Faz o Bem produziu o primeiro e único queijo Canastra com certificação orgânica da região. Créditos: Arquivo pessoal.
26-01-2026 às 12h15
Direto da Redação*
Às margens do Ribeirão Araras, afluente do Rio São Francisco, uma pequena propriedade rural em Piumhi, na Serra da Canastra, tornou-se referência ao demonstrar que produzir o tradicional queijo, que leva o nome da serra, pode ir além da conquista de paladares mundo afora. À frente da Queijaria Faz o Bem, criada em 2021, o engenheiro agrônomo Vinícius Soares conduz uma propriedade agroecológica que combina produção artesanal, recuperação ambiental e integração de sistemas produtivos para fazer queijo de forma sustentável.
De uma área com 25 hectares, 44% estão preservados com mata nativa. No restante, ele implantou um sistema de manejo regenerativo que integra pastagem, agrofloresta, bem-estar animal das vacas que produzem o leite, e aproveitamento total dos subprodutos do queijo. “A proposta é melhorar o ambiente onde estamos inseridos, beneficiando as futuras gerações”, afirma.
Natural de Piumhi, Vinícius fez graduação em Agronomia, na cidade de Viçosa, e trabalhou em grandes empresas como Danone e Itambé. Durante a pandemia, passou por um processo de amadurecimento pessoal e profissional que o motivou a deixar a carreira estável e com bom salário, para voltar às suas raízes e se dedicar integralmente ao projeto da queijaria na propriedade rural da família. “Estar perto dos meus pais, e poder almoçar com minha filha tem muito valor. Ver o que construímos até aqui é muito gratificante”, frisa.
Produção agroecológica e pecuária regenerativa
A experiência profissional contribuiu para investir na qualidade do produto. Os queijos da Faz o Bem são produzidos com leite cru e fermento natural, permitindo a degradação natural da lactose durante a maturação, o que resulta em produtos zero lactose. Além disso, a propriedade possui o Selo Queijo Artesanal, que autoriza a comercialização em todo o território nacional.
Na propriedade não se utiliza agrotóxico no pasto, nem medicamentos químicos nos animais. O manejo é agroecológico, com práticas regenerativas que buscam melhorar o solo, a água, a biodiversidade e o microclima da área. Um dos exemplos mais claros é a utilização do soro, um dos subprodutos do queijo, para alimentar os porcos da raça crioula Piau. “O soro deixa de ser um passivo ambiental e passa a fazer parte do sistema. Os animais são criados soltos em uma área de quase dois hectares, em um modelo integrado ao restante da propriedade”, explica.
Outro destaque é o sistema silvipastoril intensivo (manejo sustentável que integra árvores, pastagem e gado na mesma área). São 3,4 hectares de pastagem rotacionada com árvores, arbustos, gramíneas e leguminosas. Em pouco mais de três hectares, já foram plantadas cerca de 800 árvores e centenas de arbustos. “Daqui a cinco ou dez anos, poderemos dizer que produzimos queijo debaixo de uma floresta”, afirma.
Fortalecimento da marca e identidade do queijo da Canastra
Durante sua trajetória na gestão da fazenda, o empreendedor ressalta o apoio do Sebrae Minas na criação e gestão da marca da queijaria, além do trabalhado intenso para a estruturação da marca coletiva e da Indicação de Procedência do queijo da Canastra. Além disso, a queijaria integra o projeto de turismo Rotas da Canastra, liderado pelo Sebrae na região. “Fazemos parte da rota do café, queijo e cachoeiras. É um suporte constante para colocar nossos produtos no mercado e manter viva a tradição do Queijo Minas Artesanal”, diz.
Entre 2023 e 2025, a Faz o Bem produziu o primeiro e único queijo Canastra com certificação orgânica da região. O Selo foi concedido pelo Instituto de Biodinâmica (IBD), certificadora registrada no Ministério da Agricultura, com apoio do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Agroindústria.
Apesar do pioneirismo, a produção orgânica é um grande desafio. “Ficamos certificados por cerca de três anos, mas optamos por não seguir, uma vez que as restrições de insumos impactavam diretamente no desempenho do rebanho. Não podíamos usar milho e soja transgênicos. As vacas produziam em torno de 8,5 a 9 litros por dia. Quando deixamos o orgânico, essa média subiu para 14 litros por vaca/dia”, explica. Mesmo sem o selo, o manejo segue agroecológico e regenerativo.
Qualidade premiada e propósito sustentável
Produzir com excelência rendeu também a conquista de importantes premiações. Em 2022, com apenas um ano de produção, a Faz o Bem levou medalhas de Prata e Bronze no Mundial do Queijo do Brasil. “Foi como passar no vestibular. Tivemos certeza de que estávamos no caminho certo”, lembra. Em setembro de 2025, a queijaria ficou em segundo lugar na categoria Queijos de Casca Florida Natural, no 18º Concurso de Queijos Artesanais de Minas Gerais.
Para os próximos anos, o produtor não pensa em volume, deseja ser reconhecido por desafiar os modelos convencionais de produção e consumo de alimentos. “Nosso objetivo é consolidar a queijaria como referência em impacto ambiental positivo, bem-estar animal e inspiração para outros produtores. Quem sabe, ser uma fazenda modelo, uma área experimental para produtores, estudantes e interessados”, ressalta.
Conheça mais sobre a Faz o Bem – Queijaria Agroecológica: @fazobemqueijaria
Endereço: Rodovia LMG 824 – KM 5, Zona Rural, Piumhi
Contato: (35) 99806-8516

Vinícius Soares conduz uma propriedade agroecológica que
combina produção artesanal, recuperação ambiental
e integração de sistemas produtivos. Créditos: Arquivo Pessoal

