Donald Trump, presidente do EUA - créditos: divulgação
08-03-2026 às 11h38
Por Prof. Dr. Rodrigo Marzano Antunes Miranda*
A escalada militar entre Estados Unidos e Irã em março de 2026, que já deixou mais de 780 mortos e atingiu nove países, vai muito além de mísseis e bombardeios. Por trás dos ataques, desenrola-se uma sofisticada “guerra de narrativas”onde cada lado constrói cuidadosamente a imagem de quem é o “herói” e quem é o “vilão” neste conflito que ameaça incendiar todo o Oriente Médio.
Especialistas em comunicação política e relações internacionais alertam que a “cultura das aparências” – fenômeno onde percepções importam mais que fatos
– domina a geopolítica contemporânea e torna a busca por soluções pacíficas ainda mais difícil.
“Estamos vendo um teatro geopolítico onde cada lado produz sua própria versão da realidade. O problema é que quando esse teatro vira guerra real, as consequências são trágicas”, analisa o professor de Relações Internacionais da USP, Dr. Carlos Milani.
Do Lado Americano: “Defensores da Democracia”
A narrativa construída pelos Estados Unidos segue um roteiro que lembra filmes de Hollywood: Washington se apresenta como guardião da ordem mundial, protegendo aliados democráticos contra uma ameaça existencial representada pelo “regime teocrático iraniano”.
O presidente Donald Trump, ao justificar os ataques de 28 de fevereiro, declarou que o Irã desenvolvia armas nucleares que “em breve poderiam alcançar território americano”. O secretário de Estado Marco Rubio complementou afirmando que era necessário “agir preventivamente” para proteger bases militares americanas.
Elementos-chave da narrativa americana:
- Irã retratado como “Estado terrorista” e “eixo do mal”
- Israel apresentado como “única democracia do Oriente Médio”
- Ataques justificados como “defesa preventiva” necessária
- EUA como protetores de valores democráticos globais
A linguagem utilizada é deliberadamente dramática. Termos como “regime brutal”, “ameaça existencial” e “fanáticos religiosos” dominam declarações oficiais e são amplificados pela mídia americana.
“A construção do Irã como inimigo absoluto serve múltiplas funções internas: unifica um país politicamente dividido, justifica gastos militares bilionários e desvia atenção de problemas domésticos”, explica a cientista política da UnB, Dra. Maria Helena Castro.
Do Lado Iraniano: “Resistência Anti-Imperialista”
O Irã, por sua vez, desenvolve uma contra-narrativa igualmente sofisticada, baseada na resistência anti-imperialista e defesa da soberania nacional. Teerã se apresenta como herdeiro de uma civilização milenar que sempre resistiu a dominações externas.
Após os ataques americanos, o governo iraniano declarou que a ação representava uma “declaração de guerra” contra um país soberano que não atacou ninguém. A resposta militar iraniana foi justificada como “legítima defesa” garantida pelo direito internacional.
Elementos centrais da narrativa iraniana:
- Irã como vítima de “agressão imperialista” injustificada
- Denúncia da “hipocrisia nuclear” (Israel tem armas nucleares, Irã não)
- Resistência apresentada como defesa de oprimidos regionais
- EUA e Israel retratados como “eixo do mal” que espalha caos
“O regime iraniano instrumentaliza o confronto externo para consolidar legitimidade interna e justificar medidas autoritárias como necessárias para defesa nacional”, observa o especialista em Oriente Médio da UFRJ, Prof. Ahmad Mahmoud.
A Guerra das Imagens na Mídia
A disputa narrativa é amplificada por ecossistemas midiáticos que funcionam como “câmaras de eco”, criando realidades paralelas para diferentes audiências.
Mídia ocidental tende a reproduzir a narrativa oficial americana, retratando o Irã através de filtros orientalistas como “regime medieval” e “ameaça à civilização”.
