Créditos: Divulgação
22-02-2026 às 16h32
Giovana Devisate*
As manifestações artísticas tocam a alma e arrepiam a pele. Um dos mais significativos exemplos, para mim, está no carnaval. Adoro o pulsar daquela energia que domina as ruas e alegra os corações de todos que gostam de festejar.
Ainda assim, eu poderia abordar outras manifestações e escrever um texto inteiro sobre como o expressionismo de Van Gogh corrói a minha existência, me despertando sentimentos quase indescritíveis, que me fazem imaginar, com certa convicção, o gosto das cores de suas obras.
Poderia, também, falar por horas sobre o efeito das luzes nos quadros de Monet que, em sua genialidade, nos coloca no lugar de meros humanos, assim como a Capela Sistina e a Pietà de Michelangelo ou as obras do Da Vinci. Estamos afastados deles não só pelo tempo, mas pela técnica, pela dimensão da capacidade criativa e da força fazedora.
Entrar em um museu também mexe comigo, me faz criança de novo, me faz querer percorrer os espaços com as pernas curtas e apressadas e os olhares atentos aos detalhes, enquanto a cabeça registra, imagina e sonha. A identificação acontece, mas não existe um laço que amarre a obra e o espectador. A gente sente, mas não é tão visceral, vivido, conectado.
A música, no contrário, me coloca em suspenso. Diferentemente de tudo, a música me faz entrar em transe, como se alinhasse os chacras e fosse capaz de elevar o espírito. Não sei explicar o que ela faz comigo, mas às vezes parece uma anestesia para a alma, para a existência inconsolável, para os conflitos do dia a dia…
Depois do carnaval, os dias chegam devagar. O que desejamos é descansar, começar a tal da quaresma, silenciar a mente e, finalmente, se reconectar com as próprias vozes, depois de tanto barulho e movimento. Ainda assim, sempre fica um gostinho de quero mais, de “que delícia que foi”, de vontade de viver tudo de novo. O carnaval é mesmo muito especial.
Para mim, ele é o ponto alto do ano, à frente até mesmo do meu aniversário: passo os dias vivendo a vida tranquila, pensando no próximo carnaval, na catarse, na alegria coletiva, no riso apoteótico, na batida da música que me faz andar a pé por horas sob sol e atravessar a cidade do Rio de Janeiro.
No Carnaval, a música é um elo invisível entre as pessoas que ocupam as ruas. Nos blocos, fechar os olhos e ouvir o batuque misturado às vozes em coro faz a alma arder. Uma energia vital se espalha, transformando tudo ali em combustível, mesmo quando o corpo já pede descanso.
Na Sapucaí, nada como uma avenida inteira cantando aos belos pulmões o mesmo samba-enredo, que também é uma ode às raízes, mas que conecta todos os apaixonados por carnaval, independentemente da religião. É de arrepiar o corpo todo. Luiz Antonio Simas fala que “escolas de samba e terreiros são, em larga medida, extensões de uma mesma coisa”.
A história do Rio é conectada com a do samba: as Pequenas Áfricas tinham casas-refúgio de negros libertos (como a da Tia Ciata) que acolhiam rodas de música e promoviam encontros para a prática de giras de religiões de matriz africana. Em uma época onde as celebrações e as giras eram reprimidas, essas casas transformaram-se em espaços fundamentais para a preservação da memória, da musicalidade e da espiritualidade afro-brasileira. Foi nesse ambiente de resistência que o samba se consolidou. É na resistência que ele continua se reinventando.
Um post recente da Julia Bastos, no Instagram, diz que “o povo aprendeu a esconder o sagrado dentro da alegria pra não perder nenhum dos dois”. Samba, portanto, é oração, é macumba, é enredo, é a história de muitas vidas. Também li que “o samba é filho do terreiro e que toda vez que ele toca, o terreiro está presente”. No entanto, acredito que não é só o samba que tem o poder de conectar a gente com o sagrado.
A música, em geral, carrega essa força ancestral. Desde que o mundo é mundo, a gente se reúne ao redor do som para celebrar solstícios, colheitas, caças, nascimentos e mortes. A música é o que nos move e o que nos reúne, é através dela que a gente se encontra, se reconhece, se olha nos olhos e se movimenta junto. Ela cria comunhão.
Tenho uma amiga muito especial cuja avó perdeu a capacidade da fala. Entre as duas, a música virou ponte, idioma e modos de dizer o indizível. Quando escutam músicas juntas é que elas se entendem. Passou a ser no encontro dos olhares a morada do “eu sei que você me ama”. Existem sentimentos que a música consegue alcançar mesmo quando as palavras não alcançam mais.
Eu, particularmente, nasci com música para amenizar o clima de um parto: minha mãe conta que, enquanto aguardavam a minha chegada, o médico ligou o rádio e colocou Kenny G para tocar. Entre as contrações, ela ouvia as pessoas conversarem sobre os gols do Ronaldinho na Copa de 98 (eu nasci em Julho daquele ano!) e o som do saxofone do artista instrumental mais vendido do mundo!
A gente se identifica com os outros por meio das músicas que ouvimos, então cantamos juntos aquela canção que amamos, saímos para dançar ou para assistir nossos artistas favoritos se apresentarem. As músicas traduzem sentimentos, marcam fases da nossa vida e ajudam a construir quem somos. Atualmente, temos criado playlists específicas para cada momento que vivemos. As novelas, os filmes e as séries que assistimos têm trilha sonora porque, entre muitos motivos, a nossa vida real também tem.
No carnaval, a vida pulsa tão forte através da música e da gente que se reúne para ser feliz junto, que dá para sentir o coração tremer, acompanhando a batida do surdo. O coração bate forte e a gente vive a alegria que essa época pode proporcionar, por causa dos sorrisos e das canções que ocupam as ruas da cidade. A música une essa gente toda.
Tem a coisa do arrepio quando a multidão canta, pula e vibra junto. Vira uma oração, que irradia energia e emana para os arredores e para o céu. É a maior macumba coletiva do planeta! Para fechar, vou trazer Simas novamente, que desejou “que a beleza dos nossos instrumentos, em suas múltiplas percepções da vida, possa soar como inclusiva harmonia da gente carioca em sua arte de fazer insistentemente a vida”.
Eu queria que essa energia gostosa do Carnaval durasse o ano todo, porque é quando podemos ser um pouquinho mais felizes, mesmo diante da dor e do sofrimento natural da vida. Somos dignos de sentir sempre o batuque que faz tremer o coração e nos lembra que estamos vivos. Ainda bem que a gente continua inventando, criando e driblando a escassez.
Que, ao menos dentro de nós, o Carnaval dure o ano todo.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

