Créditos: Divulgação
10-04-2026 às 09h53
Bruna Vargas*
A conjuntura política em que o Peru chega às eleições de abril de 2026 é alarmante. O país que, em pouco mais de uma década, assistiu a oito ocupantes diferentes na presidência, vai às urnas sem lideranças consolidadas, sem projetos políticos que mobilizem o eleitorado e com grande parte da sociedade ainda sem candidato definido. Dentre dezenas de presidenciáveis, nenhum ultrapassa dois dígitos das intenções de voto. O quadro segue volátil e o cenário eleitoral pode mudar significativamente na reta final de campanha.
O segundo turno será decidido pelo critério da rejeição: o eleitor peruano escolherá o candidato que menos repudia. É o retrato de uma relação entre cidadão e política que se deteriorou ao longo de anos de rupturas, escândalos e ausência de entrega do mínimo à população.
Para entender o comportamento do eleitorado peruano, é preciso ir além dos números eleitorais. O Peru convive com altos índices de informalidade, acesso precário a serviços básicos e uma parcela expressiva da população sem perspectiva concreta de mobilidade social. Esse contexto molda diretamente a relação com a política. Uma parte significativa do eleitor não vota por projeto ou por identificação ideológica, vota pela sobrevivência, em busca de respostas concretas que o Estado historicamente não ofereceu.
A descrença, portanto, não é apenas eleitoral. É estrutural. Grande parte da população peruana não consome conteúdo político, não se engaja no debate e mal acompanha o processo. A antipolítica, em muitos países, é um protesto. No Peru é indiferença. E a indiferença é, talvez, o estado mais difícil de reverter.
Um eleitor que precisa aprender a votar
A complexidade deste pleito vai além da fragmentação partidária. O Peru retorna, nesta eleição, ao modelo bicameral. Surgem, com isso, cargos inteiramente novos para o eleitor: o Senado Nacional, cujos candidatos disputam votos em âmbito nacional, e o Senado Regional, mais parecido com o que existe no Brasil. Soma-se a isso à possibilidade de um mesmo candidato concorrer simultaneamente à Presidência e a outro cargo.
O resultado é uma cédula de votação extensa, com regras pouco intuitivas, num ambiente em que o eleitor já não confia no processo político. Ensinar o eleitor a votar tornou-se, literalmente, parte central da estratégia de campanha. A equação posta é complexa, pois envolve o desafio de engajar um eleitor que já se afastou do processo político em um pleito em que o cidadão precisa ainda aprender como votar.
O que o Brasil compartilha e onde os cenários divergem
A análise desse processo permite algumas reflexões comparativas. O Brasil também enfrenta uma conjuntura desafiadora, com muitos partidos e níveis relevantes de desconfiança nas instituições políticas. O sentimento antipolítica existe e cresce.
Mas as diferenças estruturais entre os dois países são igualmente importantes e não podem ser ignoradas. No Brasil, mesmo diante do desgaste político, o eleitor ainda se posiciona, se identifica com candidaturas e participa do processo. O engajamento, ainda que em níveis críticos, segue presente. No Peru, o que se observa é ausência de interesse, de identificação e de confiança de grande parte da população.
Do ponto de vista institucional, o Brasil atravessou anos de forte polarização sem as rupturas repetidas que marcaram o Peru. As instituições brasileiras foram testadas e se mantiveram estáveis.
O sistema eleitoral também é um ponto de diferença notável. A urna eletrônica brasileira representa um modelo simples, direto e reconhecido internacionalmente pela facilidade de uso e confiabilidade. Enquanto o Peru debate como ensinar o eleitor a operar uma cédula complexa, o Brasil consolidou um processo que reduz barreiras operacionais e facilita o exercício do voto.
A existência de programas sociais estruturados e investimentos em educação pública no Brasil criou uma base mínima de proteção que não encontra equivalente no Peru, onde a vulnerabilidade econômica de grande parte da população, associada à extrema pobreza, é um fator determinante para qualquer análise eleitoral.
O que este cenário nos ensina
A eleição no Peru traz aprendizados importantes sobre o funcionamento das campanhas em contextos de crise. O primeiro deles é que, quando a política perde conexão com a vida real das pessoas, o desgaste pode ir além da insatisfação e chegar a um estágio de indiferença do eleitor. Nem mesmo a comunicação política consegue reverter este cenário. Outro ponto é a importância de entender profundamente o contexto antes de comunicar. Em um ambiente de rejeição, não é suficiente ter boas propostas. É preciso abrir uma porta na atenção do eleitor. Além disso, a eleição mostra como a complexidade do sistema pode virar um obstáculo em si, tornando necessário explicar o básico antes de tentar apresentar um projeto. O contexto das eleições peruanos nos mostra que a estratégia não começa na mensagem, começa na leitura correta da realidade.

