Laís, Gisele, Flávia e Maiara compartilham da ideia de que almoço bom é aquele temperado com amizade e risadas. Créditos - Fabiano Domingues
29-03-2026 às 14h22
Gisele Bicalho*
A hora do almoço é mais que refeição; é encontro. No meio da correria do trabalho, quando os prazos apertam, as mensagens de celular não param e os e-mails se acumulam, a mesa vira refúgio. É ali que respiramos, dividimos histórias, soltamos risadas e descobrimos que a comida é apenas pano de fundo para algo maior: o afeto que circula entre colegas, amigos e familiares.
No intervalo, os laços se fortalecem. Um colega vira confidente, uma conversa descontrai, uma lembrança aproxima. O almoço é pausa, é fuga da rotina, é aquele momento em que o coração também se alimenta. Corpo e alma nutridos, seguimos o dia até o reencontro da noite, quando o jantar em família devolve o aconchego do ninho. Cada mesa guarda memórias. No fim das contas, não se trata apenas de matar a fome, mas de estar junto e de perceber que a vida fica mais leve quando compartilhamos cada instante.
E se você me permite um conselho: nada de deixar para depois. A sensação é que a vida corre rápida demais, escorre pelos dedos. Outro dia mesmo éramos crianças. Não há como esquecer das noites mornas de maio, das irmãs e amigas que passavam horas no telhado observando estrelas, longe do olhar atento da nossa mãe. Ou das férias intensas com primas e amigas. Teve até aquela que perdeu os cachos dourados nas mãos da Gyslaine. Durante meses fugimos da irmã mais velha, disposta a nos “tosquiar” também. Melhor abafar o caso.
Nessa mesma época, eu e essa mesma amiga passamos a praticar uma espécie de arqueologia doméstica: revirávamos os livros escondidos na estante da minha mãe em busca de pistas sobre o mundo secreto dos adultos. Foi assim que encontramos A tragédia biológica da mulher. O título, tão dramático, nos atiçava mais do que qualquer sinopse. Que tragédia era essa que morava dentro da gente e que ninguém explicava com todas as letras?
O sabor dos encontros
Na mesma época, minha irmã, dois anos mais velha, ficou menstruada. O primeiro absorvente foi presente do nosso avô. Sim, do avô. Em um gesto discreto, quase cerimonioso, ele entregou à neta o item como um rito de passagem: “Agora, minha querida, você pertence ao mundo das mulheres”.
Não se espante. Vovô era assim: amoroso e próximo. Por mais desafiador que fosse o momento, estava sempre por perto.
Quanto a mim, sofri muito na transição para a adolescência. Recusava-me a crescer. Gostava das coisas como estavam. A ideia de menstruar me assombrava: significava abrir mão das bonecas, das brincadeiras no quintal, da minha goiabeira de estimação e de tantos privilégios reservados à infância.
Depois vieram os amigos da adolescência e, com eles, o encantamento das horas dançantes na casa paroquial ao som de Norberto e seu Conjunto, os mesmos músicos que animavam os bailes da igreja. Como esquecer dos beijos roubados longe dos olhares atentos dos pais? Ainda hoje posso ouvir a voz firme de Papai, que, no auge do baile, bradava em alto e bom som:
- Vamos embora!
E era da cama, entre risos e protestos silenciosos, que a gente continuava ouvindo bem baixinho as canções até que a banda do Norberto parasse de tocar.
Até que chegou a juventude e, com ela, a Universidade. Tempo de conquistas e novos amigos. Muitos permaneceram. Se os laços são fortes, a tecnologia impede a dispersão: seguimos juntos em um grupo de WhatsApp. Com a maturidade, os irreverentes e inquietos “Filhos e Filhas da PUC” tornaram-se os amorosos “Amigos e Amigas da PUC”. E esses vieram para ficar.
E é nesse reencontro constante, ponte que une passado e presente, que ecoa a canção de Lulu Santos: “Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir”. Sim, mas com moderação. Afinal, na idade em que estamos, o corpo já não faz tantas concessões. A exaustão da matéria se revela na canção do Legião Urbana: “não há tempo que volte”.
As duas vozes se entrelaçam para nos lembrar que, se a memória aquece o coração, é o estar junto que verdadeiramente nos alimenta. Partilhar histórias, abraços e afetos é o que dá sentido ao tempo que corre. No fim, não é apenas sobre refeições, encontros ou lembranças: é sobre reconhecer que a vida se sustenta naquilo que dividimos uns com os outros. E que cada instante compartilhado é um sabor que permanece, mesmo quando o tempo insiste em voar.
*Gisele Bicalho é jornalista

