Pedro Édson Cabral Vieira e Juliana Duarte, sua esposa - créditos: Arquivo particular
19-02-2026 às 15h05
Dídimo Teodoro de Piônio
Um sujeito do gênero “professor”, da espécie “professor da UFMG”, foi protagonista
de “ato de ofensa e discriminação contra pessoa com deficiência” (UFMG. Nota à
comunidade. 14-2-2026).
1 O ofendido, o discriminado, é cadeirante e o “episódio” (UFMG. Nota à comunidade.
14-2-2026) é mais um capítulo da epopeia da construção de uma sociedade
solidária, propósito fundamental da República Federativa do Brasil (CRFB/1988, art.
3º, I).
Tomando 1988 como ponto de partida para a defesa do bom-trato social, foram
quarenta e seis anos de luta contra o beligerante descarado, descortês, desleal,
enganador, farsante, hipócrita, imoral e traiçoeiro. Quatro décadas e meia e um
rosário de histórias de heróis submetidos ao ‘você sabe com quem está falando?’, o
mote predileto do abusador prepotente, do agressor arrogante.
O ‘episódio’ reflete o lado mais perigoso da cultura brasileira, em que grande parte
da população aceita violência como forma de relacionamento. É o mesmo grupo que
elogia o ‘rouba, mas faz’ e se diverte com sobrepreço e superfaturamento; que
compra e vende voto. É o mesmo grupo etnocêntrico (crente na superioridade da
própria cultura), intolerante (incapaz de aceitar a diferença) e excludente (que nega
o direito de existir), que se relaciona com cadeirante alternando discriminação hard e
tolerância light, aspectos potenciais de sua maneira bipolar de atuação.
Há, nesta parcela da população, um estatuto moral e, portanto, político, que proíbe
maltratar cadeirante em qualquer circunstância, mas que, em sendo o caso, permite
humilhá-lo a qualquer momento. É a arte de manter cadeirante sob constante risco.
Risco de, no mesmo segundo em que é tratado como gente, ser reduzido à condição
de sub-humano por precisar de rodas adaptadas a uma cadeira para se locomover.
A rigor, é o seguinte: cadeirante em local público não é passível de punição, desde
que sua voz não seja ouvida. Esse é o costume em voga, a vibe (do inglês, vibration,
ambiente, atmosfera, situação), que depende, apenas, de um pequeno gesto para
se transformar em perseguição sistêmica, temporada de caça.
Em resumo: ‘Ô, cadeirante, você pode rodar de cá para lá, de lá para lá, mas não
pode levantar-se, nem mesmo pelo poder de Jesus Cristo, se é que me entende.’
2 DO “EPISÓDIO” E DA REAÇÃO
Em 12-2-2026, Pedro Édson Cabral Vieira e Juliana Duarte, sua esposa, depararam-
se com “um carro parado na faixa de pedestres, impedindo o acesso à rampa de
cadeirantes” e, por consequência, ao restaurante para onde se dirigiam. No “bar em
frente”, a mulher identificou o proprietário, o “professor”, e pediu-lhe a retirada do
veículo.
Juliana: – Você não tem vergonha de causar tanto incômodo a uma pessoa com
essas limitações, um cadeirante?
“Professor”: – Não. Sou escroto, mas vou tirar o carro.
Não conheço o “professor”, mas desconfio que, durante anos, ele tenha exibido seu
narcisismo em salas de aula da UFMG, em corredores da Escola de Engenharia e
nos bares da vida. Que seus alunos brincaram com o comportamento ‘excêntrico’ do
mestre. Que, num momento ou noutro, seus colegas aplaudiram suas ‘manias’. Que
seus parceiros de mesa não deixaram de celebrar algumas de suas ‘peculiaridades’.
Se, agora, dissessem que nada justifica comportamento selvagem, seria mero
oportunismo. Se declarassem que imbecil tem de pagar, seria para livrar a própria
cara. Pugnassem por condenação da estupidez pública e a peleja seria, apenas, por
vaidade.
Juliana contou que o “professor” retirou o veículo e, ao sair do carro, aproximou-se
do casal e disse: – Tchau, cadeirante! Espero que você ande muito por aí.
Esse “espero” do “professor” pode ser interpretado como seu desejo de que, assim
que Pedro virasse a esquina, a horda emergisse da boca de lobo, insultando-o,
batendo nele, arrastando-o pelo chão, pilhando-o, apedrejando-o e encarcerando-o
sem a esposa, na coletora de esgoto.
