Sustentabilidade e governança ambiental - créditos: Sebastião Carlos Mantis
16-02-2026 às 11h16
Sebastião Martins*
Durante décadas, o Brasil tratou os resíduos sólidos urbanos como um problema periférico, a ser administrado por soluções paliativas e de curto alcance. Aterros sanitários, apesar de necessários em determinados contextos, tornaram-se o eixo central de uma política que, na prática, apenas transfere o problema no tempo, mantendo passivos ambientais, custos crescentes para os municípios e emissões contínuas de gases de efeito estufa, especialmente metano.
Essa abordagem, hoje, mostra-se claramente insuficiente diante dos desafios ambientais, energéticos e econômicos enfrentados pelo país. O crescimento urbano, a pressão sobre os sistemas de saneamento, a instabilidade das cadeias globais de energia e fertilizantes e os compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito climático exigem uma mudança estrutural de paradigma.
O que raramente é colocado de forma clara no debate público é que os resíduos não representam apenas um problema de gestão ambiental. Eles constituem, na realidade, uma das mais abundantes e estratégicas matérias-primas disponíveis no território nacional. Resíduos urbanos, biomassa agrícola, rejeitos minerais e subprodutos industriais possuem características que poucas commodities energéticas oferecem simultaneamente: geração contínua, previsibilidade de oferta, proximidade dos centros consumidores e independência de fatores geopolíticos externos.
Quando corretamente tratados, esses materiais deixam de ser passivos e passam a ser ativos produtivos, capazes de alimentar cadeias industriais modernas voltadas à produção de biocombustíveis avançados, energia e
fertilizantes. A engenharia contemporânea já permite converter esses resíduos em biodiesel, diesel renovável, etanol de segunda geração, hidrogênio verde, energia elétrica e fertilizantes organominerais, produtos essenciais tanto para a transição energética quanto para a segurança alimentar do país.
O histórico de insucesso de diversos projetos associados a biocombustíveis e Waste-to-Energy no Brasil e no exterior, frequentemente citado como argumento contrário a essas soluções, precisa ser analisado com maior precisão. Como demonstrado nos estudos desenvolvidos ao longo dos anos pelo Engenheiro Sebastião Carlos Martins, o fracasso desses empreendimentos raramente esteve associado à tecnologia em si. Na maioria dos casos, a origem do problema residiu na ausência de metodologia adequada de análise econômico-financeira e de gestão de riscos.
Modelagens determinísticas, baseadas em premissas fixas para variáveis intrinsecamente voláteis — como produtividade, preços de venda, CAPEX e OPEX — produziram cenários artificiais de viabilidade. Ao ignorar a incerteza real do mundo físico, econômico e institucional, esses projetos se tornaram frágeis desde a concepção, ainda que tecnicamente sofisticados.
É justamente essa lacuna que o livro Lucro Verde se propõe a preencher. A obra sistematiza uma abordagem estruturada que integra três pilares indissociáveis para a viabilização de projetos baseados em resíduos: engenharia econômico-financeira rigorosa, segurança jurídica e governança profissional da implantação.
No campo econômico-financeiro (estudo de pré viabilidade econômico- financeira), destaca-se o uso da Simulação de Monte Carlo como ferramenta central para revelar incertezas ocultas, quantificar riscos críticos e avaliar a real distribuição probabilística da Taxa Interna de Retorno, do Valor Presente Líquido e do payback. Essa abordagem rompe com a falsa segurança das médias e permite decisões de investimento baseadas em risco real, não em cenários idealizados.
No plano institucional e jurídico, os estudos reforçam o papel das Parcerias Público-Privadas como instrumento fundamental para a correta alocação de riscos, a garantia de suprimento de resíduos, a previsibilidade de receitas e a segurança necessária para atrair capital privado e financiamento de longo prazo. A estruturação adequada desses contratos transforma o problema do lixo em uma solução integrada de política pública e desenvolvimento industrial.
Já no eixo da implantação, a adoção das boas práticas de gerenciamento de projetos, conforme os referenciais mais recentes do PMBOK, surge como condição indispensável para o controle de custos, prazos e desempenho operacional. Muitos projetos falharam não por concepção equivocada, mas por execução deficiente, sem governança, métricas claras e disciplina técnica.
Os impactos positivos dessa abordagem integrada vão muito além da esfera ambiental. A valorização energética e material dos resíduos contribui diretamente para a redução das emissões de gases de efeito estufa, para a diminuição da dependência de combustíveis fósseis importados e para o fortalecimento do agronegócio por meio da produção interna de fertilizantes. Além disso, cria empregos industriais qualificados, estimula cadeias produtivas regionais e amplia a base econômica dos municípios.
Nesse contexto, a discussão sobre incentivos fiscais precisa ser tratada com maturidade técnica. Reduções seletivas de tributos não configuram subsídios improdutivos, mas instrumentos clássicos de indução econômica, amplamente utilizados no desenvolvimento de setores estratégicos como energia eólica, solar e infraestrutura. Ao reduzir o risco inicial e o custo de capital, esses mecanismos viabilizam projetos que, de outra forma, não sairiam do papel, retornando ao Estado na forma de arrecadação ampliada, empregos e externalidades positivas.
O Brasil reúne, hoje, todos os elementos (ver o livro Lucro Verde) necessários para transformar resíduos em um dos pilares de sua transição energética: matéria-prima abundante, tecnologia disponível, capital interessado e necessidade ambiental urgente. O desafio que permanece não é técnico, mas decisório.
Transformar resíduos em energia, biocombustíveis e fertilizantes não é apenas uma alternativa ambientalmente correta. Trata-se de uma estratégia de soberania energética, segurança alimentar e desenvolvimento econômico sustentável, capaz de posicionar o país como protagonista de uma nova economia de baixo carbono, baseada em engenharia, método e racionalidade econômica.
*CEO da DBEST PLAN– Eng. Sebastião Carlos Martins E-mail: scm.sistemas@gmail.com