Raramente questiona a legalidade das ações americanas ou dá voz equilibrada às perspectivas iranianas.
Mídia iraniana e aliados constroem narrativa oposta, retratando EUA e Israel como “forças do mal” que espalham destruição pelo mundo muçulmano. A resistência iraniana é heroicizada como “luta épica” entre David e Golias.
Redes sociais se tornaram campos de batalha onde bots, trolls e influenciadores disputam corações e mentes globais. Algoritmos amplificam conteúdos que confirmam preconceitos existentes, criando bolhas impermeáveis a narrativas contrárias.
“As pessoas consomem apenas informações que confirmam suas crenças prévias. Isso torna o diálogo praticamente impossível”, alerta o pesquisador em comunicação digital da PUC-SP, Dr. Roberto Silva.
Discursos Internos: Mobilização e Controle
Internamente, ambos os países utilizam o conflito para fins de controle social e mobilização política.
Nos Estados Unidos, a “ameaça iraniana” alimenta o complexo industrial- militar, com empresas de defesa lucrando bilhões em contratos justificados pela necessidade de se preparar para guerra. Democratas e republicanos competem para parecer “mais duros” com o Irã, criando espiral de escalada retórica.
Hollywood contribui sistematicamente retratando iranianos como terroristas fanáticos em filmes e séries, normalizando hostilidade e preparando opinião pública para aceitar ações militares.
No Irã, o confronto com os EUA serve para consolidar legitimidade do regime teocrático. O país é apresentado como “fortaleza sitiada” por forças externas, justificando medidas autoritárias internas como necessárias para defesa nacional.
Protestos internos são sistematicamente atribuídos a “infiltração estrangeira” e “complôs americanos”, permitindo repressão de movimentos de oposição genuínos sob pretexto de segurança nacional.
O Custo Humano Invisibilizado
Enquanto a guerra de narrativas domina manchetes, o sofrimento humano real é invisibilizado. As 787 vítimas iranianas, os seis soldados americanos mortos e dezenas de civis em outros países se tornam números abstratos utilizados para pontuar debates políticos.
“Populações civis são desumanizadas através de linguagem que as reduz a ‘danos colaterais’ ou ‘escudos humanos’. Esta desumanização facilita aceitação de violência”, critica a especialista em direitos humanos da UFMG, Dra. Ana Flávia Santos.
O bombardeio informacional constante também gera traumas psicológicos que afetam capacidade de pensamento crítico e empatia das populações.
Legalidade Questionada
Especialistas em direito internacional questionam a legalidade dos ataques iniciais americanos e israelenses. Susan Breau, do Instituto de Estudos Jurídicos Avançados do Reino Unido, afirma que a legítima defesa exigiria “provas irrefutáveis de um ataque iminente”, que não foram apresentadas.
“Nenhuma evidência foi apresentada pelos EUA ou Israel. Há uma boa chance de que o início da guerra tenha sido ilegal”, avalia o advogado Geoffrey Nice, que liderou acusações contra Slobodan Milosevic no Tribunal Penal Internacional.
A resposta iraniana também pode ter violado o direito internacional ao realizar “ataques indiscriminados” contra países do Golfo, incluindo alvos civis como o hotel Fairmont em Dubai.
Impactos Globais
O conflito já afeta a economia mundial, com preço do petróleo disparando e pressões inflacionárias globais. Diplomaticamente, o cenário dividiu países do BRICS+ e levou a União Europeia a pedir reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU.
“Não há nada mais perigoso para o sistema internacional do que aceitar usos ilegais da força. Outros países podem usar o mesmo argumento para justificar agressões”, alerta a especialista Susan Breau.
Caminhos para a Paz
Especialistas defendem que superar a cultura das aparências exige revolução no jornalismo internacional, com verificação independente de alegações governamentais e cobertura multiperspectiva que inclua vozes da sociedade civil.
Também é necessária educação para literacia midiática, ensinando populações a identificar propaganda e questionar narrativas dominantes.