Mais tarde, o “professor” voltou à presença de Juliana e disse: – “E, aí, ele voltou a
andar?”, virou-se e foi embora.
Nem marido nem esposa recearam que o outro sucumbisse, que lhe faltasse
coragem diante do torturador, que, apesar da alma ferida, não tivesse força para
resistir à dor da injustiça praticada por “professor” que não sabe respeitar faixa de
pedestre e desconhece a relação entre rampa e acessibilidade. Pedro e Juliana
serviram de exemplo um para o outro e, juntos, esmagaram o moral do “professor”.
Em face disso, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais manifestou “repúdio
firme e inequívoco a toda e qualquer prática que viole a dignidade humana, estimule
preconceito ou desrespeito pessoas em razão de suas condições pessoais, sociais
ou físicas”.
A Ordem dos Advogados do Brasil Seção Minas Gerais repudiou “qualquer forma de
preconceito e capacitismo”, comprometeu-se “com a defesa intransigente dos
direitos das pessoas com deficiência” e colocou-se “à disposição para as
providências cabíveis”.
O Diretório Acadêmico da Escola de Engenharia da UFMG e o Diretório Central dos
Estudantes da Universidade Federal de Minhas Gerais manifestaram “solidariedade
à família e à pessoa diretamente afetada, reconhecendo a gravidade do relato e o
impacto humano de situações como essa” e colocaram-se “à disposição para
contribuir, dentro das atribuições das entidades estudantis, com o acompanhamento
institucional do caso e com o fortalecimento de uma Universidade cada vez mais
inclusiva, acessível e comprometida com o respeito a todas as pessoas”.
O Ministério Público do Estado de Minas Gerais repudiou, “veementemente qualquer
atitude capacitista” e reforçou “compromisso com a defesa dos direitos das pessoas
com deficiência, da acessibilidade e da dignidade humana”.
O Estadão noticiou que a UFMG abriu “investigação sobre supostas ofensas de
professor de engenharia contra cadeirante” a acrescentou que a “Universidade
prometeu rigor na apuração dos fatos”.
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Quanto ao “rigor” prometido pela UFMG, suponha-se que, de fato e durante anos, o
“professor” tenha exalado narcisismo por suas salas de aula e corredores. Então, se
isso for verdade, que esse elemento de acusação venha à tona para que se possa
provar que o “professor” fez o que fez porque sempre foi “escroto”.
E, já que ninguém é “escroto” sem plateia, será necessário colher depoimentos de
alunos que não brincaram com sua ‘excentricidade’, porque os demais são da
mesma qualidade e capazes de coisa parecida. E de seus colegas acadêmicos que
não aplaudiram suas ‘manias’, pois os que as cultuaram são idênticos em
capacitismo.
Para além de “apuração”, a UFMG deveria aproveitar a oportunidade para enfrentar
os ‘coletivos’ que, dentro da Universidade, promovem e executam ‘escrotidões’
semelhantes à praticada pelo ‘professor’, que, aliás, sobrevive naquele ambiente
porque o local lhe oferece palco para ‘escrotice’. Agora, que sua ‘escrotidão’ veio a
público e deixou claro que a UFMG acolhe esse tipo de gente, pode ser que ele
passe a ter algo a ensinar à sociedade sobre critérios básicos para promoção da
acessibilidade de pessoas portadoras de deficiência ou mobilidade reduzida (Lei n.
10.098/2000).
Passeios públicos destinados somente a circulação de pedestres (art. 3º, parágrafo
único).
Instalação de serviços e mobiliário urbano adaptados (art. 4º).
Vagas reservadas para veículos que transportem pessoas portadoras de deficiência
com dificuldade de locomoção (art. 7º).
Etc.
4
Eis, UFMG, o sentido da ira de seu “professor”: ele considerar-se-ia criminoso se
não tratasse Pedro Édson Cabral Vieira com grosseria, porque, a seu juízo,
cadeirante é inimigo do ser humano e agredi-lo seria nada mais do que ato de
justiça.
Portanto, chegou a hora de a UFMG ministrar civilidade à sua comunidade
acadêmica (estudantes, professores e servidores), pois, por mais narcísica que seja,
uma instituição de ensino, pesquisa e extensão não pode existir sem agentes e
representantes primorosamente respeitosos, educados e acessíveis.
*Dídimo Teodoro de Piônio é professor

