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06-01-2026 às 08h20
Solange Mendes*
Domingo está cada dia mais perto, o fim do mês chega, que nem precisa o mês acabar, e quando menos se espera vem dezembro e Natal. Janeiro é nosso aniversário e quando num piscar de olhos parar para ver, vamos estar os dois, nessa porta com 70, depois 80!
Eu vou olhar para o outro lado da rua e um senhorzinho enrugado, de cabeça branca, será você, e eu nem quero me imaginar…
Há uns anos, velhice e morte estavam longe de mim, mas agora morro um pouco a cada dia quando acordo e sei que aquele já pode ser o último.
Os 67 que já vivi é muito tempo para viver novamente. Se olhar para trás, o distanciamento do tempo não tem mais tempo. Se para os pequenos falta muito para um tanto de coisas, para mim um tanto delas já passaram e as novidades já não têm o mesmo glamour. Tudo se transforma num dejavu, numa normalidade que os dias mornos como nos livros que li, só fazem o ar ficar mais parado, as folhas quietas na janela e a vida correndo…
Quando acordo fico um tempo meditando, agradecendo e vendo o clarão do dia. Gosto de pensar nos netos e bisnetos, pensar no que vou almoçar, e no primeiro remédio do dia. Olho minha bagunça organizada, meu quarto cheio de possibilidades de costura, bordado, leitura e, como lagartixa que resolve ficar ao sol, fico aqui apreciando meus pensamentos. Penso, penso, resolvo ver na TV um filme, uma entrevista, ou então uma música boa, danço, canto junto e resolvo sair, dar uma volta…
Paro para conversar com o verdureiro, com o menino da farmácia, com a dona que puxei assunto no supermercado… Adoro conversar com qualquer pessoa, sobre qualquer coisa, isso já me fez tomar uns pitos de minha neta, mas não me importo, enquanto isso o tempo continua voando e passando igual poste na estrada quando viajamos de ônibus.
E a lua? Já parou para perceber que a lua te segue na estrada? Experimente numa noite de lua cheia olhar a lua e ela vem atrás na mesma velocidade do carro… Já vi muitas luas andarem comigo!
Mas, voltando ao tempo, acho um saco ser mantida com remédios: remédio para colesterol, para diabetes emocional, um que tomo e não lembro para quê (Puran), e no final são seis remédios por dia. Aí vem vitamina D, colágeno para os ossos e cartilagens; e eu, que tomo tudo de uma vez, não sei como faz lá dentro da barriga, para cada um ir para uma coisa, mas que é muito é!
Voltando ao tempo, me falta mais tempo para a frente, porque o para trás já vivi, e agora quero que dê tempo para um tanto de coisas que ainda quero fazer: viajar, morar fora, aprender tocar violão, aprender inglês, que desde quando ouvi Gal cantando “Baby”, encasquetei para aprender; mas até hoje nem espanhol, com o esforço da minha filha, que é professora da língua, eu aprendi.
E o tempo, rápido como foi essa chuva que acabou de cair, e que esperávamos há dias, insiste em passar… Quanto tempo terei para a frente, não sei, para trás eu sei, e foi muito bom. Agora nesse momento, o que eu quero mesmo é parar de escrever bobagem, sair do lugar que Tadeu afirma que é o dele na cama e ir ali, tomar um banho frio, pois nem deu tempo de descer para tomar um banho na chuva. E depois tomar um chá de jasmim, me deitar, dormir, sonhar e esperar que amanhã o tempo fique comigo por mais um dia, e que por vários outros, mesmo com pressa, ele passe por mim, aqui.
*Solange Mendes