“A paz exige coragem de questionar narrativas confortáveis, humildade de reconhecer erros históricos, e sabedoria de priorizar bem-estar humano sobre vitórias simbólicas”, conclui o professor Carlos Milani.
Enquanto americanos e iranianos continuarem prisioneiros de suas respectivas câmaras de eco narrativas, o ciclo de confrontação persistirá. A escolha entre guerra e paz não é apenas geopolítica – é sobre escolher entre um mundo de aparências onde narrativas competem por dominação, e um mundo de realidades onde seres humanos cooperam para resolver problemas comuns.
SAIBA MAIS
O que é a cultura das aparências?
Conceito desenvolvido pelo sociólogo Gilles Lipovetsky que descreve sociedades onde imagem e percepção assumem papel central na construção da realidade social, muitas vezes sobrepondo-se aos fatos objetivos.
Cronologia do conflito:
- 2015: Acordo nuclear assinado por Obama
- 2018: Trump quebra acordo nuclear
- 2025: EUA atacam instalações nucleares iranianas
- Fev/2026: Negociações fracassam
- 28/Fev/2026: Ataques coordenados EUA-Israel contra Irã
- Mar/2026: Escalada atinge nove países
Por que o urânio preocupa?
Com enriquecimento de até 20%, urânio serve para energia e medicina. Com 90%, atinge grau militar para armas nucleares. Irã acumula urânio enriquecido a 60%
– tecnicamente próximo do grau militar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRUCHO, Luis. Guerra dos EUA e de Israel contra o Irã é legal? O que diz a lei internacional. BBC Brasil, 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c78jj93v5yro. Acesso em: [data de acesso].
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.
CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward. A Manipulação do Público. São Paulo: Futura, 2003.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. Barueri: Manole, 2005.
REDAÇÃO G1. Guerra dos EUA e de Israel contra o Irã é legal? O que diz a lei internacional: Ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã, e a resposta iraniana, levantaram dúvidas sobre se houve violação do direito internacional. BBC ouviu especialistas para analisar as ações dos dois lados. G1, 4 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/04/guerra-dos- eua-e-de-israel-contra-o-ira-e-legal-o-que-diz-a-lei-internacional.ghtml. Acesso em: [data de acesso].
SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
TILLY, Charles. Coerção, CapitaleEstadosEuropeus. São Paulo: Edusp, 1996.
* Diretor da Escola de Contas e Capacitação Professor Pedro Aleixo, vinculada ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), desde fevereiro de 2025. É doutor em Cidadania, Direitos Humanos, Ética e Política da Faculdade de Filosofia da Universidade de Barcelona-UB (2025), mestre em Direito pela UFMG (2019), especializado em Formação Política (lato sensu) pela PUC-RJ (2007) e graduado em Filosofia (bacharel e licenciado) pela PUC-MG (2005). Hoje, é membro dos seguintes grupos de pesquisa: Grupo de Pesquisa dos Seminários Hegelianos (UFMG); Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos Raul Soares (UFMG); Grupo Internacional de Pesquisa em Cultura, História e Estado (UFMG-UB); Grupo Permanente de Pesquisa em Teoria, Filosofia e Ciências do Estado (Escola de Contas – TCEMG); Grupo Permanente de Pesquisa em Inteligência Artificial e Inteligência Generativa (Escola de Contas – TCEMG); e Grupo de Pesquisa em Regimes Próprios de Previdência Social em parceria com a OAB/MG (Escola de Contas – TCEMG). Além disso, é sócio efetivo colaborador da Sociedade Hegel Brasileira, membro da Sociedade dos Amigos da Marinha em Minas Gerais (SOAMAR-MG), sócio efetivo do Instituto Mineiro de Direito Administrativo – IMDA e assessor do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara. Contato: agendamarzano@gmail.com. Lattes: https://lattes.cnpq.br/8767343237031091.

