Miguel Arraes, Eduardo Campos e João Campos - créditos: divulgação
05-03-2026 às 11h00
Samuel Arruda*
O Partido Socialista Brasileiro (PSB), legenda que carrega um dos mais emblemáticos legados da centro-esquerda brasileira, enfrenta em Minas Gerais um momento de encruzilhada política. Enquanto no cenário nacional o partido mantém relevância institucional — ocupando a Vice-Presidência da República com Geraldo Alckmin e preservando forte influência em Pernambuco sob a liderança de João Campos —, em território mineiro a sigla parece caminhar a reboque dos acontecimentos que definirão o destino político do Estado e, por consequência, do país.
A trajetória do PSB está profundamente associada à liderança histórica de Miguel Arraes, que reorganizou o partido após retornar do exílio e consolidou sua força política em Pernambuco. Seu neto, Eduardo Campos, ampliou essa presença ao governar o estado e projetar-se nacionalmente. Hoje, João Campos representa a continuidade desse ciclo político.
É inegável que o PSB construiu, sobretudo em Pernambuco, uma identidade política consistente e duradoura. Contudo, críticos apontam que essa concentração histórica de liderança também reforçou a percepção de um núcleo decisório excessivamente centralizado, com reflexos nas dinâmicas internas de outros estados, inclusive Minas Gerais.
No plano nacional, a tentativa de aproximação estrutural com o Partido dos Trabalhadores (PT) gerou rearranjos complexos. O PSB viu sua bancada federal encolher nos últimos ciclos eleitorais e passou a enfrentar o desafio de preservar identidade programática própria sem se diluir em alianças majoritárias. Embora a presença de Alckmin na Vice-Presidência tenha ampliado a vitrine institucional do partido, também trouxe a necessidade de redefinir discursos e prioridades, especialmente nos estados onde a legenda já não ocupa espaços estratégicos.
Em Minas Gerais, a situação é ainda mais sensível. Historicamente marcado por disputas internas e intervenções da executiva nacional, o PSB mineiro perdeu musculatura política nos últimos anos. A mudança de comando estadual e a substituição de lideranças tradicionais revelaram fissuras que ainda não foram plenamente superadas. O resultado é um partido que dispõe de quadros qualificados — ex-ministros, técnicos experientes e gestores com trânsito em Brasília —, mas que carece de articulação orgânica e estratégia eleitoral clara para 2026.
Preocupados com este quadro, um grupo de grande representatividade do partido em Minas Gerais, se reuniu esta semana para avaliar a situação e propor iniciativas que venham fortalecer o partido neste ano eleitoral; afirmou uma fonte que participou do encontro.
Nos bastidores, cresce a percepção de que o PSB de Minas não pode se limitar ao papel de coadjuvante nas próximas eleições estaduais. A eventual filiação do ministro Alexandre Silveira é vista como oportunidade concreta de reposicionamento. Trata-se de um movimento que, se confirmado, poderá oferecer ao partido densidade política e capilaridade institucional suficientes para reivindicar protagonismo na disputa ao governo, ao Senado ou na composição de uma chapa majoritária competitiva.
O desafio, entretanto, vai além de nomes. O PSB mineiro precisa reconstruir sua narrativa, fortalecer suas bases municipais e retomar o diálogo com segmentos sociais que historicamente dialogaram com o campo socialista democrático. Minas é um estado estratégico, de equilíbrio político delicado e influência nacional. Permanecer à margem do processo sucessório significará aceitar uma irrelevância que não condiz com a história da legenda.
Se quiser recuperar seu espaço, o PSB terá de demonstrar independência programática, capacidade de articulação e disposição para assumir riscos eleitorais. Caso contrário, continuará a assistir — e não a participar — dos movimentos que definirão o futuro político de Minas Gerais.
*Samuel Arruda é Jornalista e Articulista

