. É tempo de inconclusões, as narrativas não se fecham, os rituais não acontecem. Tudo está em aberto.
O risco da excessiva aceleração é a ausência de conclusão. Tudo está mais raso, superficial e caótico. É tempo de resgatar para além das pausas, os marcadores de início e fim.
* Daniela Rodrigues Machado Vilela é doutora, mestra e especialista em Direito pela UFMG. Residente
Pós-doutoral pela UFMG / FAPEMIG. Professora convidada no PPGD-UFMG. Diletante na arte da pintura.