Ricardo Lewandowski com mais de 75 anos de idade, ex-ministro do STF e ministro da justiça deixa governo Lula - créditos: divulgação
06-01-2026 às 15h40
Samuel Arruda*
Brasília, 6 de janeiro de 2026 — O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, comunicou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva sua decisão de deixar o comando da pasta, encerrando um ciclo iniciado em fevereiro de 2024. A saída, que deve ser oficializada nos próximos dias, ocorre em meio a um cenário de desgaste político, dificuldades de articulação no Congresso Nacional e avaliações internas de que a gestão não conseguiu avançar em pautas consideradas prioritárias pelo Palácio do Planalto, especialmente na área de segurança pública.
Segundo integrantes do governo, Lewandowski já vinha manifestando, desde o final de 2025, cansaço pessoal e disposição para deixar o cargo. Embora a troca estivesse inicialmente prevista para ocorrer apenas em fevereiro, a antecipação do desligamento teria sido motivada pelo acúmulo de impasses políticos e pela pressão crescente em torno da condução da política de segurança, tema que ganhou centralidade no debate público com a proximidade das eleições de 2026. Auxiliares do presidente relatam que Lula tentou convencer o ministro a permanecer por mais algum tempo, mas acabou aceitando a decisão diante do entendimento de que o desgaste poderia comprometer ainda mais a agenda do governo.
Um dos principais fatores apontados para a saída de Lewandowski foi a dificuldade de avançar com a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, considerada o carro-chefe de sua gestão. A iniciativa buscava ampliar o papel da União na coordenação das políticas de segurança e integrar sistemas de informações criminais, mas encontrou forte resistência no Congresso, especialmente entre governadores e parlamentares que viam a proposta como uma interferência federal excessiva nos estados. A falta de apoio político para destravar a PEC acabou frustrando expectativas do Planalto e reforçou a avaliação de que a pasta precisava de um novo perfil à frente de suas negociações.
Além disso, divergências internas sobre a estrutura do Ministério da Justiça também contribuíram para o enfraquecimento da posição do ministro. Setores do governo defendem a divisão da pasta, separando Justiça e Segurança Pública, como forma de dar maior visibilidade e prioridade ao combate à criminalidade. Lewandowski, no entanto, resistia à ideia, argumentando que a separação poderia fragmentar a atuação da Polícia Federal e prejudicar a integração entre políticas jurídicas e de segurança, o que acabou gerando atritos com integrantes do núcleo político do governo.
Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, onde atuou por 17 anos, Lewandowski assumiu a Justiça após a saída de Flávio Dino, indicado para o STF. Sua passagem pelo ministério foi marcada por um perfil técnico e institucional, com foco em temas jurídicos e na defesa de garantias constitucionais, mas também por críticas de aliados do governo quanto à falta de respostas mais contundentes para problemas de segurança pública nas grandes cidades, área considerada sensível do ponto de vista eleitoral.
Com a saída de Lewandowski, o presidente Lula avalia nomes para assumir a pasta e imprimir uma nova dinâmica à política de segurança do governo. Entre os cotados estão o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, além de lideranças políticas com maior trânsito no Congresso Nacional. A expectativa no Planalto é de que a mudança permita ao governo reorganizar sua estratégia e apresentar resultados mais concretos em um tema que deve ocupar lugar central no debate político ao longo de 2026.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

